‘O modernismo trabalhou com a autoestima do brasileiro’, diz a presidente do Instituto Mário de Andrade, Fátima Camargo

Conhecida como ‘o berço’ de Macunaíma, a Chácara Sapucaia fica em Araraquara, interior de São Paulo. E ali próximo, em uma cidade vizinha, São Carlos, acaba de ser inaugurado o Instituto Mário de Andrade, ainda sem sede física, mas com o trabalho a todo vapor para promover não só atividades culturais que se referem ao modernista, mas também para comemorar o centenário da Semana de 22, a ser completo em fevereiro do ano que vem.

Trata-se de uma entidade sem fins lucrativos criada para cumprir a função de gestora do Projeto Contribuinte da Cultura, que desde 1999 atuava como Projeto de Extensão da Universidade Federal de São Carlos. À frente desta iniciativa está a presidente Fátima Camargo, que conversou com exclusividade com a Agenda Tarsila e adiantou o que está por vir. Segundo ela, sempre é hora de celebrar a atuação de Mário – está no ar uma exposição virtual ‘Mário por Você’ -, do modernismo, e tudo que isso ecoou na cultura brasileira. 

“Acho que aquele momento em que havia aquela predominância tão forte da cultura europeia, era uma obrigação até gostar daquilo. Nem se cogitava pensar que era bonito uma coisa do meio do mato, que acontecia dentro da casa de um trabalhador rural. E a sensibilidade não só do Mário, mas de muitas pessoas, que perceberam isso, sentindo isso, tendo como uma verdade, fez toda diferença. ‘O que a gente tem aí, vocês perceberam como isso é incrível?’ Mostrar isso é fundamental e dá uma sensação de liberdade também’, analisa. Confira, a seguir, a entrevista completa:

Vocês tiveram uma iniciativa agora em São Carlos que é de grande valia para a cultura brasileira, que foi a fundação do Instituto Mário de Andrade. Queria que você me falasse sobre esse projeto. 

O Instituto nasceu como gestor do Projeto Contribuinte da Cultura, que existe há 22 anos, e durante 18 anos ele operou como um projeto de extensão da Universidade Federal de São Carlos. Há muito a gente pensa em ter um gestor, com mais autonomia, porque ter um projeto de extensão é muito bom, a gente fez muita coisa, mas não tem muita agilidade burocrática para buscar o que precisamos. Então, há uns 2 anos e meio a gente começou a montar o estatuto, conversar, para criar esse novo gestor. E o nome Mário de Andrade é uma inspiração mesmo, porque claro que a parte artística, intelectual, isso tudo conta muito e, além disso, ter o componente da gestão cultural incrível (foi secretário de Cultura de São Paulo) é a nossa primeira referência mesmo. Foi uma coisa interessante porque a nossa assembleia foi feita há exatamente um ano atrás, no aniversário de nascimento do Mário. Estamos em atividade com o instituto recentemente, mas dentro de um trabalho que já fazemos há 22 anos.

E quais são os objetivos do Instituto? O que vai ser feito a partir de agora? Muda alguma coisa ou é uma continuidade do que vinham fazendo?

O projeto se mantém na produção de conteúdo cultural, que é o objetivo primeiro do projeto, uma produção contínua. A gente, o tempo todo, tem alguma coisa acontecendo e a nossa característica não é uma agenda de shows, espetáculos, não que isso seja ruim. Não é. Mas a nossa linha de trabalho é sempre associada à pesquisa, à transmissão de conhecimento, aos projetos que têm ação formativa, ações de arte-educação em escolas públicas, isso é muito forte no nosso projeto. Então, o Instituto vem para fazer a gestão destas atividades que a gente já tem e agora com muitas outras atividades que a gente tínha no papel antes, com um desejo muito grande de ir adiante, mas sem essa agilidade. Agora estamos indo adiante com a montagem dos cursos, prestação de  serviços culturais que o instituto poderá oferecer, uma série de modelos novos de ação e um trabalho mais estruturado também. Já começamos a nossa programação com o planejamento das comemorações da Semana, que já englobam todas essas coisas que falei. A gente vai ter ação em escola pública, tem arte-educação, atividades formativas, tem palco, mas tudo integrado e a gente propôs fazer essa programação através de uma curadoria coletiva. Não só assim, mas interativa, com especialistas das diferentes áreas, para dar conta da diversidade das questões, das expressões de arte e das questões colocadas na Semana de 22. São Carlos é uma cidade que oferece muitos pontos que podemos recorrer para conhecimentos. Temos especialistas de várias áreas. Aqui está a Universidade Federal, tem o departamento de Letras, com os professores e alunos de Literatura, os mais ligados a este tema. O Instituto de arquitetura da USP, professores mais ligados à história da arte, e também que trabalham mais com este tema modernista. Temos também a nossa conversa de curadoria no Museu Casa Mário de Andrade, com Marcelo Tupinambá. É muita gente de alta capacidade, de muito conhecimento na área, para trazer essas discussões e a gente chegar a uma programação que tenha consistência. Claro que a gente quer fazer uma coisa festiva, de comemorar que o Mário e o movimento tenha acontecido, e que isso tenha mudado tanta coisa no nosso cenário cultural, coisas fundamentais. Mas a gente quer também consistência. 

Você falou da efeméride do centenário da Semana de 22. O instituto nasceu às vésperas desta data. Está rolando o chamamento para uma exposição virtual de caricaturas do Mário, mas o que mais você pode adiantar para gente que está sendo pensado para comemoração do centenário?

A gente tinha marcado a data, a princípio, de 16 a 20 de fevereiro para bater os dias da Semana de 22. Estamos apenas decidindo se vamos manter esta data porque quero muito a participação também de crianças das escolas públicas. Então, talvez passemos para março justamente para as escolas já estarem em período de funcionamento. Nesta semana a gente vai ter cinco dias de atividades, que estamos preparando, juntando, discutindo e chegando nos formatos. Acho que é um pouco cedo para falar, porque tenho receio de falar coisas que não estão ainda no ponto. Mas posso garantir que vai ter bastante surpresas, vamos trabalhar com questões que aconteceram na Semana e depois com os desdobramentos, passando por dois destaques que vamos pôr – a poesia concreta e o movimento tropicalista – vamos falar um pouco mais acentuadamente sobre essas questões e outras ali também não menos importantes. Mas isso vai ser destaque e chegando hoje, onde temos desdobramentos. Em que medida, não somente a Semana, mas o pensamento modernista está presente hoje. Temos vários formatos, rodas de conversa, apresentações no teatro municipal, outras abertas, exposições digitais ou não, cinema. Já temos os formatos, mas agora que estamos começando a rechear, discutir o que vem.

E vocês contaram com o aval dos familiares do Mário de Andrade para a escolha deste nome. Me fala sobre isso.

Eu estava indo pelo caminho mais burocrático, tentando entender a parte de registro de marcas, se tinha registro da família negado para outros anteriormente. Até que fui apresentada ao Carlos Augusto, que é o sobrinho de Mário e detentor dos direitos dele, e apresentei o nosso projeto. Ele é uma pessoa extremamente gentil, foi muito receptivo, muito interessado. Leu tudo sobre nosso projeto, pesquisou na internet. Quando conversei com ele, já sabia tudo. Fez um depoimento incrível na nossa inauguração e mandou por escrito dizendo que permitiria que a gente utilizasse o nome para o nosso projeto, as imagens também. Então foi uma alegria tão grande. A gente ficou tanto tempo pensando: ‘tem de ser o Mário de Andrade. Mas se tiver um não, como vamos fazer?’ Parecia que não ia ter mais sentido tudo que a gente estava fazendo. Porque tinha de ser com a bênção do Mário de Andrade, o nome dele ali. Então o Carlos foi uma pessoa fundamental para a gente estar nesse pique. Sempre o nosso caráter é buscar com que as pessoas queiram saber sobre o assunto em pauta. Ao longo do tempo a gente vai procurar sempre dar umas pitadas falando da semana, do Mário, de outros artistas.

O Mário tem uma proximidade com São Carlos. Qual seria?

Principalmente a Chácara Sapucaia, que ele conhecia, vinha passar férias, que é aqui ao lado, na cidade vizinha, em Araraquara, e diz a lenda que ele escreveu o Macunaíma na banheira de lá. Tem as histórias todas, os registros. E essa chácara estava com problema de manutenção das coisas de época que ficaram lá e a Unesp acabou oferecendo serviços e ficando responsável. Uma das coisas que a gente pretende fazer, já começamos os primeiros contatos, é buscar estas informações, convidar as pessoas ligadas a esta história mais específica da Sapucaia. Acredito que estejam planejando e vamos ter uma reunião para discutir isso. A gente é tão próximo, que em minutos estamos em Araraquara. Uma oportunidade a mais para integrar a programação cultural das duas cidades.

E você, como conhecedora da cultura, queria que me falasse o que acha que o modernismo representa para história e a cultura brasileira?

Acho que em primeiro lugar é trabalhar mesmo com a autoestima das pessoas. Reconhecendo seus próprios valores, a beleza de sua arte, sua cultura, seus hábitos, tudo. Acho que aquele momento em que havia aquela predominância tão forte da cultura europeia, era uma obrigação até gostar daquilo. Nem se cogitava pensar que era bonito uma coisa do meio do mato, que acontecia dentro da casa de um trabalhador rural. E a sensibilidade não só do Mário, mas de muitas pessoas, que perceberam isso, sentindo isso, tendo como uma verdade, fez toda diferença. ‘O que a gente tem aí, vocês perceberam como isso é incrível?’ Mostrar isso é fundamental e dá uma sensação de liberdade também. ‘Nossa, eu posso gostar disso. Fui autorizado a gostar disso por aqueles que sabem’. Tem um paralelo disso que eu conto: fazemos um festival grande de música instrumental, chamado Chorando sem Parar. Tem esse nome porque no último dia começa às 10h da manhã e vai até as 22h, diretão. É o maior encontro de instrumentistas brasileiros e estrangeiros que vêm para tocar a música brasileira. Não é só choro, mas principalmente. E lembro de uma edição que a gente trouxe o guitarrista do Sepultura, o Andreas Kisser, para tocar Waldir Azevedo. A princípio pode parecer uma coisa meio esdrúxula, mas ele só veio porque eu sabia que ele adorava choro, tocar música brasileira. E quase ninguém sabe isso. A gente anunciou que ele ia tocar e veio toda moçada do heavy metal, facilmente percebida naquele universo, têm uma maneira de se vestir particular. E toda moçada ali na frente esperando o Andreas Kisser. Aí ele entra, junto com Armandinho e Davi Moraes, e arrebentaram fazendo Waldir Azevedo. Aquele pessoal todo ali, que no começo estava desentendido, curtiu pra caramba, meio que se sentindo autorizados a gostar daquela música. É meio isso (o modernismo), sabe? Trazer uma informação para a pessoa. ‘Gente, experimentem isso que vocês vão adorar’. A pessoa sente como se fosse uma autorização inconsciente. Esse processo vejo como muito importante, além, é claro, da expressão forte, artística, daqueles representantes, autores, intelectuais todos que, além de produzir sua arte, eles pensavam a arte e a cultura nacional. O próprio Mário criando dentro de um governo municipal um posto de cultura, para pensar a cultura, tem de ter dentro do governo… Essas questões começaram ali. São muitas frentes diferentes de ação, são bem loucos aqueles caras, fizeram maravilhas. Há questionamentos, teorias, mas noves fora eu, que sou leiga, acho uma maravilha, fez uma grande diferença ter essa informação na minha vida e imagino o que seria não ter tido. Visão livre sobre as coisas. Nunca é totalmente livre, mas é um incentivo para ser. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

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