‘Os modernistas ensinam as crianças a ousar’, dizem Mércia Leitão e Neide Duarte, autoras de livro infantil sobre a Semana de Arte Moderna

Quando estamos na escola, um papel em branco e um lápis em punho é um passaporte para sonhar. No desenho é possível visitar o espaço ou estar, inclusive, com alguém que já partiu e que se tem saudades. Não há limites para a criatividade. Por isso, acreditam as professoras de artes e autoras do livro infantil Uma Semana Inesquecível (Editora do Brasil), Mércia Maria Leitão e Neide Duarte, o evento no Theatro Municipal tem sim muito a ensinar para as crianças. A ordem é: ousar!

A abertura das discussões acerca do centenário da Semana de Arte Moderna, inclusive, é um ensejo para que as escolas abram mais espaço para discussão do legado dos artistas modernistas e também para mostrar que os demais integrantes têm muito a ensinar. “A Tarsila sempre foi muito presente na sala de aula, mas a gente tem de arriscar a mostrar os demais, porque também dizem ao universo da criança muita coisa”, diz Neide. 

Na história que contam no livro, duas crianças partem da exposição da modernista, realizada no Masp em 2019, para uma aventura por toda linha do tempo do movimento modernista, de maneira lúdica. Leitura imperdível para os pequenos. Confira, a seguir, a entrevista concedida à Agenda Tarsila:

Vocês escreveram um livro infantil que conta a história da Semana de Arte Moderna. Como surgiu a ideia do projeto?

Neide – A gente já escreveu livros de arte para crianças e adolescentes. E a ideia surgiu da oportunidade da Semana, que merecia um registro dedicado a esse público e em parceria com a editora a gente enfrentou o desafio. Desafiador para nós, não para as crianças, porque elas são muito mais abertas. A gente tinha um compromisso com fatos, artistas e ficamos muito preocupadas em dar conta disso tudo. 

Mércia – E o assunto é muito complexo para crianças nessa faixa etária de 8 a 12 anos. Então nós tentamos tornar o mais lúdico possível, sem perder a essência do movimento em si. E acho que conseguimos, porque fizemos essa viagem com o Abaporu, levamos eles (personagens) para tempos passados, antes do movimento, depois da Semana, até chegar aos dias de hoje. O livro mostra essa viagem no tempo e espaço. E sempre com os detalhes de todo esse percurso do legado que o evento deixou.

E vocês que estão acostumadas a escrever para criança, falaram dessa questão de deixar um texto palatável. Como trabalhar para que a criança entenda o que de fato foi a Semana?

Neide – A criança tem uma coisa excelente: ela está aberta para o diferente, o estranho, o desconhecido, o novo. Nós procuramos fazer uma coisa lúdica, que a sequência dos fatos fosse uma aventura, que jogasse com essa disponibilidade que o leitor tem. 

Mércia – É muito interessante que vai de encontro também com o que os modernistas tinham, essa ousadia, a vontade de desafiar, a vontade de conhecer o novo. E a criança é aberta a tudo isso. Então é muito fácil para a gente atingir esse leitor, porque ele é aberto a tudo. Como o livro é direcionado a 8 a 12, tentei com minha neta de 5 anos contar a história. E, por incrível que pareça, ela gostou, entendeu e achou maravilhoso ter uma mulher de cabelos verdes, um homem de cara amarela, achou o máximo. Ela pinta assim, é livre. É um público muito fácil de atingir desde que converse com a criatividade deles, da coisa lúdica, imaginária, que eles têm. 

Neide – A história, na realidade, é uma sucessão de desafios, de novas possibilidades e também de tomada de decisões. Acho que isso a criança enfrenta. A gente vai desde ela abstrair o concreto, logo no início o Abaporu chama as crianças para dentro do quadro e elas vão além concreto para descobrir novos mundos. Ela não estranha muito. Chamou e elas estão lá com ele. O desafio de tomar decisões em que estrada seguir, de ir junto ou sozinho, de aceitar carona do homem amarelo, de entrar no trem e sentar do lado da pessoa mais diferente do trem. Tudo isso vão resolvendo e enfrentando na história.

E também trabalhando a quebra de preconceitos…

Neide – Lidar com o diferente, que não é o formato que está acostumado, aparência. Lida com isso muito bem. E tudo vai falar de acordo com o repertório dele. Na exposição, por exemplo, o menino se identifica com alguns quadros da Tarsila, a menina com outros. Porque cada um tem um repertório, lembranças, vivências diferentes. As crianças vão se relacionando aos poucos. A questão da linha do tempo, que era uma preocupação nossa muito grande, brincamos com esse desafio. Eles estão em 2019, voltam para 1917, caminham para 1922, depois para 1928, voltam para 1919 e daqui a pouco em 2022. E isso é um ir e vir sem compromisso, vivendo a aventura, a oportunidade de conhecimento e acho que isso é o mais importante. Construir esse conhecimento sobre a Semana. Viver e construir. 

Mércia – E abrir curiosidade para outras coisas, aprofundar o conhecimento. Essa coisa da linha do tempo o cinema já faz tão bem. A gente vê os filmes e não é mais linear, vai e volta o tempo inteiro. Acho que a literatura já está fazendo muito isso, de caminhar nesse tempo e espaço sem cronologia certa. 

Além das obras ícones do movimento modernista, vocês também dão uma breve biografia dos principais personagens. Qual a importância de trazer a história dessas pessoas para as crianças e como foram selecionados os nomes?

Mércia – Nós fizemos um recorte dos mais importantes dentro do movimento porque não dava conta de tantos. Eram muitos. Falamos um pouco sobre eles, mas tem muito mais coisas a se conhecer. Villa-Lobos, por exemplo. É uma maravilha percorrer pelas músicas, brincar com as canções. A própria poesia presente com Mário de Andrade também é super interessante. Se a gente levar as crianças para trabalhar a língua portuguesa pode fazer muito bem esse lado da literatura, que é uma coisa um pouco desconhecida, mas com aceitação muito boa. O próprio Os Sapos, do nosso querido Manuel Bandeira, é muito interessante para a criança perceber o ritmo da poesia. Tem muito o que trabalhar dentro desses personagens selecionados. 

Neide – Quem vai conduzir isso, mais uma vez, é o leitor. Seja ele aluno ou alguém que lê em casa, é quem vai fazer as relações com o que se fala com o modernismo, trabalhar a curiosidade. Ele vai procurar caminhar com a história que contamos no livro. E é possível, para os adultos, oferecer o máximo de oportunidades para incrementar esse conhecimento. São Paulo está vivendo um momento em que está fervendo de exposição sobre o assunto, de todo tipo de estímulos muito importantes. Está todo mundo mobilizado, é um assunto muito interessante.

Mércia – E se as escolas souberem aproveitar esse momento, vai ser uma riqueza. 

Ia entrar nessa questão, porque vocês são professoras de artes para crianças. Costumavam levar a Semana para sala de aula?

Mércia – A faixa etária que trabalhávamos era mais do 5º ao 9º ano. E fazíamos uma parceria da arte com a língua portuguesa. Mas muito mais a parte de literatura, falávamos muito da Tarsila do Amaral, a Anita ficava um pouco esquecida. A Semana tem de ser muito mais trabalhada e tudo o que ela deixou. A escola tem de ter esse olhar para este momento importante da arte e da cultura brasileira, que deu uma reviravolta em toda direção cultural, artística, do Brasil.

Neide – Principalmente esse sentido de libertação sem cortes, sem romper. Não existe, na verdade, um rompimento. A gente não rompe com o que já fomos. A gente tem liberdade de trabalhar essas coisas, esses conhecimentos, vivências.

Mércia – E transformar tudo que foi deixado. Como a própria antropofagia dizia: a gente transforma de outra maneira, com características pessoais, nossas. 

A história de vocês fala da exposição do Masp, a Tarsila Popular, de 2019. Qual o encantamento que a pintora causa nas crianças?

Mércia – A obra da Tarsila é uma empatia com toda criança, de toda faixa etária. Porque aquela maneira dela pintar, a temática, a coisa do mito, da cor, do sonho, tudo está presente na obra dela. E vai de encontro a tudo que a criança gosta de fazer, desenhar, imaginar. Tem uma sintonia muito grande. Tudo quanto é livro da Tarsila agrada nossas crianças. Elas se identificam com os elementos, formas.

Neide – Quero elogiar esse filme maravilhoso que vai estrear, o Tarsilinha, nós acompanhamos o trabalho de vocês com o pessoal da produção do filme e estamos doidas para ver na tela. A Tarsila é como se fosse chamar o interesse para os outros (artistas). A Anita, todas as outras figuras do movimento também são muito interessantes e as crianças estão descobrindo ela também de uma certa forma. A Tarsila sempre foi muito presente na sala de aula, mas a gente tem de arriscar a mostrar os demais, porque também dizem ao universo da criança muita coisa. Esses outros artistas vão certamente ser bem valorizados. 

E todo esse movimento, qual a principal contribuição que eles dão, principalmente para a educação infantil? Qual o recado que dão para as crianças?

Mércia – O movimento tem característica da própria liberdade da criança, da ousadia, então é muito fácil a gente chegar para eles e contar sobre esses jovens ousados que resolveram transformar a nossa arte. É importantíssimo que os professores tenham isso bem claro e continuem com as características que foram deixadas pelos grandes do movimento modernista. Deixar a criança realmente trabalhar e criar com liberdade, experimentar.

Neide – Opinar, dizer o porquê disso, daquilo. Porque é diferente, assusta ou não assusta. Todos os comentários são permitidos, porque todos eles mexem com alguma coisa no observador. Então essa situação de sala de aula é moderna, de se conversar sobre o assunto, trocar ideias, experimentar fazer. 

E todo mundo tem voz…

Mércia – Isso é muito importante. Saber o que a criança tem a dizer. Para então a gente poder trazer o conhecimento formal. Muitas vezes a criança fica muito calada, mas ela pode ter muito a dizer. Momento de fala, de ouvir, de aceitação. 

Em vocês, o que toca os modernistas?

Mércia – Nós já somos bem coroas, mas temos uma cabeça dos modernistas. Estamos abertas a tudo. Inclusive ao novo, isso é essencial para você viver seu próprio tempo, não viver só do passado. Saber criticar, aceitar, isso tudo é para vida. Não ficar só remoendo o que já foi.

Neide – Acho que é a oportunidade de conviver, saber do que o outro gosta, porque não gostou do que fiz. Esse grupo deles, dos 5, que se reunia para discutir, brigar, dizer porque não gostou do que o outro produziu, para ler o outro, essa troca, isso era muito importante. Porque talvez muitas correntes de arte eram muito solitárias antes. Os artistas desenvolviam a obra solitariamente. E os modernistas tinham essa troca, que a gente tem. Você ir ao museu com um amigo é muito melhor do que ir sozinho, porque ele vê coisas que você não viu. A gente tem um grupo que marcamos de ir juntos sempre em exposições. Isso deve ser estimulado na criança e ficou de lição para gente também, desse conviver, nem sempre pacífico, mas que gera uma troca e crescimento. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

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