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‘Os modernistas jogaram luz na arte brasileira’, diz o diretor executivo da São Paulo Escola de Teatro, Ivam Cabral

Quem passasse por um belo prédio na avenida Rangel Pestana, nas primeiras décadas do século passado, corria o risco de cruzar com Patrícia Galvão, a Pagu. Foi nas salas de aula da Escola Estadual Padre Anchieta, hoje sede da São Paulo Escola de Teatro, que ela e outras jovens estudaram o magistério. Não à toa, é lá que está a exposição Universo Pagu, que pode ser visitada de forma gratuita até o fim deste mês.

Quem faz o convite é o diretor executivo da Escola de Teatro, Ivam Cabral, que exalta o trabalho dos 400 alunos da unidade para que o projeto se viabilizasse. Foram aulas de iluminação, cenografia, sonoplastia, entre outras coisas, que tiveram como temática o modernismo e se transformaram na celebração do centenário. Para ele, uma efeméride de tamanha importância para a cultura do país não podia passar despercebida. “Os modernistas jogaram luz na arte brasileira e essa contribuição deles é fundamental”, disse. Confira, a seguir, a entrevista exclusiva à Agenda Tarsila: 

Vocês têm uma série de atividades comemorativas referentes ao centenário da Semana de Arte Moderna que tiveram início ano passado e vão dar prosseguimento este ano. Queria que você detalhasse para o público o que estão fazendo.

A gente iniciou no ano passado com uma infinidade de ações que coloriram esse grande acontecimento, que culmina agora em fevereiro com o aniversário da Semana. Em um primeiro momento fizemos em modo digital, porque quando começamos as comemorações não podíamos sair, tínhamos de cumprir o isolamento social. Nem isso deixou que a comemoração fosse menor, a fizemos em grande estilo. Nossa primeira ação veio em abril, quando tivemos um grande festival, o Quarentena Festival, onde reunimos artistas do mundo inteiro em torno desse projeto que, naquele momento, era o start de tudo. E daí a Semana de Arte Moderna, a Tarsila, Oswald, passaram a ser personagens e material de pesquisas dentro da nossa formação, dos cursos regulares da SP Escola de Teatro. Foi um momento onde a gente se debruçou em estudos sobre a Semana de 1922 e foi super bonito. Neste momento a gente tem uma exposição na nossa sede do Brás, a Universo Pagu, que encerra no dia 28 de fevereiro e com ela acabam as comemorações. A gente convida vocês para visitarem a mostra. E ela tem uma característica muito legal: a Pagu estudou nessa escola. Esse prédio é do início do século 20 e foi construído para ser uma escola de magistério. Durante muito tempo, algumas décadas, foi a primeira escola de magistério de São Paulo, era só de meninas inicialmente, e foi referência para a cidade. Tivemos ali muitas estudantes famosas como a Hebe Camargo, a Lolita Rodrigues e a Pagu. Quisemos reproduzir uma sala de aula da época que a Pagu esteve lá, quando ainda se chamava Escola Estadual Padre Anchieta. É um prédio, aliás, muito bonito, com uma arquitetura especial e a exposição está bem bacana. Ela saiu de dentro das nossas salas de trabalho, foi coordenada pelo nosso formador de cenografia e figurino, que é o J.C. Serroni, e com as assistentes dele, a Viviane e a Telumi e o resultado é muito bacana.

Como é retratado o universo da Pagu?

Tem esse momento que ela passou pela escola, reproduzimos a sala de aula desse período e é interessante perceber como as coisas eram naquele momento. E a gente traz também uma vasta pesquisa sobre a vida dela, qual o impacto dessa personagem, porque a Patrícia  Galvão é fundamental na história, trazendo um mapa da vida dela, de onde veio, e porque ela foi fundamental para os modernistas.

E ela foi uma mulher de teatro também?

Sim. O bacana desse pessoal é que embora o teatro não estivesse exatamente lá, nas noites do Theatro Municipal em 1922, foi um pouco  coadjuvante nessa história, porque não se teve nenhuma apresentação, mas todas as pessoas que estavam em volta do movimento escreveram para o teatro, atuaram. Era um reduto onde essas inquietações destes artistas abrigava. Então o teatro é fundamental na história da Semana de Arte Moderna de 1922.

Até depois teve O Rei da Vela, de Oswald, encenado no Teatro Oficina…

São obras muito importantes. O Rei da Vela é um grande texto. Além de ser histórico, por marcar um período, é um texto atemporal. Ele pode ser montado a qualquer momento e vai fazer sentido. Como todas as obras dos modernistas, tem muita potência na criação deles. Até para a gente entender um pouco da história do nosso país, recompor ela é fundamental. Visitar uma exposição como essa pode abrir muitos olhares não só para artistas, mas para qualquer pessoa. 

Soube que os alunos do último semestre trabalharam bastante a temática modernista, até houve uma correlação com artistas atuais. Como foi essa formação?

Foi muito bonito, prazeroso. Trouxemos a Semana para dentro da sala de aula. Não foi só um trabalho em paralelo ou auxiliar. Durante o segundo semestre inteiro os modernistas foram pesquisados à exaustão por todos nossos 400 alunos através de experimentos. E a nossa  escola não é só de atores. É a primeira escola neste modelo na América Latina, que trabalha várias artes do palco. Além de cenário e figurino temos iluminação, sonoplastia, dramaturgia, humor, direção e atuação. Todas essas áreas deram contribuição não só à exposição que está aberta, mas aos experimentos que foram mostrados o ano todo. Lá tem todo um trabalho de som, de iluminação, a ambientação é bastante importante, diria até que é uma experiência sensorial a visita. Todos os alunos estiveram presentes na construção deste trabalho. 

Para você qual foi a principal contribuição dos modernistas para a cultura brasileira?

Especialmente trazer a brasilidade para a arte. A gente sempre foi muito colonizado. O Brasil do século 20 que tinha a Europa como inspiração e até hoje temos essa noção que falar de arte tem de falar da Grécia, Egito, renascença, esquecendo que a gente tem uma arte brasileira. O povo originário, os ameríndios, faziam uma boa arte e durante muito tempo isso foi desprezado. Os modernistas jogaram uma luz para este universo e até hoje ele ainda precisa ser iluminado. Nos últimos anos a gente entendeu que tinha de pensar no Brasil apartado de um modelo, estrutura, que vinha de fora dizendo o que é arte e o que não é. Os modernistas jogaram  essa luz que até hoje ela é importante. Sempre se consumiu muito pouco a arte brasileira. Se for ver no teatro brasileiro, em 100 anos, 80% dos autores não eram brasileiros. Em outros territórios a mesma coisa: música, literatura, artes visuais. Sempre se valorizou o que vinha de fora e não se pensou no que podíamos fazer com a nossa arte. Essa contribuição é fundamental. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 9 de fevereiro de 2022

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