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‘Oswald é um biscoitão, um pão, que precisa ser devorado’, diz o neto do modernista, Rudá K. Andrade

Oswald de Andrade não passou por esta vida despercebido. Dono de uma personalidade ímpar – hora bonachão, outra incendiário – o escritor modernista fez história na cultura brasileira. Mas um recorte especial de sua trajetória acaba de ser feito por seu neto, o historiador e escritor Rudá K. Andrade, no livro que lança amanhã: A Arte de Devorar o Mundo: As Aventuras Gastronômicas de Oswald de Andrade. 

Nas pesquisas para compor a publicação, Rudá, que é filho de Rudá Andrade – fruto do romance de Oswald com Pagu -, descobriu de onde vieram os gostos peculiares da família como, por exemplo, o apreço por rã, e também elenca os pratos preferidos do avô: vatapá, feijoada, galinha ao molho pardo e quindim. “Oswaldo (ele chama o avô desta maneira) gostava de comer bem”, ressalta. Rudá acredita que Oswald estaria muito satisfeito em ver sua obra reverberando passados cem anos da Semana de 22. “ Ele é um biscoitão, um pão, que precisa ser devorado. Ele estaria muito feliz do reconhecimento que sempre buscou”. Confira, a seguir, a entrevista exclusiva à Agenda Tarsila:

Vamos falar deste livro que você lança agora em setembro, sobre as aventuras gastronômicas do Oswald. Por que você pegou este viés para contar a história dele para o público leitor?

Na verdade cheguei nesse viés por conta do meu pai (Rudá Andrade, filho de Oswald e Pagu), que gostava muito de cozinhar e me ensinou a gostar também, principalmente conhecer a cozinha, de entender um pouco o mundo pela cozinha. (Ele me ensinou) A questão de entender a cultura através da cozinha e os alimentos e o comer é uma linguagem, um modo de contato e de entendimento do mundo também. É uma experiência de vida a alimentação. Comecei a pensar tudo isso por conta do meu pai e um dia parei para pensar: ‘poxa, como este gosto chegou até mim? Cheguei na ideia de fazer um histórico familiar. ‘Por que gosto de determinadas coisas?’ Fiquei pensando no meu pai e cheguei no meu avô. O que passou do meu avô para o meu pai e chegou até mim? É uma viagem da família, para entender um pouco minha história. Tem esse motivo muito pessoal de gostar de cozinhar, de ser historiador e acabei juntando a pesquisa das minhas leituras. Enfim, acabou sendo um recorte da biografia dele (Oswald) ou então uma biografia culinária. 

E Oswald era dado a cozinhar?

Ele gostava mais de mastigar. A coisa da cozinha, de fato, ele não desenvolveu além de um palpite aqui e outro ali. Inclusive em refeição de festa ou mesmo um assalto na geladeira, um doce, mas ele gostava de comer. Foi uma pessoa que pôde usufruir e teve acesso aos melhores restaurantes do mundo da época dele. Ele passou bem, digamos. Teve todo um conhecimento e experiência de participar desse mundo da alta gastronomia do começo do século passado. Ele sabia comer bem. 

E o que era comer bem para Oswald? O que ele gostava?

Ele gostava de alguns pratos brasileiros. O que chamava atenção, que destaco bastante no livro, é o vatapá, feijoada, galinha ao molho pardo. Coisas bem caipiras, baianas, comidas fortes. Gostava de camarão, de bife com batata, coisas mais simples. E também de pato com laranja, bacalhoada portuguesa. Ele teve acesso aos melhores restaurantes de Paris, passou uma temporada junto de Tarsila lá e tiveram acesso a lugares com comida francesa, os pratos, as sopas, enfim, toda essa gastronomia. Era uma pessoa muito festiva e estas festividades sempre foram marcadas pela comida e rituais. Desde a formação da ideia da Semana de 22, isso tudo foi conchavado ao redor das mesas, dos salões. Ele confessa algumas vezes que gosta destes pratos que citei, inclusive quindim. São pratos que trago um pouco no livro.

E você herdou estes gostos gastronômicos dele?

Então, herdei do meu pai, que era uma pessoa que foi estudar cinema na Itália no pós-guerra e lá ele aprendeu a comer macarrão. Trouxe este hábito e cresci comendo macarrão, todo dia tinha uma pasta diferente. Então acho que o que ele aprendeu com Oswaldo também desenvolveu com a experiência, mas foi além. Deu um passo na cozinha, aprendeu a cozinhar, fazia os molhos, por vezes as massas e eu fui convivendo, sem pretensão alguma. Aprendi desde pequeno a comer rã, por exemplo, prato que Oswaldo curtia também. Depois que entendi o porquê. Fui pesquisando e encontrando de onde veio isso. 

O Oswald tinha uma fama de ser muito supersticioso, bonachão. Ele era assim mesmo ou criou-se um mito em cima da personalidade dele que era, de fato, bem diferenciada?

Ele era muito sagaz, esperto, com agilidade mental muito forte, ironia, sarcasmo, então ele tinha esse movimento bem provocador, incendiário. Mas sempre tudo muito com inteligência, perspicaz. Ele era uma pessoa muito familiar, gostava muito da família, cuidava, de estar perto, de influenciar na educação, carregava todo mundo junto. E muito carinhoso também. Agora é isso aí: era sarcástico, incendiário dentro do universo artístico, do campo intelectual que ele se propôs a participar, escrever, agir, atuar, e aí tinha esse comportamento mais combativo. Com isso formam-se mitos. Já não é mais ele de fato, são vários Oswaldos. 

E qual o Oswald que existe para você?

Continuam sendo muitos Oswaldos. Na minha pesquisa o que encontrei são muitos, assim como são muitos Rudás, que vão atravessando, modificando, descobrindo, crescendo. ‘Alegria dos que não sabem, mas descobrem’ era a frase do meu avô. Tem o Oswaldo jovem, o maduro, o comunista, o palhaço da burguesia. São diversos. Eu procuro alguns deles que são justamente os comilões, gastrônomos, mas também não passo só isso. Fazemos uma contextualização histórica e literária também das questões que envolvem a culinária e como ele desenvolve, por exemplo, a coisa da antropofagia, uma reflexão muito contundente, muito marcante, que ajudou a pensar a cultura e a relação com o outro, na questão filosófica. 

É quase uma metáfora gastronômica…

Justamente, porque a alimentação é cultura. E, para ele, comida era cultura e cultura era comida.

E como você encara o legado do seu avô, agora às vésperas do centenário da Semana de 22? Ele faleceu um pouco triste por não ter o reconhecimento à época, que veio depois, com o Teatro Oficina, com o tropicalismo.

Fantástico o legado dele. Acho que era o que ele queria, ser devorado. Ele é um biscoitão, um pão, que precisa ser devorado. Ele estaria muito feliz do reconhecimento que sempre buscou. Esse Oswaldo vaidoso queria um reconhecimento que foi uma batalha, um trabalho de longos anos, dos filhos, que continuaram a divulgar o nome do meu avô e, enfim, conseguiram ajudar a construir e publicar todos os livros dele no seu centenário, que foi em 1990. Meu pai, inclusive, na época, coordenou diversos eventos, movimentos de registro, lá no MIS (Museu da Imagem e do Som) de São Paulo, gravou depoimentos audiovisuais, enfim, diversas atividades. Esse foi um marco do reconhecimento. Além de todo esse outro legado que você indicou, do Teatro Oficina, dos concretistas, enfim, todo esse reconhecimento teve essa data e a partir daí a gente veio seguindo, publicando, sempre falando. Oswaldo falava muito isso: ‘falem bem, mal, mas falem de mim’. É um pouco isso. Ele estaria bem contemplado, eu diria. Pensando na releitura dos cem anos do modernismo é uma ótima oportunidade da gente continuar pensando na grande pergunta que os modernistas deixaram: que Brasil que é esse? Quem somos? Meu avô estaria pensando neste sentido, de continuar com essa pergunta, ao mesmo tempo em uma leitura antropofágica, em uma releitura histórica onde a gente desconstrua essa histórai oficial e traga ela em sentido carnavalesco, mais satírica, enfim, contestadora, e que a gente consiga romper com as nossas questões fundamentais que é a questão da herança da escravidão, o racismo estrutural, o colonialismo estrutural. A chave do Oswaldo moderno é por aí, o combate, a resistência ao colonialismo, essas estruturas que permeiam até hoje e nos conduzem ao desastre que a gente vive. Estamos lançando um livro sobre alimentação, gastronomia, sendo que a gente está em um caminho como pais muito inverso e triste da fome crescendo novamente nos números e nas barrigas da gente brasileira. 

Outra pessoa que teve bastante importância nesta história foi sua avó, a Pagu. Você acha que o legado dela foi reconhecido, inclusive do ponto de vista feminista?

Vem sendo. Pagu é um caminho mais marginal, mas tem cada vez mais seu reconhecimento. Ficou anos presa, a literatura dela é algo muito bem reconhecido, mas pouco acessado ainda. Existem grandes estudos, mas há carência de diversidade de pesquisas. Mas, sem dúvida, é uma história que também tem muito a nos ensinar, a dizer sobre nós, em formas de resistência, estratégias de luta e de convivência. Acho que a figura dela ainda tem muita ressonância hoje.

E existe algum outro projeto relacionado à obra do seu avô ou da sua avó que está por vir, além do livro?

Vamos indo, amadurecendo, cozinhando…(risos). Vamos comemorar o centenário abrindo as reflexões que precisam ser abertas, a diversidade que não foi possível na época (da Semana), não fizeram a abertura desta diversidade de vozes e de regiões mesmo. Foi tudo centrado em São Paulo. Quebrar essas fronteiras. Acho que este é um grande ponto para a gente comemorar, ressignificar o movimento modernista que pode nos auxiliar nisso: o que ele pode trazer para a gente de bom? Desenvolver pesquisas de diversidade de tema, isso é fundamental a gente precisa trazer de volta do modernismo, de quem somos, que Brasil é esse.

Está faltando um pouco disso no Brasil hoje, essa questão de olharmos para nós e ver as riquezas que temos, a nossa cultura, valorizar isso?

Isso, e ver isso com olhos críticos. O Manifesto Pau-Brasil (escrito por Oswald) dizia: ‘ver com olhos livres, mas sempre fazendo as críticas necessárias. Que Brasil é esse? Que brasileiros somos? Que brasileiro eu quero ser? E para isso significa fazer uma revisão da história, um olhar crítico, entender as estruturas que nos oprimem e aquilo que a gente faz a manutenção disso nas vias, o que podemos quebrar. São essas questões que a Semana de 22 vem reverberar nos meus pensamentos e é o que emano para a gente discutir e debater. Entre os projetos que tenho está a Ocupa Sacy, que tem por objetivo o  reflorestamento dos sacis no imaginário do povo brasileiro. É uma exposição em Taubaté, no Sesc, com agendamento (aqui), com todas as medidas sanitárias restritivas, funcionando direitinho, vai até dezembro e lá você tem um encontro com a diversidade sacisística, todo material que foi encontrado em escavações arqueológicas. Encontramos o famoso inventário de 77 sacis, de ascendência africana, indígena, todos os possíveis e mais um pouquinho. É um espaço de reflexão e debate pré-colonial e essa é a luta nossa que nos ajudam a entender e respeitar o outro, a encarar as questões e mazelas da nossa escravidão, do nosso processo colonial, de destruição da floresta e tudo mais. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

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