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‘Oswaldo Goeldi se entregou à gravura como forma de celibato’, diz a sobrinha-neta e curadora do projeto que leva o nome do artista modernista, Lani Goeldi

Amigo do desenhista, ilustrador e pintor Emiliano Di Cavalcanti, o ‘mestre da gravura’ Oswaldo Goeldi não podia ficar de fora do movimento modernista. Embora fosse avesso a convenções – nunca se casou ou teve filhos, ‘exigências da sociedade’ -, a exposições e coisas do tipo, o artista, nascido no Rio de Janeiro, mas que passou grande parte da vida na Suíça, encontrou no movimento a força para cortar as amarras. Seu negócio era ser livre e esboçar em sua arte a visão peculiar e sensível do que se passava ao seu redor. 

E a história desse grande artista acaba de ser contada, de forma precisa e particular, em biografia recém-lançada Oswaldo Goeldi – Repaginando a História, organizada por sua sobrinha-neta, Lani Goeldi, que também toca há mais de 20 anos o projeto que leva seu nome. Para a Agenda Tarsila, ela lembra das dores e sucessos do tio artista, e como sua mensagem de repassar ao próximo todo conhecimento calou fundo em sua trajetória. Para ele, a arte era uma religião. “Oswaldo Goeldi se dedicou à gravura como forma de celibato”. Confira, a seguir, a entrevista completa: 

Você está à frente do Projeto Goeldi e queria que me contasse sobre o trabalho que promove em prol da curadoria da obra do seu tio-avô, o modernista Oswaldo Goeldi?

Esse trabalho começou há mais de 20 anos. Mesmo antes de ser consolidada como instituição, nós já tínhamos um acervo guardado. Começamos a nos organizar por conta própria. Ainda não tínhamos pessoal, equipamentos, era uma coisa bem caseira. Porque o pai do Oswaldo Goeldi, Emílio Goeldi, zoólogo naturalista suíço que veio para o Brasil muito jovem, a convite de Dom Pedro II, casou-se com uma brasileira também descendente de suíços e teve sete filhos. Destes, somente o mais novo, que é meu avô, deu herdeiros à família. O Oswaldo é mais velho que meu avô, todos os outros morreram sem descendentes, e meu avô foi o único que seguiu a carreira paterna. Quando ele faleceu deixou um acervo muito grande de material não só do pai como do irmão artista. Isso tudo acabou caindo meio que sem querer, ou por obra do destino, para que eu começasse a organizar isso sem nenhum propósito. Mas as coisas foram acontecendo, a gente achou importante começar a fazer a difusão desse trabalho. Ele já era de uma forma conhecido, mas a difusão era meio que desordenada, até porque não deixou herdeiros, só os sobrinhos. A coisa ficou meio solta. A partir do momento que a gente criou uma instituição, houveram os reconhecimentos públicos, premiações, a coisa foi tomando um corpo e por conta disso começamos a fazer a catalogação das suas obras, que hoje já está mais de 2 mil. Estão em várias instituições do mundo, inclusive, e a gente procura mapear isso. Recentemente mesmo tivemos no Rio de Janeiro e fomos visitar o acervo que era do antigo Banerj (Banco do Estado do Rio de Janeiro), e graças a Deus o governo do Rio o incorporou e agora está no Paço Imperial. Vamos lá mapear as obras. É um trabalho de formiguinha que a gente vem construindo e não trabalhamos só com ele, temos três vertentes: a Associação Oswald Goeldi, constituição jurídica que trabalha com eventos artísticos e promove outros artistas da região, um trabalho de cursos para população, de formação, que acho importante dar ferramentas para o artista para que ele possa trabalhar. Temos o Ponto de Cultura, que trabalha com as Figureiras de Taubaté (artistas populares do Vale do Paraíba), o símbolo do artesanato do Estado de São Paulo, pólo muito forte e já ganhamos prêmios com esse trabalho atuando desde 2009. E temos o Projeto Goeldi, que cuida só da obra dele. Há oito anos, de tanto organizar esse material, a gente resolveu fazer uma publicação onde eu pudesse juntar tudo isso, os depoimentos dos outros artistas em relação a ele, as cartas de próprio punho que eu tinha, os documentos, as poucas fotos dele. Para que as pessoas pudessem saber não só o trabalho do ‘mestre da gravura’, Oswaldo Goeldi, mas também um pouco da intimidade do artista, que era um homem comum, como qualquer outro em começo de carreira. E os percalços que ele sofreu, os apoios que teve, as críticas, e assim mesmo chegar onde chegou. Esse foi o norte do meu trabalho. E paralelo a isso fomos participando de editais públicos para poder fazer a manutenção do acervo dele. Fizemos exposições no Centro Cultural Banco do Brasil, na Caixa Cultural, no Centro Cultural dos Correios e colocamos o trabalho dele em destaque. Fazendo isso também a obra dele começou a se valorizar mais no mercado de arte, porque a gravura sempre foi considerada uma arte menor, por ser no papel. Com isso, fomos trabalhando a biografia que culminou no lançamento no ano passado.

O Goeldi participou da Semana de 1922 e integrou o movimento modernista?

Isso foi engraçado, porque tanto ele quanto o Di Cavalcanti estavam no Rio de Janeiro e as pessoas às vezes me perguntam: ‘com qual obra ele participou na exposição?’ Ele não participou com obra alguma. Acontece que tanto ele quanto o Di eram ilustradores de periódicos, jornais. Ali a obra dos dois foram consideradas extremamente importantes para o movimento, que à princípio era literário. Veio da notícia, da transformação. Na verdade ele era avesso a toda questão de exposições, convenções, ele não se casou, era um trabalho muito solitário que ele fazia. Se entregou realmente à gravura como forma de celibato mesmo. Mas gostava dessas questões políticas, porque como viveu 24 anos na Suíça a hora que ele veio para o Brasil, encontrou um país muito atrasado do que tinha na Europa, em termos de movimento artístico. Então ele pensou: ‘por onde começar?’  

Então ele não participou da Semana, mas passou a integrar o movimento?

Exatamente. Mas Di Cavalcanti foi uma das pessoas que o incentivaram bastante, que gostou logo de cara do trabalho dele. Era, para ele, muito inovador e achou que Goeldi não podia ficar de fora. Ele teve uma história de vida muito triste, porque praticamente foi excluído da família.

Por que?

Ele tinha um amigo com quem estudou na Europa e quando ficou sabendo que o rapaz vinha para o Brasil ficou super feliz. Pensou em ter alguém para falar sobre arte, coisa que aqui ele não achava, não se sentia inteirado. Só que esse amigo se aproveitou da amizade do Goeldi, que o alojou em casa, e acabou conquistando a irmã mais nova dele. Quando ficou sabendo que os dois iam casar, se sentiu traído. ‘Você devia ter me falado, não agir pelas costas’. Mas o pior veio depois, porque esse amigo muito agradável, polido, esse cunhado, acabou tomando conta da família. Da mãe que era viúva e dos outros irmãos. Começou a jogar as coisas que o Goeldi tinha como artista de forma negativa. ‘Nossa, ele não trabalha, só fica na noitada, gastando o dinheiro da senhora’. Como ele tinha ambições escusas de gerenciar todo patrimônio da família, e o Goeldi era o empecilho para isso. Então convenceu os outros irmãos a darem um dinheiro para ele e colocá-lo em um navio de carga. Isso aconteceu exatamente em 25 de fevereiro de 1922, por isso não participou da Semana.  Ele pensou: ‘acabou tudo para mim, estou inconformado, não tenho mais família, amigos’. Nessa época meu avô não estava aqui, ficou sabendo do ocorrido por carta, porque se casou e foi morar fora. O núcleo de artistas, escritores, amigos, se uniu e mandou um dinheiro para Dakar, que era onde o navio ia parar, para que ele descesse e voltasse. Foi o que ele fez, mas essa mágoa nunca acabou. Morou com um casal de amigos, teve de começar do zero. E começa a parte solitária dele, que acabou se transformando por causa desse episódio. Ele só tinha como companheiros a arte dele e os amigos da época.

E os modernistas integravam esse grupo de amigos?

Sim, com certeza. Graça Aranha foi um deles, que deu muito apoio. Até a obra dele, que resolveu expor em 1917, foi muito criticada na época, porque ele não fazia gravura ainda, só desenhos. Ainda estava se encontrando: ‘qual é a minha técnica, onde quero chegar?’ E as pessoas da época não entendiam muito bem, porque eram todos academicistas. A cada coisa que você vai descobrindo, principalmente nos manuscritos dele, que reproduzi todos no livro, você percebe nestas linhas que vira e mexe ele fala dessa mágoa. As pessoas falam: ‘ele era um solitário, muito soturno’, mas é porque não conhecem a biografia dele. Ele tinha um humor muito assertivo, é até engraçado porque nas entrelinhas ele fala mal do Picasso, mas quando faz isso não fala diretamente do Picasso, mas da arte dele e como se comportava diante do público, dos clientes. A ética e o caráter eram tudo para ele. Prometer o que cumpriria. Nessa descrição procurei enfatizar muito bem essas qualidades, porque às vezes as pessoas por quererem uma coisa a mais do outro acabam se beneficiando de certa forma erroneamente. Mas tem algumas coisas muito engraçadas, por exemplo, o Frank Scheffer, que era um amigo dele, falava que o pai dele era médico. Goeldi estava com um mal qualquer e na hora de pagar a consulta perguntou o preço. O médico disse: ‘não é nada, sou muito admirador da sua obra, é um prazer atendê-lo’. No outro dia ele mandou uma gravura de presente. Não queria ficar sem pagar. São essas questões que o tornam uma pessoa tão especial.

Você falou que ele demorou para se encontrar, mas acabou adotando a xilogravura como a arte dele. Como foi esse encontro e o que o gênero representou na sua obra?

Ele aprendeu a xilogravura com Ricardo Bampi em 1924 e começou a fazer esse trabalho, mas na verdade ele não tinha ainda muita certeza. Foi a uma exposição que ele viu a obra de Alfred Kubin, o artista austríaco, e aí pegou o contato e mandou uns desenhos. A maior surpresa é que como já era um artista consagrado, incentivou tanto a obra dele, que aquilo deu um norte de como deveria seguir. Durante 30 anos se corresponderam. Teve uma época que ele fez dez gravuras em madeira, um livro feito de forma artesanal, vendeu e conseguiu ir para Europa e o conhecer pessoalmente. Mas esse é um fato que quantos artistas não passam hoje em dia? ‘Fiz um contato com alguém que gostou do meu trabalho e preciso ir para lá, não tenho dinheiro, então vou correr atrás’… É muito parecido. Falo que Goeldi é um artista muito atual, contemporâneo, porque colocava holofote nas pessoas que são praticamente invisíveis da humanidade. Buscava falar do vagabundo com cachorro, mostrava na obra dele, dos móveis jogados na calçada. A madeira exercia nele uma força controlada. Ele não podia fazer de qualquer jeito, era um exercício de paciência. Até ficar mestre. ‘Tem de exercitar, fazer, não pode desistir’, dizia para os alunos, porque ele foi professor na escolinha de Belas Artes do Rio.

Por muito tempo morou fora. De que maneira incorporou a arte brasileira, premissa dos modernistas, na obra dele?

Incorporou quando viu os brasileiros. Ele colocou cor na obra dele com a ilustração do Cobra Norato. Começou a lembrar da memória que tinha na infância, porque de 1 a 6 anos ele ficou morando lá no Pará. Essa memória afetiva começou a aflorar mais tarde, quando fez o Martim Cererê ele fala da Amazônia, uma série de 22 flores também mostra a floresta. Para ele foi muito difícil, porque não era pintor. Na hora de fazer os matizados, escolher, então à princípio fazia gravura em preto e colocava papel colorido atrás, para dar sombreado. Depois foi se aprimorando, começou a fazer as suas próprias ferramentas, rolinhos menores para colocar tinta apenas um pedaço da matriz. Ele fazia todas as xilogravuras com a colher de pau, por isso as tiragens são pequenas. Só uma que é o Ladrão, que ele fez na prensa, porque é uma publicação do Aníbal Machado, que fez uma homenagem a ele, como é um livro numerado, de 400 exemplares, tinha uma gravura assinada e numerada. Mas, na maioria, eram obras feitas na colher de pau. Essa do guarda-chuva que é o ícone dele, uma vez perguntaram: ‘como você chegou nesse tom de guarda-chuva degradê?’ Normalmente a xilogravura é uma técnica chapada, do carimbo. ‘Isso foi uma experiência, a minha unha estava suja de preto e quis calcar com ela e saiu. Depois comecei a fazer de propósito’. Quantas vezes isso acontece com diversos artistas.

Você também é artista plástica, herdou esse DNA?

Sim, desde os 9 anos. Minha mãe é pianista e o pai dela era pintor de painéis de igrejas de São Paulo. Ele achava que eu tinha de estudar pintura e isso não era simplesmente como toda mulher estudava. As irmãs do Goeldi têm belíssimas aquarelas que ninguém conhece. Mas a mulher naquela época era educada para fazer esse tipo de trabalho: bordado, tocar instrumentos, pintura. Eram mulheres do lar que tinham aptidões manuais. No meu caso, na minha geração, meu avô e minha mãe achavam que eu tinha de ter o lado da arte. Então começou a me ensinar a desenhar, e comecei a gostar de pintura, fazia quadrinhos. Depois fui fazer curso de publicidade, porque a minha mãe falava que a vida de artista era muito difícil e eu não ganharia dinheiro com isso. Mas era o que eu adorava fazer. A vida envereda por coisas, fui trabalhar na área, fiz marketing estratégico e comércio exterior, estudei fora, mas virava e mexia eu estava em um museu. A questão de ensinar como as pessoas podem fazer certas coisas me encantou. E resolvi fazer Artes Visuais. Já tinha o curso, sabia como fazer e queria muito passar para as pessoas. Essa generosidade artística veio de família, de querer passar para os outros o que você aprendeu. Minha mãe, meu avô, o Goeldi eram assim, e eu continuo essa história. Hoje na associação somos uma equipe pequena e estamos prontos para ajudar um ao outro. Não estamos preocupados com o dinheiro em si, mas a gente sabe que vai trabalhar no livro do outro e vai aprender. É esse ganho intrínseco que é o nosso prêmio, pagamento.  

Como te tocam os modernistas e todo legado que deixaram para cultura brasileira, inclusive o seu tio-avô?

Isso é muito importante. Você quebra um paradigma da época e agora mesmo estou trabalhando em um projeto muito legal, que é Os Dois e 22, com apoio do governo do Estado de São Paulo, um edital que nós ganhamos da Semana de Arte, porque estou em Taubaté e vamos falar do Lobato e da Anita, daquela contenda que houve entre os dois e foi o start para que não só o Lobato se mostrasse como tão bom escritor que ele era, independentemente do que fez. Porque todo mundo acha que ele maltratou Anita, mas simplesmente deu foco para o trabalho dela e a mostrou como uma mulher forte, empoderada, que falou ‘a minha obra é essa e eu gosto que seja assim’, apesar da cultura machista de não aceitar determinadas coisas. Vejo isso como empoderamento dessas pessoas que querem mudar o sistema. Você não precisa gostar só disso e ter como parâmetro de que é melhor que a outra arte. É o que está acontecendo com a arte contemporânea agora. Ela pode não ter muitos adeptos, admiradores, mas ela está aí para quebrar paradigmas. O artista tem de aceitar o que vem de forma diferenciada sem restrições. Porque ele é o pólo criativo da humanidade. Se diante de tudo que acontece se ele não mostrar a arte, o belo, mesmo que não seja para alguns, como a gente fica? O artista está lá para retratar, às vezes de forma rebelde. O Goeldi costumava trabalhar com o preto, mas você consegue enxergar em sua obra a luz. A gravura Abandono é triste, com o coração vermelho, se ficar fixada vai ver uma tristeza, mas vê o coração pulsando, nunca desistindo, quase sendo engolido pela paisagem. ‘O meu coração ainda bate’. E assim é a poética do trabalho dele, que a gente vai contando para as pessoas, principalmente para a nova geração que está chegando aí.

E essa exposição de Taubaté, tem previsão de quando vai ser?

Vai acontecer em julho, no Sítio do Picapau Amarelo, onde Lobato morou. Vamos ter 10 academicistas e 10 modernistas e releituras, porque a gente está agregando artistas de Taubaté para fazê-las. E vamos ter ainda o trabalho da dramaturgia, entre Lobato e Anita, que vai ter essa contenda, como se a gente tivesse voltado no tempo. Uma coisa bem legal.

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 7 de março de 2022

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