Miriam Gimenes

Passeio guiado no Cemitério da Consolação permite ‘visitar’ modernistas e outros nomes que ajudaram a construir a cidade de São Paulo

Muitos fazem faculdade em prédios suntuosos. Outros da maneira como podem: até mesmo  à distância. Mas o cearense Francivaldo Gomes, mais conhecido como Popó, escolheu um lugar inusitado para aprender a sua profissão: o Cemitério da Consolação, no coração de São Paulo. “Você sabia que eu cursei a universidade? Sim, aqui é a minha universidade”, diz ele pouco antes de iniciar a entrevista exclusiva que deu à Agenda Tarsila sobre o fato de ser o guia oficial de passeio turístico promovido no espaço – começou a trabalhar lá, no ano 2000, como sepultador.

É durante uma hora, toda sexta-feira, que ele lidera um grupo de no máximo 10 pessoas – a visita tem de ser agendada, em razão da pandemia – e mostra onde estão os túmulos de pessoas importantes para a história de São Paulo, entre elas os modernistas Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Mário de Andrade, que formam a trinca que descansa no local. “É importante não deixarmos morrer a história dessas pessoas que ajudaram a construir a cidade”, ressalta Popó. No local também tem obras importantes de outro modernista, o escultor Victor Brecheret. Confira a seguir a entrevista completa: 

É um prazer estar contando grande parte da história de São Paulo que mora aqui neste cemitério. Conte um pouco da sua relação com esse lugar, como aprendeu tudo o que você descreve na visita guiada para os turistas? 

A minha história aqui teve início em 15 de março do ano 2000, quando comecei a trabalhar como sepultador, ou coveiro, popularmente falando. Depois tive a oportunidade de conhecer o guia do cemitério, que na ocasião também era administrador, o saudoso Délio Freire dos Santos. É a pessoa que eu devo tudo que sei hoje do cemitério. Faleceu em 2002 e na ocasião é como se tivesse passado um bastão para eu dar continuidade ao que vinha fazendo. Ele foi um dos pioneiros da criação da visita monitorada no Cemitério da Consolação e em outros cemitérios paulistanos. Hoje sou guia do cemitério.

O que é a arte tumular, que vocês mostram nessa visita?

É a arte do cemitério, trabalho feito por artistas de renome. Temos obras aqui de Victor Brecheret, Galileo Emendabili, Nicola Rollo. As famílias de grandes nomes da cidade de São Paulo, donas de túmulos aqui, não mediam esforços para fazer homenagem aos seus mortos. Por isso, contratavam os escultores de maior destaque na época para fazer uma arte, um túmulo suntuoso e colocar uma escultura sobre ele. E a isso chamamos de arte tumular. Esse cemitério é conhecido como museu histórico a céu aberto e hoje faz parte do atrativo turístico da cidade de São Paulo. 

As pessoas geralmente têm receio de ir ao cemitério porque é a ‘última morada’ dos mortos. O que você diria para uma pessoa que tem receio de fazer uma visita como essa, em um lugar onde você diz que foi sua faculdade?

Quando se fala em cemitério, para as pessoas que são leigas, têm medo, sofrem, choram, o que eu posso passar é que usem a sua coragem. O Cemitério da Consolação é um museu histórico. Hoje recebemos muitos europeus, pessoas de outros países, que vêm para São Paulo e procuram tirar algum tempo para entrar aqui. Isso, só você vindo, marcando uma visita monitorada para ver que não transmite medo. Professores de história, de escolas da rede municipal e estadual vêm para dar aula. Para muitos é tristeza, mas se você vier com a tendência de cultuar a história do local vai perceber que não há medo algum.

E essa é a tônica da visita que você faz. Quanto tempo ela dura e quais pontos são visitados?

Nós temos 30 obras de arte, de pessoas relevantes e guiamos o interessado a conhecer o local. O trajeto é de uma hora, que mostra bem a história do cemitério e daqueles que estão enterrados aqui, que deixaram sua história dentro da cidade. Algumas pessoas que estão sepultadas aqui dão nome a ruas da cidade. E essa gente que deixou seu legado, sua história, não pode ser esquecida. Por isso existe a visita guiada, para lembrarmos dessas histórias. 

Nós estamos aqui na frente do túmulo de Oswald de Andrade, que foi um dos grandes modernistas de São Paulo. Queria que você me falasse quais são os modernistas que estão neste cemitério.

É importante lembrar que a Semana de Arte Moderna de 1922, que aconteceu em fevereiro daquele ano, já está próxima do centenário. E algumas das pessoas que participaram dela estão sepultadas aqui. O túmulo do Oswald é super visitado por muita gente que quer conhecer a história do nosso país, ou leu um livro cujo conteúdo é a Semana de 1922. Temos enterrados aqui a trinca modernista: Oswald faleceu em 1954, ano do quarto centenário (de São Paulo), temos Tarsila do Amaral, que morreu em 1973 e também Mário, que faleceu em 1945. Brecheret está no cemitério Necrópole São Paulo, de Pinheiros, um lugar bem contemporâneo, fundado em 1926.

Quando vivo, Oswald fez uma cerimônia aqui na frente de seus antepassados. Conta um pouco dessa história.

Oswald era uma pessoa que gostava mesmo de curtir a cidade. Quem ama história pode procurar no livro O Dicionário Rebeldes Brasileiros, que vai estar escrito isso que vou falar: em 5 de janeiro de 1930 aconteceu aqui, em frente ao túmulo dele, um ato simbólico. Foi quando Oswald se casou com uma das primeiras militantes comunistas a ser presa em regime militar no Brasil, que era a Patrícia Galvão, conhecida como Pagu. Depois deste ato, eles foram para a igreja para regularizar a união. 

Tem uma obra especial do Brecheret, que poderia nos contar a história?

Ele tem O Sepultamento e O Grande Anjo. Esta última é bem moderna, tem as asas alongadas e distanciadas do corpo e essa auréola na mão, como se tivesse coroando a pessoa aqui sepultada. E o anjo tem olhos puxados, porque Brecheret trabalhava muito o perfil indígena. É um bronze de 1937-1938. A outra obra dele está no túmulo da Olívia Guedes Penteado, uma incentivadora da arte na época, porque os artistas, faziam suas belas obras e precisavam expor até mesmo fora do Brasil e ela pagava a passagem para estas pessoas. Ela ficou conhecida como a patronesse dos modernistas. E sobre seu túmulo nada mais justo do que a obra dele. Graças a ela nós brasileiros estamos vendo O Sepultamento em São Paulo, porque se ela não tivesse comprado para colocar no túmulo do marido, Inácio Penteado, para ver teríamos de ir a Paris. Ela ia ficar em asilo lá porque com ela, Brecheret participou do Salão de Outono, em 1923, e levou um dos maiores prêmios, o que o fez ser reconhecido mundialmente. 

E você me falou que quando teve a exposição no Masp da Tarsila o túmulo dela passou a ser bem visitado…

Naquela época (2019) fazia 11 anos que o Abaporu estava ausente do Brasil e veio aqui, ficou no Masp. Muitos brasileiros tiveram a oportunidade de conhecer o quadro mais famoso dela. Naquela época o Consolação recebeu um grande número de visitantes, porque associava ir ao Museu e vir visitar o túmulo onde estava a pintora. A Tarsila faleceu em 1973. Muita gente vinha constantemente e hoje o interesse persiste nas visitas. 

Como estão funcionando as visitas neste período de pandemia?

Em todo período da pandemia houve o respeito, não estava mais acontecendo por um período as visitas. Só agora é que começamos novamente a realizá-la, mas respeitando os protocolos. Recebemos um número máximo de 10 pessoas e todas com máscara. 

Como você se sente sendo o porta-voz dessa história tão importante de São Paulo, inclusive do ponto de vista artístico?

São personalidades que ajudaram a construir a história do Brasil, de São Paulo, que estão adormecidos aqui no cemitério. É ótimo manter a lembrança dessa gente tão importante, que deixou legado. Eles não devem ser esquecidos. Procuro me dedicar com tanto amor em lembrar dessas pessoas para que muitos saibam que se hoje temos fábricas, empregos, é porque muitos que estão aqui enterrados deixaram isso. Temos aqui o Conde Francisco Matarazzo, Nami Jafet, grandes industriais. Lembrar dessa gente é manter viva a memória desses cidadãos importantes. Para mim é um prazer trazer a lembrança de cada um. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Veja também
+Programação