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Plataforma da USP reúne informações sobre marcos históricos como modernismo e a independência do Brasil

Quando se fala em trabalho acadêmico a ideia é de algo feito com muita apuração e profundidade. Isso é um fato. Mas todo mundo tem acesso a essas pesquisas? Como é possível consultá-las? A fim de democratizar tudo o que tem sido realizado na Universidade de São Paulo, acaba de ser lançada a plataforma Ciclo 22, que reúne informações sobre marcos importantes da história brasileira, como o centenário da Semana de Arte Moderna e o bicentenário da Independência do Brasil. 

A coordenadora do portal, Diana Gonçalves Vidal, que também é diretora do IEB (Instituto de Estudos Brasileiros), detalha de que maneira estes materiais estão dispostos na plataforma e como eles podem ser usados, inclusive nas escolas públicas e privadas. “Ao longo dessa pandemia, produzimos muitos podcasts, então temos um arsenal muito legal de áudios que também pode ser utilizado pelos professores, que falam tanto do bicentenário da Independência, as reflexões, como sobre o modernismo e a Semana de 1922. São podcasts gravados ou por professores da universidades, ou por doutorandos, pesquisadores que estão lidando com documentação primária, estão revendo paradigmas, discutindo as funções que a gente já tinha, revisões historiográficas, repensando a Semana a partir de outros pontos de vista artísticos, literários.” Confira, a seguir, a entrevista completa:

Você coordena um projeto muito abrangente, Ciclo 22, que fala de importantes marcos históricos do nosso país. No que consiste? 

É um projeto da Universidade de São Paulo que tem por objetivo reunir em uma plataforma web todas as atividades que estão sendo realizadas pela universidade com relação a estes marcos de 1822 (Independência do Brasil) e 1922 (Semana de Arte Moderna). É muito abrangente, porque a gente tem entrado em contato com todas as unidades da USP tentando reunir todas essas iniciativas em um único lugar de forma que a população como um todo, não só a comunidade universitária, mas a sociedade paulista e a brasileira – a gente tem inclusive acessos internacionais – possam ver toda reflexão acumulada pelos professores, pelos trabalhos de mestrado e doutorado, em torno desses marcos. Esse portal tem várias abas e nelas estão desde as ações que estão acontecendo agora como seminários, exposições, além de uma reunião de teses e dissertações, capítulos de livros, artigos e revistas que se dedicaram a este tema, que já foram defendidas e já foram publicadas sobre isso. E tem uma parte que, para mim, é a cereja do bolo, a com um material didático que foi produzido pela universidade sobre esses marcos. Temos vídeo aulas, cadernos de textos, podcasts, imagens, um repertório que está oferecido para os professores da rede pública e particular, do Ensino Fundamental e Médio, acerca desses marcos que trazem múltiplas possibilidades de inserção disso nas atividades docentes na sala de aula. 

Como mostrar essa história de forma mais didática para os alunos?

Nessa aba que a gente tem que é ‘para estudar’, por exemplo, são muitas vídeo aulas que foram gravadas nessa parceria USP e UNIVESP, por exemplo, que estão disponíveis no canal da USP, mas que para localizar nem sempre é tão simples. Reunidas na plataforma permitem um acesso muito mais ágil. Nós também, ao longo dessa pandemia, produzimos muitos podcasts, então temos um arsenal muito legal de áudios que também pode ser utilizado pelos professores, que falam tanto do bicentenário da Independência, as reflexões, como sobre o modernismo e a Semana de 1922. São podcasts gravados ou por professores da universidades, ou por doutorandos, pesquisadores que estão lidando com documentação primária, que estão revendo paradigmas, discutindo as funções que a gente já tinha, revisões historiográficas, repensando a Semana a partir de outros pontos de vista artísticos, literários. Também temos cadernos que estão sendo publicados que dialogam com os parâmetros curriculares e oferecem esses conteúdos sob forma de atividades, de guias didáticos para os professores. Fora isso, estamos colocando muitas imagens que a gente tem. Se o professor quiser trabalhar, por exemplo, o repertório que temos de acervo na USP sobre o modernismo é muito significativo. Tanto o Museu de Arte Contemporânea, quanto o Instituto de Estudos Brasileiros detém um conjunto de obras maravilhoso que remonta e pode fazer dialogar seja em 22, ou depois, as discussões que foram gerando a Semana. A gente oferece tudo isso nessa plataforma, que ainda dialoga. Se você quiser a newsletter para saber o que está saindo, pode se inscrever. Se quiser colaborar com o conteúdo, pode mandar para gente que entramos em contato. Enfim, existem muitas possibilidades de transitar nessa plataforma do ponto de vista do Ensino Fundamental II e Ensino Médio. Esse é o grande benefício. Atualmente estou coordenando o Ciclo 22, mas sou professora da Faculdade de Educação, então a preocupação com o ensino, a escola pública, a formação dos estudantes, com o preparo deles para ingressar na universidade é sempre alguma coisa muito querida, com a qual tenho sempre muito cuidado. Isso se repercute, de certa maneira, no Ciclo 22. Faz com que a gente tenha esse olhar não só para pesquisador, quem está fazendo doutorado, mestrado, mas o olhar para fora da universidade, para quem está na escola e gostaria de entrar na universidade ou se beneficiar dessa reflexão que ela faz e nem sempre parece tão acessível.

E se torna, também, um registro histórico para as futuras gerações?

A atualização é diária. A equipe que produz o Ciclo 22 não é só formada por docentes, é formada por estagiários também. Que estão na graduação e atuam no Ciclo 22, produzindo conteúdo. Temos a Crisley Santana que é a nossa repórter. A gente produz muito também, fazendo levantamento de teses e dissertações que foram defendidas e a circulação disso foi pequena. Então ela vai e entrevista estes autores, pesquisadores e a gente publica matérias no Jornal da USP. Temos uma parceria que toda sexta-feira sai uma matéria sobre o Ciclo 22. A universidade pública produz um conhecimento que é público, no sentido de que foi produzido com dinheiro público e retorna para a sociedade. Esse trabalho de mediação é o grande objetivo do Ciclo, permitir que isso se difunda de uma maneira mais ampla. Vamos fazer em breve um concurso de vídeos entre os alunos da USP, concurso de premiação de teses e dissertações, temos feito várias iniciativas no sentido de promover, alavancar e essa parceria com a Agenda Tarsila é uma maneira de ampliar a difusão, porque por mais que a gente utilize essas mídias sociais, quanto mais a gente agrega, chama mais pessoas para participarem do projeto, mais a gente alarga a possibilidade. 

Você falou do IEB, que é um setor que também coordena. O que é Instituto de Estudos Brasileiros e como seu acervo foi formado?

O IEB é um órgão de integração multidisciplinar da Universidade de São Paulo. Ele é constituído por três grandes setores: arquivo, biblioteca e coleção de artes visuais. O de arquivo tem mais de 500 mil documentos de vários titulares, tem Fundo Mário de Andrade, Anita Malfatti, Camargo Guarnieri, e temos também coisas muito modernas como o Ivan Lins, por exemplo, além de Milton Santos, Antonio Candido. Uma das nossas pérolas é Graciliano Ramos e também somos detentores do Fundo Guimarães Rosa. Temos o acervo dele e da mulher dele, a Aracy Guimarães Rosa, que até recentemente foi feito um seriado da Globo utilizando o acervo do IEB, porque lá estão os documentos dela. Temos também a biblioteca com 250 mil volumes, é a segunda maior brasiliana do Brasil, ou seja, a segunda maior biblioteca que tem produção sobre o Brasil, a gente só perde para a Nacional do Rio de Janeiro. E nessa biblioteca também temos fundos como a coleção de Yan de Almeida Prado, a do Mário de Andrade. Recentemente recebemos toda biblioteca do Celso Furtado, Paul Singer. E temos a coleção de artes visuais que congrega em torno de 8 mil obras e é fundamentalmente muito conhecida pela produção dos modernistas que ali nós temos: Lasar Segall, Tarsila, Anita, Brecheret. É um acervo fantástico. Esses três setores fornecem o material de base que a gente utiliza, por exemplo, no mestrado de Cultura Brasileira, feito pelo IEB, e oferece disciplinas optativas de graduação para toda universidade. Se você for aluno pode frequentar o IEB e se não for tem todas as atividades de extensão que o instituto produz. Quem quer conhecer o acervo mais de perto tem a oportunidade de ir à Avenida Paulista, na galeria Cultural do Sesi, onde estamos com uma enorme exposição que se chama Era uma Vez o Moderno, de curadoria do professor (Luiz Armando) Bagolin. Lá tem mais de 300 obras do IEB. Então você quer ver o original do Macunaíma, vai lá. Inclusive vai encontrar a própria obra impressa com as correções que Mário fazia, porque ele tinha essa mania de escrever nos exemplares para corrigir para novas edições. Quer ver o Mamoeiro, de Tarsila, que está no acervo do IEB e é um dos ícones do modernismo. A Cabeça de Cristo, do Brecheret, ou a Vitória, que são esculturas belíssimas. Temos Tarsila, Lasar, Di Cavalcanti, a capa do Programa da Semana de 1922. que em todos os lugares você vê, está lá a original em uma das vitrines. Uma boa parte das nossas pérolas está disponível hoje e com muita alegria conseguimos fazer essa parceria com o Sesi. A entrada é gratuita. Agora, com o retorno das aulas, já estamos em contato com a secretaria de Educação para levar os alunos lá. Estamos também dando cursos para os docentes da prefeitura sobre o modernismo. Temos buscado fazer todas essas pontes para colocar não só o acervo, mas a discussão do moderno e modernismo em pauta e de maneira qualificada. Porque ouvimos informações que não são exatamente as corretas como, por exemplo, que a Tarsila fez parte da Semana de 22. A gente pode esclarecer algumas dessas informações truncadas e o importante é voltar para essa exposição de maneira a esclarecer e qualificar a informação, essa é a grande missão da Universidade, devolver uma informação aprofundada, de caráter respaldado na ciência e na pesquisa acadêmica, que é confiável e a gente pode utilizar e conhecer melhor o seu próprio país e atuar de forma cidadã e esclarecida. 

Do ponto de vista histórico, o brasileiro tem uma fama de não se aprofundar na história. Qual o papel da plataforma neste sentido, de difundir a informação correta? Que papel o Ciclo 22 assume na formação desses cidadãos?

A nossa missão é pequena, mas pode ter grande repercussão. A gente tem a preocupação de difundir tudo que a universidade produziu. Isso tudo em um mesmo lugar, com mecanismo de busca, e ela vai trazer para você em todos os formatos. Quer saber sobre Mário de Andrade, que está na crista da onda, joga lá e vai ter tudo o que está na plataforma, que estamos levantando na universidade sobre ele. Tem um trabalho super legal de mestrado feito sobre os cardápios do acervo Mário de Andrade, por exemplo, e os campos se ampliam, porque não é só uma história do ponto de vista intelectual ou política. Como tem uma produção muito alargada sobre a independência e modernismo, pode encontrar coisas muito inusitadas. A gente pode mudar a lente para olhar esses eventos e perspectiva-los a partir de vários campos do conhecimento, literatura, antropologia, etnologia, coisas que você nunca vai imaginar. Tem um trabalho do Instituto de Física da USP que faz uma análise sobre a pigmentação dos quadros para pensar como faz o restauro de uma obra de arte voltado para obras do modernismo. Tem trabalho de química sobre isso. Você vai multiplicando os campos de pesquisa: toda discussão do Direito sobre a legislação da independência e os anos iniciais, discussões do âmbito do gênero, diversidade sexual, étnica. A plataforma permite que pelos mecanismos de busca você atravesse a produção intelectual e possa inclusive olhar para o passado e pensar sobre nosso presente com outras informações, com outras lentes, girando o caleidoscópio dessa história e vendo outras imagens. Isso é fenomenal. Temos várias charges publicadas. São coisas que incitam a imaginação, a pensar sobre esses vários brasis, a diversidade que é o país, e isso a plataforma nos ajuda pelo banco de dados a que está associada, que é enorme. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 30 de março de 2022

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