Professor de literatura explica de que forma o modernismo é abordado nos principais vestibulares do país

Inúmeros são os gêneros literários que têm de ser estudados por quem vai prestar vestibular ou o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) agora no fim do ano. E, como estamos na época de início dessas provas, conversamos com o professor de literatura e diretor escolar Marcio Moraes, para ver de que forma a Semana de 22 e o movimento modernista é abordado nas questões. 

Segundo ele, a primeira geração não costuma ser lembrada – inclusive suas principais obras não figuram na lista das principais universidades -, mas toda mudança e reflexão que ela gerou é essencial para entender o que veio na história da literatura, tanto antes quanto depois do evento no Municipal. “Seria muito interessante que, neste momento, se colocasse para falar sobre Macunaíma, principalmente pela questão do índio. Da extinção dos indígenas, da nossa sociedade, dos preconceitos que existem ainda hoje.”

E ressaltou: “É importante que o estudante compreenda: a literatura, lá na década de 30, ainda nos fala hoje, em 2021, quase chegando a cem anos dela. Do sertanejo oprimido, do sertanejo pobre. Você tem ainda uma realidade que estava lá e está presente. No pré-modernismo havia um preconceito que ainda há hoje, contra o negro, o mulato, o sertanejo. É importante compreender estas questões.” Confira a seguir a entrevista exclusiva que ele deu à Agenda Tarsila:

Professor, gostaria que o senhor falasse de que maneira a Semana de Arte Moderna é tratada na escola. Sei que demorou muito tempo para ela ser levada para os alunos, foi mais para o final do século passado. Como hoje essa história tão importante da cultura brasileira é tratada na sala de aula?

Na realidade, queria primeiro falar como veio tudo isso, para poder entender essa situação do modernismo. E ele aparece no momento em que o mundo está de cabeça para baixo, literalmente. Está saindo da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), com uma contagem enorme de mortos. A Europa está em choque por 9 milhões de mortos e 30 milhões de feridos. Isso causou um grande pânico na humanidade. Tudo que vinha na tranquilidade é chacoalhado por uma guerra de quatro anos. Se pensarmos no que houve foi o mesmo que sentimos com a Covid-19: espanto, caos. A Semana de Arte Moderna vem depois de um cenário mundial no qual o mundo está mudando. Só que temos de pensar nela não na Europa, mas no Brasil. O que acontece aqui? Evidentemente todo movimento literário tem seus precedentes. E se você prestar bem atenção tem uma coisa interessantíssima: em literatura, por exemplo, onde foi o barroco? Na Bahia, onde estava o dinheiro. Se pensar no realismo, onde está? No Rio de Janeiro, que era a Capital, onde estava o dinheiro. Onde estava o dinheiro estava o movimento. Quando pensamos em modernismo, a Semana de 22 foi um marco, ‘começou aqui’. Não é que, de repente, deu um boom, ‘ah viramos modernos’. Houve várias situações. Vamos pensar também neste modernismo europeu, que é um ponto importante de pensar como aluno. O Brasil é um país de contradições em movimentos literários. Por exemplo, na Europa existem movimentos filosóficos que vão levar a uma literatura de ‘liberdade, igualdade e solidariedade’, e isso na Europa faz sentido. Quando isso vem para o Brasil, vai encontrar movimentos em Minas Gerais, com os árcades, com os mesmos ideais. Então você vai ter um movimento que quer o futuro, mas não quer avançar. O arcadismo quer o futuro, mas não quer abolir a escravidão, não quer o direito da mulher, ele quer que o privilégio se mantenha. O Brasil quer a República, mas não para todo mundo, é para poucos. Assim como a independência. Deu-se para um grupo, mas manteve-se os mesmos privilégios e situações para a sociedade como um todo. (Voltando um pouco), em 1888, temos a libertação, entre aspas, dos escravos e em 1889 a República, ou seja, mudou para continuar igual. O que chamamos de pré-modernismo, estamos em um momento em que o país já mostrava que era um país moderno. De ampla mestiçagem, negros, brancos, índios, europeus, e estamos passando por um processo. Tem dois componentes aí. Neste chamado pré-modernismo vai ter Monteiro Lobato, que vai ter o seu Urupês, Jeca Tatu, aquele caipira, atrasado, de cócoras, e vai ter também Sertões (Euclides da Cunha), que também é pré (modernista), mas vai tratar o homem do sertão como uma coisa quase distorcida, intelectualmente inferior. Sertanejo e caipira tratados como inferiores. O que vem trazer o modernismo de 22? Vem buscar uma nova identidade, mas esse novo tem antecedentes. Se olhar a obra do Lima Barreto, ela está antes do modernismo, mas traz várias coisas que são importantes até hoje para o país. Em certo sentido, Lima Barreto é mais moderno que muitos modernistas. Inclusive porque ele tem uma posição que vai do início ao fim do trabalho dele. 

E ele morreu na época que estava surgindo o modernismo…

Exatamente. Mas aí tem uma questão também. Eles tentaram chamar o Lima para o movimento, mas ele descia o pau neles. Recusou. Ele já estava tão cansado de apanhar que qualquer coisa estava batendo também. Os modernistas ignoraram ele, porque foram ignorados também. Mas quando você vê as características que estavam em obras modernas já estavam nas do Lima também. O que o modernista da primeira geração tenta fazer? Primeiro buscar – e essa é a maior característica deles – que não é buscar mudanças sociais. Estão atrás de mudanças estéticas. E isso é fundamental. Porque se você não busca a mudança na forma, talvez o conteúdo fique preso. Quando você busca romper com o modelo parnasianista, que o modernismo se contrapôs, ao invés do verso lírico, branco, vai com a chacota, a galhofa. E neste sentido é muito interessante que ela vai quebrar aquele ar de solenidade do parnasianismo. Eles vão brincar, tripudiar em cima de todo esse conservadorismo. A forma de um texto, de um poema, de escrita, reflete também a sociedade. Vamos pensar em Camões. Lá tem poemas decassílabos (que segue métricas), fechadinho, bonitinho, ele vai defender os privilégios dos portugueses, a soberania portuguesa. E quando você pega um soneto, de forma fixa, imutável. Junta essa forma e conteúdo, uma poesia fixa e uma sociedade fixa. Quando você quebra esse modelo poético fechadinho, isso é um grande avanço que ele quer romper com a forma parnasiana. E introduzir o verso livre, que me parece que há um clamor por maior liberdade estética e social. O que eu acho é que a nova geração (de estudantes) tem a aprender com o modernismo de 22 é abrir-se, revelar-se, mesmo que seja uma rebelião de abrir a mente. O que acontecia no mundo naquela época? A modernidade na ciência chegava, evoluia, o mundo queria ser moderno, o mundo das máquinas crescia. São Paulo deixava de ser somente agrário, para passo a passo virar industrializada. Queria recitar um poema do Manuel Bandeira, que só o título esclarece bastante, O Trem de Ferro: ‘Café com pão…’. Não tem como pensar em máquinas, progressos, sem pensar no que as ferrovias fizeram. Sem ela não haveria progresso. Vai avançando e no final é muito interessante ‘(…) só levo pouca gente, pouca gente, pouca gente’. Esse progresso que vem é para poucos. Esse modernismo era realmente para poucos. Se pensar no conteúdo (modernista) não vai falar, não vai pedir, igualdade social. Principalmente porque foi patrocinado pelas riquezas paulistanas. E com patrocínio fica complicado brigar. Inclusive eles foram patrocinados pelo chocolate Lacta. Ao invés de fazerem um texto tradicional, fizeram algo concretista. Aí a empresa tirou o patrocínio da revista Klaxon, que só vendeu duas assinaturas. Contrariou o que esperava o patrocinador e a Lacta tirou. A forma assustava. Quando a Lacta tirou o patrocínio, eles escreveram: ‘o chocolate era bom, mas como tiraram o patrocínio, não comam mais’ (risos) Se pensarmos, por exemplo, os poemas mais famosos que é Ode ao Burguês: ‘Eu insulto o burguês…’. Os barões lampiões.. Ele faz uma crítica a um mundo burguês. E o Mário de Andrade, da turma, era o pobre. Não vinha de família abastada. Mas era um pilar fundamental do movimento. E se pensarmos bem os textos da primeira geração, são pouco cobrados nos vestibulares.

Verdade. Estava olhando as listas dos grandes vestibulares e nenhum exige obra deste primeiro momento. 

É estranho isso, não ter Macunaíma, por exemplo, nos vestibulares. Penso o seguinte: seria muito interessante que, neste momento, se colocasse para falar sobre Macunaíma, principalmente pela questão do índio. Da extinção dos indígenas, da nossa sociedade, dos preconceitos que existem ainda hoje. Você se lembra bem que o personagem nasce índio, preto. É uma tribo de índios escuros e no passar da trajetória se torna branco, mas não deixa de ser índio. É só uma mudança da cor da pele, não do que ele é. Mas a tribo dele é extinta. É interessante pensar a situação do Brasil na qual os povos indígenas estão passando por um processo de extinção mesmo, de destruição. Seria importante se pensar em Macunaíma que a cultura negra é bastante valorizada e uma das principais cenas é na macumba, quando ele vai a macumba. A cultura negra está muito presente, a dança dos negros também, como o lundu. É uma tradição africana de dança combatida durante toda a história da República. Você tem muitos elementos para discutir o que temos hoje na sociedade. Há uma cena, que talvez seja muito indigesta, mas interessante, que é quando Macunaíma se apodera da imperatriz. Hoje veríamos como estupro, uma coisa maluca ali. Mas é um texto com várias coisas para serem discutidas e precisam ser. Seria importante ele voltar (para a lista dos vestibulares), para poder ser analisado. Vê-se um Brasil que havia ali. Nós já saímos daquele Brasil, ou estamos envoltos na mesma questão?

E o senhor me falando isso dá para entender que ainda existe preconceito contra essa obra modernista e não existe o entendimento que deveria ter dela?

Não digo que exista preconceito, porque a academia louva Macunaíma, louva Mário de Andrade. Mas, me parece que os vestibulares estão descurando uma obra fundamental em razão de obras menores, menos importantes. Não vou citar autores aqui porque não vem ao caso, mas há muitas coisas que são praticamente repetitivas, modismos. Acho que os vestibulares ao fazer seleção deveriam, ao menos, trabalhar com o que é melhor de cada época. Lógico que hoje se tem Angústia (Graciliano Ramos), que é um texto magnífico, na Fuvest. Você tem Carlos Drummond de Andrade, também modernista, mas ele já tem uma outra questão, já é um poeta que se posiciona na poesia dele. Então, o que eu penso é que pena que não trazem a primeira geração modernista para discussão. Inclusive os autores do chamado pré-modernismo, que entra em uma lista e some de repente. Por exemplo, a Unicamp tem uma coisa muito interessante porque ela coloca Camões e também Racionais MCs. Isso é perfeito, porque Camões faz ode às conquistas portuguesas e os Racionais mostram nas músicas deles o desastre que essas conquistas fizeram. A situação do povo hoje. Esse jogo de oposições deveria ser uma coisa mais mantida nos vestibulares.

E essa reflexão que o senhor está falando, ela é contemplada nas perguntas que aparecem no vestibular?

Nem que não caia nas perguntas, a leitura provoca reflexão. Ao provocar isso já é importante. Quando tem Gregório de Matos (poeta barroco chamado de ‘boca do inferno’), poderia ter os Racionais ou um funk, por exemplo. Gregório chegou a ser proibido, censurado, por causa dos imensos palavrões que tinha na poesia atribuída a ele. Quando você pensa nele, toda carga de palavras baixas e o funk, por que há neste ou naquele texto, qual a finalidade? Isso é interessante pensar. Ele está criticando negros, homossexuais, mulheres. Ele é conservador e está falando a favor do estabelecimento. Quando você pega o rap, por exemplo, ele está criticando o estabelecimento. Um usa para criticar o que está fora do estabelecido e outro usa para criticar o quer que seja estabelecido. Esses choques seriam interessantes de presente e passado. Voltando ao Mário, Macunaíma, seria fundamental voltar, inclusive as poesias dele (do escritor). Tem um texto muito interessante, Café, que não aparece. Ele fala de deputados, tudo o que hoje nós temos. É como se tivesse sido escrito para os dias atuais. É muito bacana. 

Era um visionário…

A grande literatura é assim, ela não morre. O que faz a literatura ser grande é que não importa o tempo ela continua grande, presente em nossos dias. Por isso você tem Shakespeare na nossa vida até hoje, Camões, Drummond, Fernando Pessoa, porque são poesias que continuam a falar. 

E o que de fato é importante o vestibulando saber sobre o modernismo, que geralmente cai no vestibular?

É importante entender algumas diferenças. Tanto é que quando você pensa em modernismo você tem a primeira geração. A segunda geração é a de 1930, que você vai ver Vidas Secas (Graciliano Ramos), um pulo de realidade, totalmente social. Vai ter as obras São Bernardo (Graciliano Ramos), Guimarães Rosa com o sertanejo. E é uma coisa importante que seja dita: a Semana de Arte moderna foi um ‘aqui começou’, em São Paulo, que era a cidade do dinheiro. Tem de saber que a primeira geração abriu uma porta, buscando uma liberdade estética na escrita, na forma, e daí veio a segunda geração, já com a questão social. E era um todo. É muito fácil cruzar Vidas Secas com Portinari, em Os Retirantes. Você percebe que incrível? Não mudou. Isso que é importante que o estudante compreenda: a literatura, lá na década de 30, ainda nos fala hoje, em 2021, quase chegando a cem anos dela. Do sertanejo oprimido, do sertanejo pobre. Você tem ainda uma realidade que estava lá e está presente. No pré-modernismo havia um preconceito que ainda há hoje, contra o negro, o mulato, o sertanejo. É importante compreender estas questões. 

E na sala de aula, você que tem experiência, é dado o devido valor que teve a Semana, voltando à questão inicial?

Tudo é uma questão de onde. Dei aulas em grandes escolas de São Paulo, pagas. Só que quando eu falava nestas escolas todas estas questões, era para quem não as vivia. O que adiantava? Quando estou dando aula em um local na periferia de São Paulo e falo destas questões, é a realidade delas, do antepassado delas, que lhes interessa. Se estou nas escolas mais caras vai ser só conhecimento, mas não é a vida. E por isso digo que depende  onde. Tudo o que estamos conversando, se bem tratado nas escolas públicas, é fantástico. Mas também temos de ver uma realidade diferente: quem trabalha na escola pública, o quanto ela ganha e o quanto tem de trabalhar para viver. É um grande problema. Essa pessoa em uma escola que a mensalidade é quase 5 mil reais tem uma renda, um tempo de preparar sua aula, pensar. Quem está em uma escola pública, na periferia, a renda dele é bastante inferior. Tem de dar aula em duas, às vezes, três escolas. Trabalha o dia inteiro. Por mais que ele queira fazer melhor, a energia dele não dá conta. Falta tempo de vida. E quando se fala em estudar e pensar é preciso ter tempo de ócio, para sentar, rever, refletir. 

Os estudantes de hoje em dia têm a intenção ou a vontade de  ter esse conhecimento reflexivo?

Uma época da minha vida, quando estava na graduação, como vim da periferia e lá tive muitos amigos, resolvi dar aula na antiga Febem (hoje Fundação Casa). E lá juntava Camões com Racionais MCs. Eles entendiam Camões e entendiam Racionais. Juntava a vida presente com a visão do passado. Se um garoto consegue entender o mundo a partir do mundo dele, essa grande literatura é feita para todo mundo. É possível que ele entenda e que ele goste. Você tem de aproximar. Temos um grande problema no ensino que as pessoas querem chegar para os alunos e já jogar um Dom Casmurro (Machado de Assis). Não dá, vai com um conto. As características que estão num conto estão num romance. É um tiro direto, sem preparo. Vai lá com um O Caso da Vara, com outros textos para ir amaciando. Não precisa começar com Vidas Secas. Trabalha um poema como O Bicho, do Manuel Bandeira. Você vê cada vez mais hoje em dia as pessoas pegando comida nos detritos. É lógico que um adolescente vai entender isso perfeitamente. Se há 50 anos atrás se via isso, hoje é corrente. Quando ele (Manuel) fala ‘meu Deus, o bicho não é um cão, é um homem’, jamais imaginou que o Brasil ia chegar no que chegou hoje. Por que não interessaria Vidas Secas, São Bernardo? Entender Mário de Andrade, Macunaíma? A grande literatura sempre tem pertinência no tempo que se vive. O segredo é aproximar. Se você não consegue se sensibilizar, não adianta. Tem de haver sensibilização por meio da literatura, trabalhar isso. Se você é insensível não consegue se apaixonar pela literatura, pintura, arte. Ele (aluno) vai olhar Os Retirantes e aquilo não vai ser nada. É preciso, por meio da arte, do ensino de arte, usar todas as armas possíveis para sensibilizar. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

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