Projeto promovido pelo Sesc reflete as várias faces que a Semana de 22 tomou ao longo de um século

Como um camaleão, que troca de cor quando se sente ameaçado ou quando sai à caça, a Semana de Arte Moderna de 22 se adapta ao tempo em que é inserida. Ao longo destes últimos cem anos – completos em fevereiro de 2022 – o evento, que ocorreu em três noites do Theatro Municipal de São Paulo, foi reinventado, repensado e readaptado, sempre gerando discussões pungentes na sociedade, principalmente do ponto de vista cultural.

É isso que o doutor em História pela USP e curador do projeto Diversos 22, promovido pelo Sesc, Francisco Alambert, chama de ‘existência histórica’. “Ela teve essa capacidade, como se o tempo todo se reinventasse. Em todos os momentos que o Brasil precisou, ou assumir o seu destino moderno, ou negá-lo, a Semana reapareceu. Isso não apenas nos momentos de comemoração, que fundamentalmente a gente aborda, mas em qualquer outro, o fantasma da Semana, com tudo que ela podia representar, sobretudo a ideia de inovação, revolução e assumir as peculiaridades e diferenças do Brasil, para fazer parte do mundo moderno, era chamada a atuar novamente. Esse caráter de aparecer o tempo todo, isso é uma fantasmagoria, que torna a Semana este evento marcante, mais importante. 

O projeto teve início em setembro, no formato on-line, mas quem não acompanhou pode assistir os cursos pela página do Diversos 22 no YouTube (aqui). E tem mais programações vindo por aí. Confira, a seguir, a entrevista exclusiva que Alambert deu à Agenda Tarsila.

O Sesc inaugurou o projeto que chama Diversos 22, com sua curadoria e que teve início em setembro. Queria que você me falasse sobre o projeto que, pelo que vi, vai até 2022.

Essa primeira parte do projeto foram dois dias quase inteiros de encontros para debater uma série de temas em torno do centenário da Semana. Esses dias reuniram especialistas, artistas, de todas as ordens, pessoas ligadas a pesquisas das universidades, mas também artistas que, de alguma maneira, dialogam com a herança modernista ou do modernismo, ou das consequências dele, tratando de vários temas. O eixo central da curadoria que organizamos é uma releitura de como o século 20, desde 1922, viu e reinventou das mais diversas formas, contra, a favor, de todo jeito, daí o termo ‘diverso’, o legado da Semana. Não apenas a interpretação do evento propriamente, os dias do Theatro Municipal, mas a semana no século. Como o século em momentos diferentes – costumo dizer que a história da Semana de Arte Moderna é a história do Brasil no século 20, querendo saber de onde viemos e para onde vamos. Daí ela tem um caráter que transcende apenas a questão da inovação estética, normalmente mais referida e não menos importante, mas também isso: quais as possibilidades do Brasil ser moderno? Quais as dificuldades, caminhos, propostas… E, de alguma maneira, é a minha hipótese, é que desde os anos 1930, logo em seguida a Semana, já em 26, 28, com Antropofagia, e depois os anos 30, 40, até o fim do século a Semana foi reinterpretada, reinventada, respondendo sempre as demandas da época. As crises pelas quais a própria ideia do Brasil e as suas possibilidades passaram. O seminário está organizado desta forma, desde os anos 20, passando pelas décadas seguintes até chegar ao fim do século 20, a Semana vai sendo revisitada pelos nossos contemporâneos, que a revisitam agora e para todos a questão central será – e não tem outra que importe – o que a Semana e o legado posterior do modernismo tem a dizer sobre 2022?

E você tem essa resposta?

Saiu um artigo que escrevi na Folha de S.Paulo, na Ilustríssima (texto), que é eixo de todos os argumentos que me levaram a organizar aquilo tudo junto com o pessoal do Sesc Formação, que tem um trabalho fantástico de apoio e pensamento sobre isso. Nesse texto o editor colocou uma espécie de subtítulo na versão on-line que acho que resume bem: ‘como a Semana pode nos ajudar a sair do esgoto contemporâneo’. Porque o centenário da Semana se encontra, acontece em um momento no qual a totalidade dos seus aspectos, da sua herança mais progressista, mais avançados, mais radicais, foram jogados no lixo. Estão por baixo, desapareceram. E os seus aspectos mais regressivos, sobretudo aqueles que têm de algo que é uma certa herança da semana, ultranacionalismo bastante tosco, uma queda pelo autoritarismo, que também esteve descendente da Semana, este se faz presente. De modo que, de alguma maneira, nós estamos escolhendo, por enquanto tragicamente, qual legado da Semana nos é contemporâneo. Lembrar a Semana deve ter esse aspecto, essa função. Aquilo que pode fazer, isso não é novo, aconteceu em outros momentos como, por exemplo, nos anos 40, quando Mário de Andrade, o mais simbólico dos herdeiros da Semana, faz uma crítica muito radical ao seu passado, em pleno Estado Novo, Segunda Guerra Mundial. Ele (em conferência no Itamaraty) está dizendo a mesma coisa: ‘Precisamos, de alguma maneira, retomar o melhor daquele momento, do modernismo, e introduzir outra coisa, para fazer com que ele volte a ter um sentido moderno, e sobretudo progressista’. Nesse nosso tempo tenho a impressão que a questão também é essa. 

Neste texto da Folha você faz uma afirmação que a Semana foi o mais importante marco histórico do Brasil Moderno. Me explique essa frase. 

Do ângulo da cultura. Foi isso, justamente porque a Semana de Arte Moderna, independente do que aconteceu lá, teve a capacidade de se tornar esse, eu chamei de mito, mas não no sentido negativo, no sentido de falsidade. Ela teve essa capacidade, como se o tempo todo se reinventasse. Em todos os momentos que o Brasil precisou, ou assumir o seu destino moderno, ou negá-lo, a Semana reapareceu. Isso não apenas nos momentos de comemoração, que fundamentalmente a gente aborda, mas em qualquer outro, o fantasma da Semana, com tudo que ela podia representar, sobretudo a ideia de inovação, revolução e assumir as peculiaridades e diferenças do Brasil, para fazer parte do mundo moderno, era chamada a atuar novamente. Esse caráter de aparecer o tempo todo, isso é uma fantasmagoria, que torna a Semana este evento marcante, mais importante. 

E você também falou dessa questão de que muitos amavam, outros odiavam. Fale, por favor, destas polêmicas, principalmente de que o negro não participou da Semana, de que os modeernistas exaltavam os bandeirantes, etc. 

Em relação a estas disputas tudo é verdade e tudo é discutível ao mesmo tempo. A gente precisa colocar a Semana em um lugar histórico. Comecei o meu texto exatamente nisso: quarenta anos antes da Semana de Arte Moderna, só 40 anos, quer dizer, uma proximidade absurda, as questões centrais no Brasil era: ‘abolimos ou não a escravidão?’; ‘o Brasil deve ser uma monarquia ou uma república?’; ‘nós somos culturalmente mero imitadores e assim devemos ser, da cultura avançada da Europa ou, no extremo oposto, temos uma cultura original que não deve ser emasculada, nem misturada, com a estrangeira?’… Os modernistas nasceram no meio destes debates. É incrível a proximidade histórica, é incrível ver como as coisas no Brasil podem estar muito atrasadas e, de repente, acelerarem rapidamente. E isso acompanha o processo de modernização mesmo, que foi justamente após a abolição, depois da República e com a emergência da economia do café, que favoreceu francamente as elites, sobretudo a paulista. O processo de modernização ocorreu em um processo de velocidade absurda e incluiu a vinda, por conta de crises na Europa, de uma massa monumental de imigrantes, de todos os lugares do mundo, dos brancos europeus aos imigrantes árabes, judeus, do leste europeu, enfim. Neste caldeirão a Semana se passa. Uma série de questões neste momento estão se configurando e não estão colocadas. Elas ainda estão se tornando claras. A questão do negro é fundamental naquele período e começa a se formar ali. A Semana é um ato organizado por estas elites que tinham projetos distintos. Sobretudo a elite cafeeira, já avistando a sua decadência nos anos 30, se afirmar como moderna em um mundo moderno que eles fazem parte, porque são negociantes de café, uma parte do dinheiro será investida no começo da industrialização, sobretudo em São Paulo. Surge uma classe operária, que um pouquinho antes da Semana faz uma greve gigantesca em São Paulo, liderada por anarquistas. Há uma mistura monumental ali. Os negros não são chamados a isso (ao evento). Não era interesse de ninguém naquele momento, ainda que um mulato fosse o mais importante daquele momento, que era Mário de Andrade. E essa acho que vai ser uma das questões mais bacanas que a gente vai ver no curso (do Sesc). Vai ter um dia em que vamos falar do Mário de Andrade africanista. A partir dos anos 1930 ele começou a se interessar profundamente pela questão da África, pelas culturas africanas, de modo a fazer parte daquele projeto que desenvolveu até sua morte de entender e preservar uma certa cultura brasileira do passado que alimentasse o presente. De modo que levantar uma questão como essa ‘ah, a Semana era elitista porque não tinha negros’ é verdade, absolutamente. Olhando-se o contexto histórico dá para entender o porquê e como. E também, creio eu, em um olhar muito propositivo, tentar entender como boa parte das discussões atuais absolutamente necessárias, sobre questão identitária, sobre racismo estrutural, etc, tem nos melhores herdeiros, nos melhores participantes do movimento modernista, por mais brancos e elitistas que fossem – e eram – uma abertura. 

E nesta programação que tem início nos seminários, para quem não conseguir assistir, vai ficar na internet? É possível assistir depois? E o que vem para o ano do centenário?

Para o ano que vem ainda estamos pensando. Mas vai ficar sim, já temos até o site (Diversos 22 Levante). Isso é outra questão importante. Tomei esse ‘levantes de uma ideia’, exposição, que aconteceu ano passado, participei dela, de um grande pensador francês, chamado Georges Didi-Huberman, que se chamava justamente Levante. A Semana funciona, de fato, como alimento para que nos levantemos, para criar levantes. Não são exatamente revoluções, são questionamentos, transformações, a arte dos anos 1960, o teatro do Zé Celso, o Tropicalismo, enfim, se referiu à herança modernista, sobretudo a Oswald de Andrade. Que questionava, e que teve uma influência brutal no país no contexto. Por isso gosto dessa ideia. Temos de entender esses levantes que a Semana inspirou, também o contrário. Por exemplo, os integralistas, dos anos 30, 40, fascistas, muito contemporâneos nossos, que também descendem, de alguma maneira, das discussões que começam com o modernismo.

Como a Semana chega 100 anos depois. Ela tem seu devido valor hoje?

Ela é o melhor exemplo do que é um acontecimento histórico. Algo que se torna mais do que um fato, um evento meramente, aquele que aconteceu nos dias x, ela toma uma vida histórica. E esta vida é isso que estou falando, como vai reaparecendo, levantando ou não, acompanhando tudo o que aconteceu no Brasil. Um exemplo interessante: nas comemorações da Semana, certamente o período que ela foi mais falada, discutida, entronizada, foi justamente durante a ditadura militar, no cinquentenário (1972), e aconteceram coisas incríveis. A ditadura incorporou a Semana relendo como se fosse uma antecipação deles próprios, justamente pelo seu lado negativo. Do ufanismo, ultranacionalismo, verde-amarelismo. Viam a semana como um antecessor. A ditadura militar roubou isso e criou esse mito da semana ufanista e ultranacionalista. Isso que chamo de existência histórica. 

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