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“Quando uso a lama de Brumadinho, prova de um crime ambiental, ou as cinzas da floresta, para fazer um mural, é antropofagia pura”, diz o artista e ativista Mundano

Oswald de Andrade, em seu manifesto literário de 1928, reelaborou o conceito de  antropofagia. De forma metafórica, sugeriu que se deglutisse tudo o que vinha de fora – principalmente as ideias e modelos europeus – com visão crítica e transformasse em algo, de fato, nacional. Usando como base a teoria do documento modernista, o artista e ativista Mundano fez um mural, o maior de sua carreira, com 37 metros de altura, no coração de São Paulo. Com mais de 200 quilos de cinzas recolhidas na Amazônia, Pantanal, cerrado e Mata Atlântica – sim, ele esteve nos locais acompanhando o desastre natural causado pelas queimadas -, tratou de produzir tinta e fazer uma releitura do quadro O Lavrador de Café, feito por Cândido Portinari em 1934. 

Na sua versão, inspirada em um dos bombeiros que conheceu na expedição, a obra tornou-se O Brigadista da Floresta, na empena de um prédio na rua Capitão Mor Jerônimo Leitão. Ele já havia realizado experiência parecida quando fez a releitura de Operários, de Tarsila do Amaral, com a lama que cobriu grande parte da cidade de Brumadinho, após o rompimento de uma barragem de mineração, e ceifou centenas de vidas. A obra foi feita em 2020, próxima ao Mercado Municipal de São Paulo. 

“Quando uso a lama de Brumadinho, que é a prova de um crime ambiental, que ninguém quer ver aquele rejeito da mineração, não serve para nada, ou as cinzas da floresta, é antropofagia pura. Porque a gente vê que a gente comeu a floresta, consumiu, queimou, sobrou cinzas. Essa matéria prima que ninguém quer, que não serve para nada, mostra que dá para construir beleza, dá para criar narrativas”, explica o artista. Confira, a seguir, a entrevista exclusiva que ele deu à Agenda Tarsila: 

Essa é a maior pintura que você fez na sua carreira. Queria que falasse a razão da escolha desta obra de Portinari, como surgiu a ideia e como foi a composição deste mural?

Surge do desafio dos nossos tempos. A gente vive uma emergência climática. Estou assistindo, nós, o Brasil em chamas. Batendo recorde todos os anos, e vem de décadas essas queimadas, mas atualmente a gente bateu todos os recordes. Eu, sentindo uma impotência, querendo fazer algo a respeito, fui pesquisar se era possível pintar um mural desse tamanho usando as cinzas da floresta. E não é nenhuma técnica que eu inventei. Isso, o ser humano, homens e mulheres das cavernas já pintavam mais de vinte mil anos atrás com cinzas, com carvão. Veio da vontade de fazer um grito do tamanho desse desafio, do tamanho dos brigadistas, e aí mergulhei para tentar fazer uma importante releitura. Porque acho que o que é legal é traçar esse paralelo: a pintura do Lavrador de Café, do Portinari, pintada há 87 anos, trazer ela para um novo contexto. Mergulhei nas obras modernistas. Além do Portinari, eu sou um grande fã do trabalho, de todo esse pioneirismo que ele deu de mostrar o trabalhador, as desigualdades, cada vez mais evidentes hoje em dia, ela é uma obra que tinha elementos muito importantes para a minha releitura. Primeiro, claro, o trabalhador em destaque, eu queria dar esse destaque aos brigadistas, que fazem um trabalho importante, mas também tem paisagem, o que possibilitou brincar com essas queimadas. O mesmo agronegócio que tinha com o café, na época do Portinari, consigo fazer o paralelo hoje. Essas grandes monoculturas de soja, milho… E, ao mesmo tempo, o que sempre me chamou atenção nessa obra é a árvore decepada. E não é muito comum, no modernismo, dar essa evidência do descaso ambiental que já tinha os reflexos naquela época. 

E para fazer essa obra você esteve no Pantanal, acompanhou esses brigadistas. Conta um pouco dessa experiência e depois como foi feita a elaboração dessa tinta. 

Tive de fazer uma expedição saindo aqui de São Paulo e fui até a Amazônia, Pantanal, Cerrado, Mata Atlântica, foram mais de 10 mil quilômetros por estes quatro biomas que são os mais queimados e devastados. A ideia que eu tinha era de primeiro ver, sentir e, ao mesmo tempo, como queria coletar as cinzas tive de entrar nessas áreas, que são cenas de crime, porque quando você vê a floresta em pé, e do outro lado tudo queimado, foi uma missão praticamente para conseguir esse material, que é a floresta em pó, uma coisa visceral, é a gente que está ali. Não é que a natureza está queimada, a gente é a própria natureza e também estamos virando cinza. Então partiu desse desafio de rodar o país e, ao mesmo tempo, pude ver o tamanho do desmatamento, das queimadas in loco. Porque geralmente a gente vê imagens de satélite. Deu uma noção da dimensão. Tudo foi meio monumental. E a ideia foi justamente fazer um grande grito de socorro, como se a natureza estivesse gritando, e a gente consegue ver ali, saindo do fogo, uma fumaça atrás do brigadista. E lá tem três letras escondidas: SOS. Como um grito imperceptível da natureza que às vezes muita gente não ouve, não sente, então quis trazer para a cidade cinza, as cinzas da floresta. 

Você me disse que teve dificuldade em fazer uma pintura cinza. Me fala como fez a composição e a escolha da cor.

Meu trabalho, normalmente, é muito colorido. Gosto de abusar das cores, transformar os ambientes, então para mim como artista foi um desafio fazer. É a minha primeira pintura em preto e branco, com escala de cinza. Cheguei a pensar em fazer colorida, mas na verdade tinha de ser cinza mesmo. Ela está se juntando aos prédios, no coração da cidade cinza. E foi um desafio de técnica, porque como é uma tinta artesanal, a gente peneirou cada cinza – foram mais de 200 quilos -, não usamos tinta. Usamos um verniz fosco à base de água. O que tinha eram uns tons mais escuros de cada bioma e a gente ia adicionando água e criando transparência. Na verdade, isso é uma grande aquarela gigante que fomos sempre adicionando sombras, não podíamos clarear. O desafio foi gigantesco. Claro, não fiz isso sozinho, é toda uma equipe de artistas, para a gente conseguir fazer uma obra com mais de 700 metros quadrados em tempo recorde, com a chuva, com tudo que a gente passou.

E houve a escolha de um brigadista em especial para ser homenageado como lavrador. Me conta a história dele e porque você fez essa escolha. 

Além de um grande protesto, a ideia sempre foi homenagear quem defende a floresta em pé. Então a gente foi buscar a floresta em pó para mostrar que a gente precisa ter ela em pé. E os brigadistas e as brigadistas fazem um trabalho heroico, bravo, se arriscando ali nas queimadas para conseguir conter esse fogo. O Vinícius Curva de Vento (inspiração do mural) é da Chapada dos Veadeiros, um brigadista histórico, super respeitado, e que eu achei que teria a capacidade, esse desafio de representar todas e todos. Foi uma escolha muito assertiva. Ele esteve aqui no mural, proferiu palavras, parecia um profeta falando do desafio dos nossos tempos, então acho que é essencial ter essas verdades. Tudo o que vocês estão vendo aqui, o brigadista, cada elemento que está lá é uma coisa que vi, que senti, então acho que por isso que ressoa tanto esse mural.

E essa não é a primeira obra modernista que você pega como inspiração. Também houve aquela que você fez a releitura do Operários, da Tarsila do Amaral com a lama de Brumadinho. Por que a inspiração nos modernistas, o que eles despertam em você?

Vem de toda admiração ao trabalho desses artistas como a Tarsila, o Portinari, mas acho que o mais interessante nessas releituras é traçar esse paralelo. Quando a gente fala de Operários da Tarsila vemos que pouco mudou. Você vê ali a diversidade que ela representou, mas a indústria sempre acima daqueles olhares cansados e décadas depois está lá, os mesmos operários de Brumadinho que ficaram abaixo do lucro. E eu acho que é muito interessante essa coisa de incomodar, que a arte modernista fez. De gerar reflexões e não ser uma estética dominante e aceitável da época. Quando uso a lama de Brumadinho, que é a prova de um crime ambiental, que ninguém quer ver aquele rejeito da mineração, não serve para nada, ou as cinzas da floresta, é antropofagia pura. Porque a gente vê que a gente comeu a floresta, consumiu, queimou, sobrou cinzas. Essa matéria prima que ninguém quer, que não serve para nada, mostra que dá para construir beleza, dá para criar narrativas. Me debrucei na obra dos modernistas, no caso do Portinari, fui ao Museu e Casa Portinari, conhecer as raízes do artista. Fui também ao Masp observar a obra, tudo isso é muito importante, assim como falar com o João Cândido Portinari, o filho. Na obra da Tarsila tive a felicidade de conhecer a Tarsilinha do Amaral, que também me contou coisas muito importantes para eu ter essa confiança, porque na verdade é um grande desafio fazer uma releitura. A arte dos nossos tempos não é modernista e não é um novo modernismo. Tamanhos desafios locais e globais que a gente tem. Acredito que tem de ser arte com ‘artevismo’. Esta seria a corrente desse momento que a gente vive, porque vamos precisar de todas as ferramentas para combater essas causas que estão colocando em risco a nossa própria sobrevivência enquanto raça humana neste planeta. Acredito que a arte sempre foi uma grande ferramenta. E no momento desesperador que a gente vive, o mundo pegando fogo, alagamento… O Brasil, que é o país que tem mais água abundante, vive a pior crise hídrica do século. Sinais desse colapso ambiental estão muito evidentes. Então a arte e o ativismo têm de andar cada vez mais juntos.

E isso sempre permeou sua carreira. Me fala um pouco sobre isso, usar a arte em forma de contestação, de protesto.

Nunca fiz arte apenas para criar beleza, para exposição. Para mim a arte sempre teve esse significado maior, de ferramenta, de fazer as pessoas pensarem. Fazendo grafitti por São Paulo, pelo mundo, sempre procuro gerar reflexões, questionar, protestar. E por diversos suportes, como as carroças dos catadores e catadoras de materiais recicláveis que, como os brigadistas, são heróis e heroínas invisíveis que estão defendendo o nosso planeta, poupando recursos naturais, mitigando a mudança climática. Comecei a pintar as carroças deles (fundou a Ong Pimp My Carroça). Aumenta a autoestima do trabalhador, faz uma pessoa no carro, no ônibus, falar: ‘realmente, esse catador faz mais que o Ministro do Meio Ambiente’. Ela tem esse papel de gerar reflexões e o que não falta nesse mundo são inspirações para tantos problemas e desafios que a gente tem pela frente. 

E você está esperançoso de que algum dia possa fazer uma arte que não fale sobre isso, que o Brasil mude, o mundo mude?

Na verdade é muito triste isso que eu fiz. A gente ter de mostrar as queimadas, usar as cinzas… Aqui são milhões de seres vivos, de quatro biomas diferentes. Porque não queimam só árvores, a gente encontrou vértebra de animais, queimam ninhos de pássaros, tudo vira pó. Temos de usar provas de crimes ambientais para fazer esse protesto. O que eu desejaria é que não precisasse fazer. Mas infelizmente as cinzas da floresta, o rejeito da mineração, e outros pigmentos de desastres que talvez seja no Brasil, hoje, a matéria prima mais abundante. E não acho que vai parar tão cedo, porque a gente ainda vive esse país que não entendeu que sem floresta de pé a gente não vai ter água e sem água você não tem nem agronegócio, não tem vida, não tem nada. A gente sente os efeitos da mudança climática. Aí tem uma geada, perde-se toda a plantação, com seca, então a gente vive um desequilíbrio ambiental. E, por isso, tem uns elementos aqui (aponta para o mural) que eu queria falar que eu fiz a releitura. No lugar do lavrador de café, entra o brigadista da floresta, a enxada vira o abafador, uma ferramenta importante de combate ao fogo. Onde tinha o trem de Portinari, entram os caminhões levando toras da Amazônia. A árvore decepada ganha um contorno do mapa do Brasil com uma torneira, evidenciando que o desmatamento traz essa crise hídrica que a gente vive hoje. O megafone é um símbolo de voz, e ela está largada, a galera não está protestando contra esse desmonte ambiental que a gente tem. Vivemos agora a COP 26, maior conferência do clima, e vejo a gente muito isolado de tudo isso. O Pantanal está representado pelo jacaré na seca. O grilo é um símbolo de desequilíbrio ambiental, quando ele vem em enxames, e ao mesmo tempo simboliza a grilagem. E a ampulheta é que o nosso tempo está acabando. Esses elementos colocados nessa releitura espero que gerem muitas reflexões. E o mais interessante é que essa obra mesmo uma semana após ser concluída já está entrando nas escolas. Professores estão levando esse tema para sala de aula, falando de Portinari, dos desafios do nosso tempo, crise hídrica e ‘artevismo’.

E pensando em modernismo e no centenário da Semana de Arte Moderna, tem algum outro projeto de releitura dos modernistas que você possa adiantar?

Acredito que essa data do centenário é muito importante. E ver em cem anos no que se transformou, não só o universo das artes, que teve essa diversidade toda, mas o nosso país, o nosso mundo. Tem essas datas redondinhas, mas acredito que é uma constante transformação. Mas o que posso dizer é que hoje faz mais sentido uma arte mais acessível para a população e não elitizada como a gente teve na Semana de 22. Uma arte mais diversa, inclusiva, acho que estes são os desafios. E também, assim como a Semana chocou a corrente da época, e trouxe visibilidade para temas e causas que não eram faladas, aquela visão eurocêntrica, da arte da Europa, do hemisfério norte, a gente trazer aqui para buscar essa identidade nacional. Ela está misturada com o que a gente é. O Brasil tem essa diversidade, tem a biodiversidade que talvez seja um dos fatores que tornam o país único, nessa obra em especial, consegui misturar e também provocar, que era o que a Semana queria fazer. Com certeza em 2022 estarei produzindo muito ‘artevismo’. Vem uma exposição bem visceral pela frente, exatamente na semana de 22, vou criar uma fazendo resíduos, dando alertas do nosso tempo e também outras ações que estamos planejando e que vou ficar feliz de contar depois para vocês. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

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