‘Queremos trazer diferentes olhares sobre a Semana de Arte Moderna’, diz o diretor de programação da TV Cultura, Eneas Carlos Pereira

Causar reflexão e democratizar a informação e conteúdos são algumas das premissas da TV Cultura. Com base nisso, a emissora prepara programação especial para celebrar o centenário da Semana de Arte Moderna, que tem início hoje com a apresentação do programa Roda Viva, que tem como convidado o escritor Ruy Castro. Esta é só uma atração da gama que está por vir, segundo o diretor de programação da emissora Eneas Carlos Pereira, que participou de uma live com a Agenda Tarsila e detalhou as produções que reverberam o assunto. 

Pereira é autor literário, dramaturgo, roteirista de cinema e TV. Na emissora, onde ingressou em 1985, escreveu Bambalalão, foi roteirista de Cocoricó e também foi roteirista das séries como Autor por Autor e Lá e Cá. Segundo ele, entre os mais variados formatos – documentários, séries e até filme infantil – a ideia é colocar diversos pontos de vista de forma que um evento que aconteceu há 100 anos jamais seja esquecido e repensado. Confira, a seguir, a entrevista completa: 

A gente está contando os dias para o centenário da Semana de Arte Moderna e você preparou um trabalho que aborda a efeméride em diversos aspectos. O que vem por aí que dá para adiantar para o público?

Este ano aguarda dois grandes eventos: um é o centenário da Semana de Arte Moderna e outro o bicentenário da Independência. Nós tínhamos muito claro que íamos trabalhar essas duas datas de uma forma muito especial dentro da TV Cultura. E, para isso, é fundamental a presença de um cara como o presidente da emissora, que é o José Roberto Maluf, porque é um executivo de televisão, foi vice-presidente da Band, vice-presidente do SBT, então ele entende de televisão. Tanto que todos os diretores vêm do audiovisual, das TVs abertas e fechadas, e tínhamos isso muito claro. E ele me confiou isso: ‘pensa para a gente fazer algo sobre o centenário’. Claro que sempre existe o ideal, que é o que a gente imagina, e o real, que é quando nos deparamos com questões orçamentárias, de agenda. Eles me chamam de louco lá. Mas digo: ‘se eu não fosse louco e não sonhasse, não teríamos a série que estamos produzindo dos duzentos anos da independência’. Não teríamos trazido o (Antonio) Fagundes, o Luiz Fernando Carvalho. Não custa. O ‘não’ já temos. E a Semana também é isso muito claro, em especial porque a TV Cultura, embora seja uma rede nacional, paulistana  na excelência, nasce aqui, é sediada aqui, é uma TV estadual, tem um olhar muito grande para São Paulo e diria para o Brasil. Então a Semana de Arte Moderna teria de encontrar um tratamento especial. A primeira coisa que a gente pensou – e eu convenci a presidência – foi que não adiantava fazer o óbvio sobre o tema. Toda vez é Oswald, Mário de Andrade, Tarsila… Isso não tem como não falar, está contemplado. Mas a gente queria diferentes olhares para a Semana. A partir daí fomos traçando a nossa programação, que começa dia 7, segunda-feira, de uma forma absolutamente polêmica: no Roda Viva a gente convida o (escritor) Ruy Castro, que é um cara que defende que a Semana foi uma festa de paulista ‘quatrocentões’. Ela nasceu no Rio, segundo o Ruy. Outro dia estava conversando com ele ao telefone e disse: ‘Ruy, você tem noção que vai tomar um pau’. Ele: ‘isso que é legal’. Isso que nos interessa, fomentar essa discussão. Eu estava lendo o Metrópole à Beira-Mar, dele, e um capítulo que me chamou muita atenção foi a visão que ele tinha da Semana. Daí ele derivou, está lançando agora o Vozes da Metrópole. Aquilo que era um capítulo lá, ele transformou em um livro. Ele disse: ‘no Metrópole eu matei a cobra. No Vozes eu mostro o pau’. Então a gente começa com esse olhar totalmente diferente e colocamos para discussão. Temos na TV Cultura esse compromisso com a pluralidade. O Abujamra falava uma coisa: ‘a (TV) Cultura é para ser copiada, não é para copiar’. As coisas nascem lá e têm de ganhar o mundo. Quando você vê o programa do Serginho Groisman na Globo, o Altas Horas, é o Matéria-Prima, que começou na Cultura. Programa infantil de auditório com apresentador, antes de surgir Xuxa, a gente tinha o Bambalalão. Participei de um programa, em 2017, que ajudei a criar, que ganhou o APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) como o mais inovador da televisão brasileira, que é o Terra Dois, com Jorge Forbes, Maria Fernanda Cândido, que era muito à frente do tempo dele. Mas essa é a função, experimentar. Neste sentido cai bem a questão do Ruy no Roda Viva. A partir daí na sexta, dia 11, a gente tem uma série de mini-docs que começam a rodar na programação que chamamos de 22 Cem Anos Depois.  A criação é do Miguel de Almeida, diretor de cinema, que me trouxe essa ideia. Ele queria uma leitura da Semana com temas periféricos ou pouco falados. Tanto que o episódio que a gente estreia chama-se A Festa Brasileira em Rouen. É o episódio no qual em 1540 cinquenta índios Tupinambá são levados para França para fazer uma apresentação para a corte. Eles nunca mais voltaram para o Brasil. E a gente brinca que essa talvez tenha sido a primeira missão cultural brasileira e mostramos esse fato onde o (Michel de) Montaigne vai ver essa apresentação e os índios eram todos canibais. Ele fala: ‘o canibalismo dessa nação não tem nada de selvagem’. Vamos chegar no Manifesto Antropófago de Oswald, que quando ele fala de antropofagia, ‘tem de comer o que o europeu tem de bom’, a gente vai buscar isso. Vamos falar do Palhaço Piolin, que era endeusado pelos modernistas, contamos ‘n’ histórias. Por exemplo, em plena Semana de 1922 existia uma imprensa negra paulista, feita por jornalistas negros absolutamente ligados ao modernismo e que não estão no evento. E o que é legal dessa série: convidamos 22 personalidades. Cada um conta uma história. A da imprensa negra paulistana quem narra é o Rappin Hood. A Festa Brasileira em Rouen é Geraldinho Carneiro, poeta, da Academia Brasileira de Letras e roteirista da Globo. Convidamos também Maria Adelaide Amaral, Lauro César Muniz, Ignácio de Loyola Brandão, Emanoel Araújo, Arrigo Barnabé. Renato Teixeira fala sobre Marcelo Tupinambá, que talvez tenha sido um compositor que nunca teve o reconhecimento do Villa-Lobos, mas que desempenhou muito esta época. A gente também reexibe uma série que produzimos ano passado, dirigida por Ricardo Elias, cineasta, que se chama Os Modernistas. Nela temos um episódio para cada: Oswald, Mário, Brecheret e Tarsila do Amaral. Também exibiremos filmes quase nunca transmitidos e um inédito na TV aberta, ligados ao modernismo: Macunaíma, O Homem do Pau-Brasil e um documentário sobre a montagem de O Rei da Vela, nunca exibido em TV. Embora a Semana se dê em fevereiro, a comemoração se estende. Esta série 22 Cem Anos Depois a previsão é que ela vá até o ‘Descobrimento’, em abril. A gente tem também um acordo com o Kiko Mistrorigo e a Célia Catunda para exibição do longa Tarsilinha. Temos só o compromisso de estrear no cinema, a previsão é 17 de março. Seguimos nesta linha de democratizar o acesso, possibilitar um filme como esse chegar a crianças do Norte, Nordeste, porque é isso que sempre converso com Maluf. A gente faz televisão, o nosso compromisso, fazer o mais democrático possível, para que atinja crianças e famílias que, de repente, não têm condição de ter acesso a streaming, seja por condições financeiras ou infraestrutura, então trazemos esse compromisso. Temos um núcleo de acessibilidade com a questão de Libras, audiodescrição, que agora foi considerado modelo na televisão brasileira e trabalhamos essa questão da democratização não só na questão geográfica, mas inserir populações de surdos. A Semana está nesse pé, começando, temos ainda muito mais coisas. O Entrelinhas, que é um programa de literatura, tem um dia dedicado a lançamentos de livros sobre o assunto, o Metrópolis vai fazer um programa em que vai estabelecer diálogos com quem são os modernos hoje, os modernistas hoje. A gente recuperou e digitalizou uma série de documentários que tínhamos e vamos reprisar uma série deles. É um grande cardápio para telespectador da TV Cultura que se amarra nessa coisa da Semana de 1922.

Pelo que vemos é uma programação riquíssima e que aborda diversos aspectos dos modernistas. Na sua opinião, qual o principal legado que estes artistas trouxeram para o Brasil?

Acho que a coragem da ruptura. Sem isso, a gente não faz nada, seja em arte, cultura. E o que acontecia no Brasil? A gente tem até um episódio no 22 Cem Anos Depois que quem narra é o Ignácio de Loyola Brandão, que chama Os Vilões de 22. Quem foram eleitos os vilões? Os coitados dos parnasianos, que tinham lá todo seu valor. O que acho mais importante da Semana de 22, destes artistas, e aí falo em geral, seja poesia, prosa, as artes plásticas, a música, foi a questão da ruptura. A partir dela que a gente pode vislumbrar novas matizes. A gente tem de ousar, precisa arriscar. Claro que arriscar com responsabilidade, até porque a TV Cultura a receita dela é dinheiro público. Nós vendemos causas, não vendemos audiência. Se a empresa quer associar o nome dela a conteúdos de prestígio, de qualidade, acho que aí vale a pena, o canal é a Cultura. Tanto que a gente tem trazido muitos parceiros de empresas que têm um olhar diferenciado. E os modernistas, por mais que pareçam ‘um bando de riquinhos, meninos mimados, filhos da economia cafeeira’, eles tiveram a coragem de romper. Quando Emicida vai para o Municipal e faz aquele show (AmarElo) também rompe. A gente precisa romper com o óbvio. Tenho um departamento na TV Cultura de programação que tem oito departamentos. E são todos ótimos, as pessoas que gerem. Sempre brinco com eles: ‘gente, não adianta fazer o possível. Isso todo mundo faz. Com todas as nossas limitações, temos de buscar fazer a diferença’. Acho que esses caras fizeram a diferença nisso. E quando Oswald fala em antropofagia, para mim isso é uma coisa que levo como coisa de cabeceira. Viajei muito por conta das circunstâncias da minha vida e de cada lugar onde fui, pude conhecer as culturas. A gente vem com elas impregnadas. Essa coisa de deglutir o que o estrangeiro tem de bom é importante, mas sem perder a nossa identidade. Tenho três grandes livros que sou apaixonado, um deles é Macunaíma, o outro Grande Sertão Veredas e Paixão Segundo GH, de Clarice Lispector. São os ‘Ulysses’ brasileiros. E você vê que Macunaíma nasce deste movimento. Tenho essa paixão pela Semana de Arte Moderna, mas ela não é fanatismo. Tanto que proponho vários olhares. Como também não demonstra o fato de muitos modernistas terem alguns anos depois integrado a Academia Brasileira de Letras a qual eles foram contra na Semana. É aquela coisa do pré-socrático, o rio não passa duas vezes no mesmo lugar. O que há de mais eterno na vida da gente é a mudança. Então sou muito receptivo a essa questão da mudança, inclusive dos modernistas. 

Você citou o Emicida. Dá para traçar um paralelo entre aqueles artistas e entre os que existem hoje no país?

Acho que dá, até porque não enxergo movimentos literários, artísticos, como algo estanque. Eles se tornam estanques para efeito de estudo. ‘Preciso aprender o realismo, naturalismo, parnasianismo, modernismo…’ Gente, isso tudo, na realidade é uma continuidade. Ainda que exista a necessidade de uma ruptura, tem de nascer o novo, as pessoas veem bebendo nesta linha histórica toda. Será que existem modernistas hoje? Acho que super. Talvez daqui uns anos a gente vai olhar para alguns movimentos artísticos e manifestações que acontecem hoje e vamos olhar desta forma. Tem muita gente fazendo coisa tão importante ou mais. Taí o Emicida fazendo essas coisas todas, o Happin’ Hood, agora quem vai dizer isso vai ser a história. Tem de lembrar que na Semana de 22, aqueles caras eram bem nascidos e tinham a retaguarda financeira da economia cafeeira por trás para reverberar. São Paulo estava em um momento onde isso era importante. No final do século 19, a cidade tinha 70 mil habitantes. Era um estádio de futebol hoje cheio. A gente sabe que essa questão financeira impulsiona o networking. Vejo um milhão de coisas acontecendo. Queria ter orçamento e capacidade de produção para poder absorver todas na TV Cultura e mostrar, não tenho. Mas respeito a todas e sou um fã de todas as manifestações. 

Você falou dos filmes que vão ter na grade, como Macunaíma, no dia 13 de fevereiro. Como foram feitas essas escolhas?

Sim, estará no Cine Cult, em uma faixa só dedicada aos filmes de arte. Isso é legal na TV Cultura, porque durante a pandemia os cinemas estavam fechados e conversei com algumas salas de cinema, distribuidores e produtores, e a gente trouxe, em um valor que a TV pudesse arcar, filmes que jamais seriam exibidos na TV Brasileira. Criamos uma faixa de filmes de arte e é nela que Macunaíma vai ser exibido. Por questão de trabalho, tenho oito streamings, porque preciso assistir a tudo. Mas sei que somos uma exceção dentro dessa estrutura. Esse Cine Cult surgiu no tempo da pandemia. A gente vai bater na tecla de um acesso democrático de conteúdo de uma TV pública, a nossa função é essa. Foi aí que trouxemos filmes icônicos, recentes, de 2015 para cá, passados todo domingo. Enquanto eu estiver lá o meu compromisso é com a TV Pública. Quero dar para a sociedade o que não acho que ela vai ter acesso normalmente e se ver vai enriquecer. Nessa busca aparecem pérolas como O Rei da Vela. Falamos da ruptura e desdobramentos. Ela, que nasceu com Mário, Oswald, e todo mundo, vai impactar no Tropicalismo, nos anos 1960, nas montagens do Teatro Oficina, em um texto de um modernista. A partir do momento que ela rompe, talvez vá encontrar o seu maior eco 40 anos depois, de reverberação para a mídia. 

Vocês vão passar Tarsilinha em breve. O que acha que encanta na obra da Tarsila do Amaral nas crianças?

Tem uma coisa que no Brasil, e isso é ótimo, desde o começo, em qualquer aula de educação artística, eles põem o Abaporu. Minha filha tem 28 anos hoje e lembro dela pequena desenhando o Abaporu. A gente tem de agradecer as professoras neste sentido. Agora tem muito mais coisa que encanta na Tarsila que talvez esteja em segundos e terceiros layers. Embora ela tenha sido essa pessoa que foi para fora, era muito ligada à terra, a essas questões, que são coisas extremamente importantes para as crianças. Por mais que a gente se modernize, venha o avanço tecnológico, você tem uma ligação primitiva com essas raízes. Se você ver os traços da Tarsilinha, é tudo muito ligado à questão da terra, da relação com o exterior, e isso vai para as cores, que era algo que fascinava muito os modernistas. Tanto que eles vão fazer as viagens – tem aquela que foram de carro com o Blaise Cendrars -, vão para Minas. Não tenho medo de errar em achar que este filme vai ser um sucesso. Pode ser que não tenha grandes bilheterias por conta da questão da pandemia, mas vai encantar.

Para encerrar, o que é ser moderno hoje?

A gente vive um processo pouco civilizatório hoje. Se a gente pensar, nós que estamos envolvidos com a cultura e a arte, o que acontece? Já passamos por ‘n’ matizes de ideologia e seja qual for ela, sempre houve interlocução entre as partes. Talvez o que é ser moderno hoje é buscar fugir um pouco da polarização e tentar ser o mais autêntico possível. Olhar para alguém e dizer: ‘nós pensamos de formas diferentes, mas a gente tem de alguma forma estabelecer diálogos aqui’. Moderno hoje é não estar imerso nesta polarização maluca que estamos vivendo. Vai ter gente que vai me execrar por essa resposta. É por aí, gente. Em nome de uma falsa modernidade, estamos rompendo com valores que nos são muito caros e que, sem eles, fica muito difícil tocar em frente. Ser moderno talvez seja voltar às origens, assim como fizeram os modernistas de 1922. E as origens passam por gentileza, por poder ouvir, respeito e não por embates ensandecidos. Vamos entrar em um ano muito difícil e talvez a modernidade seja a gente estar atento a pressupostos básicos. 

(Carol Loback e Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 7 de fevereiro de 2022

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