‘Quero levar a Tarsila para o mundo’, diz Tarsilinha do Amaral, sobrinha-neta e curadora da obra da pintora modernista

Carregar não só o mesmo sangue como também o nome de uma das maiores artistas brasileiras pode parecer uma herança pesada. Não para Tarsila do Amaral, a Tarsilinha, para os íntimos. Sobrinha-neta da pintora, a hoje curadora de sua obra diz se sentir grata por ter convivido, ainda que por oito anos, com a modernista, e de difundir sua história para as próximas gerações. 

Tanto que está em seus planos levar o seu legado para fora das fronteiras brasileiras. Não que obras como Abaporu e A Cuca não tenham sido expostas em outros países – fizeram muito sucesso, inclusive nos Estados Unidos -, mas Tarsilinha quer mais. A ideia é fazer um filme internacional e conquistar, cada vez mais, fãs das cores e traços tarsilianos. Confira, a seguir, a entrevista exclusiva que ela deu para Agenda Tarsila:

Como é ser dona do mesmo nome da sua tia, por quem você tinha tanto carinho, e também ser curadora dessa obra tão rica para a cultura brasileira?

Não pode ter uma coisa melhor na minha vida. Por ser isso que você falou: ter este nome e, ainda hoje, ser a pessoa que cuida de tudo isso. Meu pai era advogado dela (Tarsila) e sobrinho. Ela era irmã do meu avô, pai do meu pai. Nós éramos realmente muito próximos dela, que foi uma mulher muito à frente de seu tempo. Puxa, sempre tive o maior orgulho de ter este nome e, conforme meu pai foi se aposentando – ele ainda está vivo – fui ocupando este lugar dele, me interessando. Claro, ter o mesmo nome ajudou muito neste processo, mas hoje sou realmente eu que cuido de tudo, com um orgulho enorme.

E quando a gente fala em cuidar de tudo, o que é este tudo? O que compreende esta obra que você tem de cuidar e preservar para as próximas gerações?

As exposições, todas as publicações, livros, projetos especiais, um filme, documentários, uma série, todos estes são projetos muitos especiais, e também os licenciamentos. É claro, a parte financeira é uma coisa importante para minha família, para mim, mas também tem um sentido de divulgação nos licenciamentos. Eu via isso sendo feito muito fora do Brasil, enfim, Europa, Estados Unidos, os grandes museus, e falava: ‘Puxa, vamos fazer isso aqui no Brasil também’. E a minha tia, realmente, foi quem abriu muito as portas para este mercado de licenciamentos. Estar aqui, falando com você, toda essa divulgação que a imprensa está sempre me ajudando muito nisso também é fundamental. Estas seriam as grandes frentes deste trabalho. Mas a mesma atenção que dou para qualquer um destes projetos vou dar também para uma criança de escola que quer fazer um trabalho sobre ela, um professor que está trabalhando com os alunos, uma editora que me pede autorização para colocar uma imagem em um livro didático. Isso para mim é também de uma importância enorme e cuido de tudo com o maior carinho. 

Quando a Tarsila faleceu você tinha 8 anos. Você tem lembranças dela, dessa relação de vocês? O que mais te marcou nas conversas com ela? Vi que você é museóloga também, acredito que a paixão pela arte tenha nascido aí…

Foi um privilégio para mim ter aprendido a gostar de arte na casa da minha tia vendo aqueles quadros. Tive o privilégio de ver a maioria destas grandes obras que estão em museus, em grandes coleções, pude ver na casa dela. E fui desenvolvendo este gosto pela arte olhando as obras dela. Amo arte, diversos artistas, diversas correntes, tanto que fui estudar museologia mas, claro, ela é a artista mais especial para mim. 

Ela foi um dos grandes nomes do modernismo, embora não tenha participado da Semana. Você acredita que ela tinha noção de toda obra que ela fez, de todo legado que ela deixava, não só como artista, mas também como mulher à frente de seu tempo?

Acho que sim. Com quem eu conversei (para fazer o livro) sobre ela, tinha uma convivência muito íntima. Nos últimos anos estava em uma cadeira de rodas, meus pais levavam ela para lá e pra cá, era uma convivência muito forte com ela. Eu adorava ir na casa dela. Sempre que chegava lá ela estava muito arrumada, sempre muito vaidosa. E, mesmo na cadeira de rodas, vinha, me pegava, me dava um beijo, abraço, sempre carinhosa, conversava muito comigo, enfim, estas lembranças vou ter para o resto da minha vida. Nunca pensei em cuidar das coisas dela, imagina. Eu montava a cavalo, dava aula de equitação, essa sempre foi minha profissão. Fiz faculdade de Matemática, fiz faculdade de Direito, mas o que eu gostava mesmo era de cavalo, acho que uma herança dessa convivência com minha família, nas fazendas do pai da Tarsila. Aí pensei primeiro em escrever uma biografia sobre ela. Fiz um livro chamado Tarsila por Tarsila, e era biográfico, mais voltado para a vida pessoal dela. Comecei a me interessar por isso e as pessoas com quem mais conversei foram meu pai, sobrinho dela, e a minha madrinha, irmã do papai, que era uma das pessoas que também cuidava da Tarsila. Lembro muito do papai falando que uma vez ela deu um quadro para ele de presente e falou: ‘Filhinho, você guarda este quadro que depois que eu morrer ele vai valorizar muito.’ Então, sinto, de tudo que pesquisei, que ela já tinha uma noção que ela era importante. Mas, claro, nada parecido com o que é hoje. Com o tempo, o tamanho que ela chegou na arte brasileira e está chegando na arte mundial, acho que ela não tinha essa noção. 

E a gente tem o Abaporu, quer dizer, não temos mais, está na Argentina. É como a Mona Lisa para a Itália, que está na França. Você consideraria, portanto, o Abaporu como a Mona Lisa Brasileira?

A primeira vez que ouvi isso levei um susto. É uma comparação muito forte. Sempre que o Abaporu veio para o Brasil teve um interesse muito grande, sempre foi o quadro mais importante da exposição. E quando teve a (exposição) dos Estados Unidos, em Chicago, em 2017, e no MoMA (Nova York), em 2018, eu ouvi isso mais vezes. Mesmo nos Estados Unidos onde estava o Abaporu sempre tinha aquela fila, aglomeração para ver o quadro. Agora, nada foi parecido como a exposição do Masp, em 2019. Ali realmente foi o marco, não só para minha tia, para o Masp, como para a arte brasileira. Aquelas filas gigantes no vão do Masp… Lá na sala de exposição tinha o número máximo e acho que a maioria das vezes que fui lá, e fui quase todos os dias, sempre estava no número máximo de pessoas, de 250 pessoas. E na frente do Abaporu era realmente uma coisa muito parecida com o que você vê com a Mona Lisa no Louvre, o que também me enche de orgulho esta comparação. 

O que você acha que desperta tanto interesse no Abaporu, qual é a magia dele?

Primeiro a história do quadro. Ele foi feito para dar de presente para Oswald de Andrade, os dois estavam casados. Era um casal realmente central do movimento modernista, e aquela coisa de um inspirar o outro foi uma presença muito forte em toda relação deles. O Abaporu, para mim, é o ápice dessa relação e da significação que tinha para o movimento modernista e a arte brasileira. Então, quando Oswald vê o quadro, interpreta, acha que era um indígena, um antropófago, o homem plantado na terra, escreve o Manifesto Antropófago inspirado no quadro. Depois ele funda o Movimento Antropofágico, também inspirado no quadro. Isso é uma coisa única, uma obra pictórica inspirar um movimento literário, isso é muito raro. O Abaporu já nasce com uma história muito forte, muito importante para a arte brasileira. Depois toda vem trajetória do quadro. Ele foi vendido aqui no Brasil duas vezes, e as duas vezes era o valor mais caro. Depois foi vendido em 1995, quem comprou foi Eduardo Constantini, para coleção dele no Malba (Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires). Então ele pagar 1,5 milhão (de dólares) já naquela época criou-se um mito. E também toda importância que se dá pelos curadores, historiadores, todo mundo fala que realmente é o nosso grande quadro. 

Você se ressente de não estar com sua família o quadro tão importante para a nossa história?

É claro que eu adoraria ter esse quadro na minha casa. Eu ia morrer… (risos) Mas eu acho que este quadro deveria estar mesmo em um museu. É óbvio que seria lindo se estivesse em um museu brasileiro, mas também vou dar valor por ele estar em um grande museu argentino, com uma coleção muito importante, a maior de arte latino-americana do mundo. Isso também tem um valor muito importante. 

Como você vê o legado dos modernistas brasileiros passados 100 anos deste movimento tão importante, que sua tia entrou um pouco depois, mas não deixou de ter menos relevância nesta história, principalmente no grupo dos cinco?

É interessante isso. Apesar dela não ter participado da semana, o ano que vem, que são os 100 anos, estou cheia de pedidos, em diversos projetos, falando dela. Apesar de não ter participado da Semana, ela é uma das pessoas mais lembradas. Sobre o evento ela só se comunicou por cartas com Anita Malfatti, mas no modernismo ela realmente é uma das figuras centrais. Acho que com o passar do tempo toda essa influência já foi muito estudada, veio a tropicália, o próprio Caetano (Veloso) fala que foi muito influenciado pela antropofagia, pelo Abaporu, então já tiveram outros movimentos que se inspiraram. Mas eu acho que vai passando o tempo, tudo isso vai aumentando muito. Hoje vejo grandes artistas brasileiros falando que tiveram influência da Tarsila. A própria Beatriz Milhazes (diz isso), me enche de orgulho, a Leda Catunda. Com o tempo vão acontecendo mais estudos, outros grupos vão se formando e ela vai estar sendo sempre lembrada. Com o tempo essa influência vai ser mais estudada e mais lembrada ainda. 

A obra dela conversa bastante com crianças também. Está tendo uma exposição no shopping Villa Lobos e também vai ter o desenho Tarsilinha. Esse encantamento infantil era uma vontade dela, e o que acha que desperta isso?

É muito evidente. As crianças amam a obra da minha tia. Tenho muito contato com escolas e alunos, através do site, gosto muito de responder e me atualizar. Vejo que os professores, um dos primeiros artistas que eles ensinam, é a minha tia. É uma obra muito fácil de uma criança entender e todo mundo gosta. É linda, colorida, tem até um aspecto infantil, ingênuo da minha tia, presente na obra dela. Os elementos são inspirados na fauna, flora, tem o sapinho, o lagarto, a Cuca, o próprio Abaporu é uma figura meio estranha, mas que as crianças amam. A minha avó, que era melhor amiga dela, falava: ‘olha, Tarsila, você me desculpe, mas eu não gosto desse seu quadro (risos)’. As pessoas mais velhas acham meio estranho, mas as crianças amam. Têm uma compreensão diferente da obra dela. Já escrevi vários livros para crianças, tinha feito outras exposições, olhando para este universo, mas esta última, Tarsila para Crianças, está fazendo um grande sucesso. Já esteve em São Paulo, no Farol Santander, está agora no Villa-Lobos, no Farol Santander de Porto Alegre e tenho um monte de pedidos para o Brasil inteiro. Provavelmente vai itinerar. O mais legal é ver o retorno das crianças, elas brincam e aprendem. 

E há um filme  biográfico por vir. Me fala um pouco sobre este projeto e como está o andamento. 

Esqueci de falar do filme Tarsilinha. Estamos analisando o convite (de estrear na TV Cultura), mas estamos muito propensos, de também, finalmente, poder lançar no cinema. A expectativa com o avanço das vacinas é que as salas voltem com maior público. Íamos lançar no ano passado, mas infelizmente não pudemos. O filme está lindo, o cenário, a paisagem tarsiliana está presente, as cores, esses bichinhos, estes elementos da obra viram personagem. A história dela é muito bonitinha. É uma menininha que vai inspirar muito as crianças, tenho certeza. E também agora estou fazendo um filme internacional. Há uma grande expectativa de levar minha tia para fora do Brasil. Depois da exposição do MoMA, nossa, foi um marco. Ela muda de patamar mundial depois desta exposição. Tenho usado interesse de outros grandes museus querendo levar a exposição e este filme acredito que ajudaria ela neste processo todo de internacionalização. 

E a atriz que fará Tarsila é internacional ou nacional?

Ainda não está escolhida. Tem aí uma lista, pode ser que seja até uma atriz internacional, talvez o filme seja em inglês também, isso tudo são escolhas da produção. Mas, para mim, seria também muito interessante que fosse uma atriz muito importante, daria muita visibilidade. Um dos grandes focos deste filme é levar a Tarsila para o mundo. Também tem uma série que estamos em negociação, adoraria que saísse para o ano que vem. Esta brasileira, falada em português. 

Isso seria uma forma de comemorar o centenário ou tem outro projeto em específico para isso?

Tem  tanta coisa… Acho que você fazer uma série destas benfeita, produção grande, bacana, vai ser uma maneira linda de comemorar. Estamos negociando, mas tem a possibilidade de ser em streaming. 

Se você tivesse oportunidade de encontrar com a sua tia hoje o que você falaria para ela?

Eu ia agradecer tanto tudo que ela fez para o Brasil, a arte brasileira, aquele orgulho que ela tinha de chegar em Paris e oferecer feijoada, caipirinha, cigarro de palha para os amigos dela. Picasso, Léger, Brancusi iam na casa dela comer feijoada. Esse amor que ela tinha pelo país, só posso agradecer de uma pessoa ter feito isso há 100 anos e por ter este privilégio de cuidar de uma artista tão importante.

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

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