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Rede de Museus-Casas Literários tem programação comemorativa ao centenário da Semana até dezembro de 22

Encontros literários, cursos ligados aos modernistas, exposições com temas diferenciados e muito interessantes. Tudo isso e muito mais pode ser encontrado na programação da Rede de Museus-Casas Literários, que conta com a Casa Mário de Andrade, a Casa Guilherme de Almeida e a Casa das Rosas. Desde o início de julho diversas atividades – todas gratuitas – relacionadas ao modernismo estão sendo realizadas a fim de comemorar o centenário da Semana de 22.

O diretor da Rede de Museus, Marcelo Tápia, elenca, a seguir, em entrevista exclusiva à Agenda Tarsila, os eventos que serão realizados até dezembro de 2022, que envolvem cursos formativos, ciclo de palestras, eventos híbridos – uma tendência adquirida durante a pandemia – e também lançamentos como, por exemplo, livro raro escrito por Mário de Andrade. 

Segundo ele, a cultura brasileira deve muito ao que estes vanguardistas realizaram há cem anos. Tápia diz que os ecos do movimento perduram até hoje ‘exatamente pela importância que teve o rompimento como parâmetro do passado então, que perduraram’. “Ou seja, você poder criar de maneira a adotar padrões próprios que sirvam à sua criação e não simplesmente repetir modelos. Esta noção que vem com o modernismo nitidamente no país abriu as portas, gerou como disseram várias vezes, o próprio Guilherme de Almeida, também fala em uma conferência em 1925, ‘abriram-se as portas, o sinal verde,’ e isso não tem retorno. Inevitavelmente temos de reportar a este movimento e ainda usufruímos das conquistas possibilitadas por ele.” Confira, a seguir, entrevista completa.

Estamos falando de um evento muito importante para a história da cultura brasileira, que é a Semana de Arte Moderna de 1922, cujo centenário se completa ano que vem. Queria saber da Rede de Museus-Casas Literários o que está sendo programado para comemorar esta data?

Nós já estamos com uma programação celebrativa do centenário da Semana em andamento. A partir do segundo semestre deste ano temos feito algumas atividades relacionadas ao centenário. Por que? No caso dos Museus-Casas Literários, os três escritores ligados a cada uma das casas têm relação íntima com o modernismo. O Guilherme de Almeida foi um dos organizadores da Semana, assim como Mário de Andrade e o Haroldo de Campos, que é relacionado com a Casa das Rosas, que abriga o acervo bibliográfico do Haroldo. Até a tese de doutorado dele foi sobre Mário de Andrade, sobre Macunaíma. E o Haroldo também teve um papel muito importante na releitura crítica de Oswald de Andrade. A própria poesia concreta também dialogava com o modernismo de 22 e ele é um dos criadores. Os museus estão intimamente relacionados com o tema. Neste ano, além disso, o nosso tema das casas é ‘imprevisto e reinvenção’, que tem tudo a ver com a situação, que já não se pretende prosseguir com algo que se considera ultrapassado. É preciso haver uma ruptura, uma renovação nas artes e este tema, portanto, tem tudo a ver com a Semana de 22 e as outras vanguardas do século 20, uma delas o concretismo. Fizemos, por exemplo, na Casa Mário de Andrade, um curso sobre os antecedentes da Semana de 22, tivemos também uma exposição, os Fantoches da Meia-Noite, que é uma obra muito importante de Di Cavalcanti e serviu como ‘uma passagem’ para a semana. Foi numa situação, de uma passagem dele por São Paulo, em que o álbum seria lançado, que houve o encontro do Graça Aranha, que veio do Rio, o Guilherme de Almeida, o Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia, se encontraram  e discutiram para levar adiante a ideia de uma ocasião, um festival, um seminário, em que haveria apresentações, leituras de poemas, exposições, que veio a ser a Semana de Arte Moderna. Daqui por diante, existem várias atividades programadas. 

E o que está por vir?

Para o ano que vem pretendemos fazer na Casa Guilherme de Almeida uma instalação chamada Modernismo Vivo, já que lá o acervo é muito rico em obras de arte de modernistas, todos amigos do Guilherme. Tem Anita, Tarsila, Brecheret, Di Cavalcanti, Lasar Segall, e nós vamos fazer um modo de destacar estas obras por meio de iluminação. Faremos também, já no primeiro trimestre de 22, o Festival Viva a Vaia. Será organizado pela Casa das Rosas, mas ela deverá estar em processo de restauro. Então faremos alguma coisa no jardim da Casa, mas passaremos nas outras casas. Este festival vai evocar a recepção e as críticas que os movimentos de vanguarda receberam. Na própria Semana de 22, lá no (Theatro) Municipal, houve vaias. Elas estão presentes nas manifestações artísticas que são inovadoras, isso é uma constante. Aliás, o nome se refere a um poema de Augusto de Campos, também concretista, que o fez em referência ao Caetano Veloso quando foi vaiado no Tuca, teatro da Universidade Católica de São Paulo, na ocasião do Festival Internacional da Canção Popular, com Proibido Proibir. Vamos utilizar claquetes nas performances. O público que estiver presencial vai ser convidado a vaiar, para revivermos esta situação entre a inovação e a resistência ao novo, algo que sempre concorre como uma tendência normal na sociedade da cultura. Também teremos uma exposição que é a Mostra da Fotografia que não houve na Semana de 22. Embora fosse muito valorizado o cinema até então e a fotografia, o próprio Mário dizia que ‘a cinematografia é a criação artística mais representativa de nossa época’, isso naquela ocasião. Mas não houve uma exposição da fotografia. Então vamos incluir trabalhos de fotografia que poderiam ter participado da Semana de 22. Além disso, as casas já têm uma tradição dos Encontros Peripatéticos. A ideia é de Aristóteles, de ensinar passeando. Fazemos uma atividade em parceria com outros museus e desenvolvemos atividades durante o trajeto. Neste caso, vamos fazer um passeio educativo chamado A Semana de 22 Passou por Aqui. Iniciaremos na Casa das Rosas, provavelmente, e vamos passar pelas outras duas Casas e pelos locais do centro da cidade relacionados à semana e seus participantes. Teremos também uma série de debates, cursos e palestras denominado Do Modernismo à Pós-Utopia, que vai procurar desde o modernismo na sua concepção, até a fase depois das vanguardas, que o Haroldo de Campos denomina de fase pós-utópica. Ou seja, não há mais lugar para um movimento que aglutinasse todo mundo, com os mesmos propósitos, como foi a vanguarda do século 20. Nós vamos procurar ligar as origens do modernismo até o panorama atual e observar o que está vivo dos propósitos, das vanguardas, no contexto atual. Serão vários temas, As Vanguardas Literárias na América-Latina no início do Século 20, Modernismo e Vanguardas Brasileiras no século 20, Os Andrades via Haroldo e também Da Semana de 22 ao Movimento de Saraus da Periferia. Vamos propor ligar os propósitos da semana e a atualidade que se manifesta na cidade de São Paulo, esta riqueza, a pluralidade, que tem os saraus da periferia.Teremos também um ciclo de debates Antropofagia e Tradução, relacionado com a tradução que muitos veem como uma atividade que é antropofágica, no sentido que você incorpora a obra original, deglute e a transforma em nova obra. Então vamos focalizar este tema já que a Casa Guilherme de Almeida é, principalmente, dedicada à tradução literária. Há também atividade na área de cinema, uma série de exibições comentadas e palestras chamada Cinema e Modernismo. Vamos apresentar aspectos do cinema relacionados ao ideário modernista. Um ciclo de palestras Semana Século na Casa Mário de Andrade, sobre a estética visual modernista, a música da Semana de 22, modernismo, literatura e cinema, passado, futuro e presente, vamos focalizar o Grupo dos 5, a música modernista de Marcelo Tupinambá, um importante compositor, o modernismo na música e o modernismo musical pós-semana de 22. Teremos produção de vídeos e a indexação de livros. Estamos preparando versão fac-similar de um livro raro de Mário de Andrade que chama-se O Movimento Modernista, contendo uma conferência feita pelo autor em 30 de abril de 1942. Tornou-se um livrinho, hoje bastante raro, então vamos procurar fazer uma edição com introdução e comentários sobre este texto. 

Uma programação riquíssima e que é importante falar que também é gratuita. 

Sempre toda gratuita. Nos museus, quase todas as nossas atividades são gratuitas e apenas têm uma pequena taxa os programas continuados, às vezes meses de duração, uma taxa relativamente baixa de inscrição, mas é uma exceção. 

O Mário de Andrade teve uma participação importante no evento. Inclusive foi considerado o patrono da Semana de 22. Como você analisaria a participação dele no movimento e como ele lidou com isso até sua morte?

O Mário assumiu um protagonismo desde o início. Ele tinha essa facilidade de liderança, uma pessoa que tinha muita consistência no seu pensamento, na sua crítica. Ele escrevia, no início, com tendência parnasiana e simbolista, que era o que havia como produção artística na poesia. Viveu isso, era um poeta ligado ao que havia. Mas sentia necessidade desta transformação. E gestou o livro Pauliceia Desvairada, que sai exatamente em 1922. Desde o início deu, portanto, esta função de protagonismo na semana, mas ao lado de Oswald de Andrade, de Guilherme de Almeida, de Menotti Del Picchia e o Paulo Prado, que foi quem viabilizou financeiramente a Semana. O Graça Aranha que era considerado como um apoio importante para eles. E, ao mesmo tempo que ele tinha plena convicção que foi uma figura central, participando da Klaxon (revista modernista que circulou até 1923), sempre manteve o seu juízo crítico. Então avaliava, escrevia sobre o movimento, a ponto de fazer a Conferência de 1942, sempre em constante reavaliação das coisas. Nos salões que se reuniam, por exemplo, os da Olivia Guedes Penteado, que era uma espécie de mecenas do grupo e criava ocasiões de encontro e discussão, ele compôs uma música que era uma espécie de prefixo destes encontros, o Hino do Encontro do Gambá. Sentava ao piano e cantava, se referindo, na letra, aos vários companheiros. Viveu os propósitos do modernismo até o fim, infelizmente faleceu prematuramente. Mário conquistou este consenso em torno de seu protagonismo do movimento por sua obra extremamente relevante, o caso também de Macunaíma, que fala um pouco desta importância que tem as nossas raízes plurais da cultura brasileira. Mas houve desentendimentos, rompimento com Oswald… Ao mesmo tempo que tinha proximidade com os artistas, ele foi um importante incentivador da produção dos artistas plásticos do modernismo, incentivou a todos, adquiriu o famoso Cristo com tranças (do Brecheret), que causou uma indignação da própria família. Foi importante para todos os artistas naquele contexto, extremamente importante para o movimento e continua sendo uma referência então, para todos nós, do sentido de renovação, da necessidade de mudança, de estar afinado com sua contemporaneidade, as tendências e da ousadia criativa. Ele rompia com padrões, mas com muita consciência do que estava fazendo. Era múltiplo, ele mesmo dizia, ‘sou trezentos, trezentos e cinquenta’. Como gestor público foi o primeiro diretor do Departamento de Cultura do Estado de São Paulo, seria o cargo equivalente hoje ao Secretário de Cultura, havia tudo por fazer e o Mário fez uma atuação brilhante, desbravou caminhos que depois foram prosseguidos. 

Ele foi o único, principalmente do Grupo dos 5, que nunca viajou para o Exterior. Seria ele, então, o único que fez mesmo o que pregava o modernismo, que era exaltar, a fundo, a cultura brasileira?

Não acho que ele seja o único. Cada um fez a sua maneira. Oswald é quem tinha facilidade para ir à Europa, era mais abastado, nas artes plásticas também, Anita mesmo viajou, fez cursos fora, conheceu ateliês, Tarsila… Mas, por exemplo, Guilherme de Almeida também só viajou porque foi exilado pelo instituto, na revolução de 1932, ficou em Portugal e conheceu a Europa. Não era fácil viajar na época, mas cada um exerceu da sua maneira. O Mário, de fato, tem isso: era alguém muito dedicado à cultura brasileira e em promover ações de conhecimento dela, pesquisa. Ele ocupa um lugar particular neste propósito do movimento modernista que é valorizar, ao máximo, a nossa própria cultura.

A semana foi um evento que ocorreu há cem anos. Ao que você atribui os ecos que ela ainda faz?

Exatamente pela importância que teve o rompimento como parâmetro do passado, então, que perduraram. Ou seja, você poder criar de maneira a adotar padrões próprios que sirvam à sua criação e não simplesmente repetir modelos. Esta noção que vem com o modernismo nitidamente no País abriu as portas, gerou como disseram várias vezes, o próprio Guilherme de Almeida também fala em uma conferência em 1925, ‘abriram-se as portas, o sinal verde’ e isso não tem retorno. Inevitavelmente temos de reportar a este movimento e ainda usufruímos das conquistas possibilitadas por ele. As vanguardas seguintes restabeleceram esse nexo do modernismo, caso da poesia concreta, as manifestações atuais que evocam possibilidades de uso gráfico para formação de poemas, dão visualidade, a interrelação entre as várias linguagens, tudo isso recorre diretamente a este esforço que foi feito pela  superação de limites da época, pela quebra de padrões e o sentido de renovação constante. Nós temos, sim, que reconhecer e prosseguir com estas possibilidades que nos foram abertas com a Semana de 22. 

O setor da cultura foi um dos mais afetados desde o ano passado com a pandemia. Como estão gerindo esta retomada nos museus, como atrair o público novamente?

Nós fomos todos pegos de surpresa. Então, tivemos de nos adaptar rapidamente no início da pandemia para desenvolver as atividades culturais e educativas à distância. Além da visitação, uma gama muito forte da nossa atuação são as atividades culturais e educativas. Utilizamos diversas plataformas, fomos definindo os melhores caminhos, os recursos adequados, às diferentes tipos de atividade e conseguimos desenvolver um programa que ganhou cada vez mais adesão. Impressionante que quando você está no ambiente físico tem a restrição no número de pessoas que o ambiente propicia. Com a ação à distância, conquistamos um público bem mais abrangente, inclusive de outras cidades do estado de São Paulo, outros locais do país e até do exterior. Houve um crescimento nítido de público para todas as nossas atividades. O que nos chama muito atenção, que tem demonstrado pelas pesquisas que temos feito, é que mesmo atividades dirigidas a públicos específicos encontram uma repercussão grande de interessados, o que mostra a pluralidade do interesse pela cultura, e de temas que parece que não vai ter apelo suficiente para atrair em quantidade desejável. Por exemplo, no curso dedicado à introdução da escrita e linguagem da Suméria tivemos cerca de 500 inscritos. Isso nos trouxe uma consciência que abriram perspectivas. Nós já reabrimos para visitação, com o horário reduzido, dias da semana de quarta a domingo, seguindo todos os protocolos. As visitas são agendadas para controlarmos o fluxo de público, com medidas de proteção, mas já programando algumas atividades híbridas. A partir de setembro algumas das atividades serão realizadas com público reduzido no ambiente e, ao mesmo tempo, transmitindo a atividade, para mantermos o alcance. É uma situação nova para todos nós, estamos aprendendo muito com tudo isso e creio que conquistando mais horizontes. O que pretendemos é levar atividades de qualidade para o público que assim deseja. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tasila)

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