Miriam Gimenes

Roteiro pelo centro de SP refaz os passos dos modernistas e promove ‘viagem’ ao início do século passado

Quem se depara com os textos de Pauliceia Desvairada, de Mário de Andrade, tenta imaginar como era a São Paulo à época em que ele escreveu. “Gingam os bondes como um fogo de artifício, sapateando nos trilhos, cuspindo um orifício na treva cor de cal”, descreve no poema Noturno, integrante da obra. Mas que tal ler este e outros textos modernistas no exato local descrito pelos escritores que fizeram parte da Semana de Arte Moderna de 1922?

É o que propõe a guia turística Tereza Cristina Ferreira Batista, idealizadora do projeto São Paulo com Afeto que, neste mês, em parceria com o Pátio Metrô São Bento, promove o roteiro Em Busca dos Modernistas, todo sábado, a partir das 11h, de forma gratuita – devido ao sucesso, o tour ocorrerá também nos primeiros dois sábados de março (os ingressos podem ser reservados aqui). No passeio, que dura cerca de três horas, ela transporta os participantes para uma viagem às primeiras décadas do século passado apontando prédios, ruas, cafés, restaurantes e jornais, entre outras curiosidades, que fizeram parte do contexto modernista. 

“Acho muito importante fazê-lo, porque é estudar a história fora do ambiente acadêmico. É ver o moderno nas ruas de São Paulo, a literatura andando e observando tudo o que a cidade tem. É uma forma de valorização desse centro que a gente vê tantas vezes tão abandonado. E a partir do momento que a gente cria uma narrativa para aquilo que está ali, já que as pessoas passam batido devido aos compromissos, isso estabelece uma relação de afeto, uma memória muito boa”. Ela também promove o roteiro de forma personalizada, mediante contato pela sua página do Instagram (@saopaulocomafeto). Confira, a seguir, a entrevista completa à Agenda Tarsila:

Você faz um passeio em São Paulo que nos faz viajar há 100 anos, na época em que os modernistas viviam aqui. Como surgiu a ideia desse roteiro?

Esse passeio surgiu depois que li o livro Neve na Manhã de São Paulo, do José Roberto Walker. Foi um livro indicado em uma das viagens que estava fazendo de estudo do meio, conversando com professores de literatura. Estava preparando um outro roteiro que faço, em cafeterias, que fala bastante sobre a Belle Époque, as transformações trazidas pela expansão cafeeira, e uma professora falou: ‘tenho um livro para te indicar que fala bastante sobre as transformações de São Paulo’. Passou o nome, acabei esquecendo, mas aquilo ficou na minha cabeça. Quatro meses depois, um dia de madrugada, consegui lembrar e comprei o livro. Ele fala da virada do século, do 19 para o 20, e conta a história da garçonnière de Oswald de Andrade, que era um ponto de encontro de intelectuais e ali se desenvolveu um romance entre o Oswald e a Miss Cyclone, a Dayse (Maria de Lourdes Castro Pontes). Principalmente a história dela. Quando terminei o livro fiquei muito tocada e triste pela história terminar. Uma forma dela continuar e de contar sobre os dois foi fazer o roteiro, ir em todos os lugares onde passavam, se divertiam, está tudo ali. Com a história do diário que ficava na garçonnière, o Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo, e rememorar a Dayse. Ela precisa ser lembrada, foi uma história muito triste, um romance que terminou de maneira trágica, devido ao aborto que ela fez – é tão difícil falar disso, sem ser indelicada. Porque eu não estava lá, não sei como foi, como se deu, mas foi uma história bastante trágica. Por conta do aborto ela sofreu uma hemorragia e acabou morrendo com 19 anos e cheia de projetos. Ela foi muito ousada para a época e conversava de igual para igual com homens intelectuais dentro da garçonnière.

Ela era uma modernista sem saber…

Era bem modernista. E aí foi uma forma de rememorá-la, o Oswald também, e trazer esses outros modernistas por consequência. 

Além dos dois, quais são os outros modernistas que te ajudam a contar essa história e quais são os principais pontos que você aborda nesse passeio? Quanto tempo ele dura?

Ao longo das pesquisas que fui fazendo, cursos, outros livros, resolvi fazer o roteiro que passasse pelos lugares que eles estiveram. Cafés, jornais que trabalhavam, as escolas, ambientes acadêmicos, igrejas que frequentavam. É uma forma de trabalhar esses lugares como eram antes do crescimento de São Paulo, da grande transformação, que foi o início do século 20, e a biografia de cada um. Falo de uma boa parte deles, não vou falar que é de todos porque são muitos. Falo do Menotti del Picchia, Oswald de Andrade, Guilherme de Almeida, Pedro Rodrigues de Almeida, que também foi um dos frequentadores da garçonnière do Oswald e foi da ideia dele escrever o diário. Falo de Tarsila, Anita, Mário de Andrade, Lasar Segall, Brecheret. Tento buscar, tanto que o nome do roteiro é Em Busca dos Modernistas, os lugares que eles passaram ou façam referência a eles. A Tarsila foi uma das mais difíceis a fazer referência ali no centro, mas outros a gente tem. É um roteiro que trabalha com a parte biográfica, com os escritos literários que deixaram, as poesias, a prosa, algumas notícias, os ambientes que trabalharam como o Estado de S.Paulo, Correio Paulistano, a revista O Pirralho. Acho muito importante trazer um pouco do pensamento deles, porque a gente fala muito do que fez, traz imagens, mas você acaba dando voz. Mostrando um pequeno trecho, poema, incita a pessoa a pesquisar depois, ler os livros.  A pessoa pega Pauliceia Desvairada, pensa ‘não entendi muito bem’, mas ela faz esse passeio, vê ‘sei que tem a ver com esse ponto da cidade’. Vai lá, lê de novo, lembra. A gente vai criando memórias daquilo que já está lá. 

Você falou uma frase durante o passeio que me marcou, que ‘é impossível entender o modernismo sem conhecer São Paulo’. Queria que me explicasse isso.

Eles vão trabalhar muito na obra literária usando São Paulo como inspiração ou protagonista. E a população da época também. As transformações urbanas no começo do século 20, quando já estão adultos, envolvidos no ambiente acadêmico, literário e de trabalho. Então vão eternizar nestes livros esta cidade de pessoas e personagens que a gente conhece na nossa história, fazendo referências diretas e indiretas. Tem muita coisa que está em código, só para quem é bastante dedicado a este estudo dos livros. A mesma coisa também é você saber a biografia brevemente, porém saber de fatos que aconteceram na vida deles também vai transformar essa leitura, que não é fácil. Eles trazem uma linguagem do cotidiano paulistano e dessa transformação seja o linguajar imigrante, popular, a linguagem acadêmica dessa intelectualidade. Tudo isso vão colocar nas obras. A partir do momento que você conhece a história de São Paulo e um pouco da biografia deles, essa obra vai mudando de forma. 

Esses lugares de São Paulo são essenciais para que se entenda os livros também? É preciso que se percorra a cidade para que se entenda o contexto deles?

Isso. Tem um poema de Oswald, por exemplo, Postes da Light. Você vai passar em frente da Light and Power (Company), onde hoje é o Shopping Light, e vai ter a ideia do conflito urbano existente com a vinda dos bondes elétricos, os de tração animal, trafegando na cidade no mesmo período. Você visualiza o que estava acontecendo nessa cidade, essa modernização de São Paulo, que ele usa  para fazer aqueles versos. A própria Canção de Regresso à Pátria, que ele fala da Rua 15 de Novembro, onde era o grande centro financeiro da cidade, com as principais instituições bancárias, foi um espaço onde foi a redação de O Pirralho, do Oswald. Ali a gente tinha as principais cafeterias e restaurantes, frequentadas pela elite intelectual onde aconteciam as trocas de ideias, o que seriam os barzinhos para a gente hoje. Então é uma cidade efervescente de cultura nestes ambientes. Olhar para a Rua 15 de novembro, ler a Canção de Regresso, isso vai desenhando na sua mente que rua era aquela na época dele. É interessante também lembrar da grande transformação que vai acontecer na cidade. São Paulo foi fundada na região do Triângulo Histórico, que fica entre o Largo do Carmo, Largo São Francisco e o Largo São Bento. Entre dois rios, o Tamanduateí e o Anhangabaú. Por cerca de 300 anos a cidade permaneceu em isolamento geográfico. Vai ser com o café que virão as grandes transformações e investimentos como, por exemplo, a construção da estação e ferrovia da Luz, já temos uma expansão urbana acontecendo, a partir de 1867, que vai progredindo cada vez mais. A construção do Viaduto do Chá, na década de 1890, Santa Ifigênia, em 1910, vai crescendo essa malha urbana e eles vão vendo esse progresso acontecendo. No primeiro censo de São Paulo, de 1870, temos entre 25 a 30 mil habitantes. Em 1900, 240 mil. Em 1922 mais ainda. E muita gente vinda de outras cidades, estados e principalmente países. A população imigrante vai chegar aqui, a indústria vai fomentar a vinda de operários, tecnologia diferente, a arquitetura muda. Na década de 1920, quando o Mário escreve Pauliceia, a gente não tinha um edifício muito alto na cidade. Em 1924 que tem o Sampaio Moreira, com 14 andares. E de 1924 a 1934 a construção do Edifício Martinelli, com 30 andares. Até então era uma cidade plana e cheia de obras. A própria vinda do concreto armado, de materiais e técnicas vindas de fora, tudo isso transforma a cidade. A gente vê as imagens, os poemas, então tem um outro panorama dessa obra. 

E você, pelo jeito, é muito apaixonada pelos modernistas e por literatura também. O que te encanta nos modernistas?

É engraçado, parece uma conjuntura. Não sei se é uma coisa meio mítica, lendária, da época, e agora reforçado com o centenário. Mas parece que era uma conjunção de pessoas que vieram no momento certo, na hora certa, se encontraram, causaram, teve escândalo, tudo junto. Não que isso não aconteça em outras décadas, mas temos isso muito bem documentado na década de 1920, nos jornais, revistas, nas obras literárias. Estou falando e arrepiando (risos). Uma das questões chave do ser humano é a nossa mortalidade. E o nosso legado. O que a gente vai deixar para a posteridade? Vejo nesse período um legado muito grandioso, extenso e fértil. A gente consegue trabalhar com várias coisas. E ainda inspira, mesmo cem anos depois. As amizades, os relacionamentos, os romances, as decepções, foram eternizadas nessas obras literárias. Acho que essa é uma das chaves que a gente tem. Será que vou ser lembrada depois que for? Será que vou inspirar alguém? Eles deixaram um legado, as vidas eternizadas, de várias pessoas. O Mário, com as pesquisas folclóricas, e as gravações que ele fez, é grandioso. Ele foi para lugares do interior, conversou com pessoas que não seriam lembradas por uma história oficial. E graças a gravações que fez a gente sabe o que são, o que fizeram. O Oswald, nas obras dele, que ele vai deixando frases que várias pessoas disseram a ele, é demais. Eles deixaram um legado grandioso se a gente falar em existência humana. 

Vamos falar da cidade de São Paulo, que conhece tão bem. Como você a vê daqui 100 anos, no bicentenário da Semana de Arte Moderna?

Espero que uma cidade mais consciente da sua história, da vida humana. A gente ainda está devendo muito para quem já passou por aqui. Citar os nomes e suas experiências, porque tudo isso serve de exemplo e lição para a gente. Espero uma cidade mais consciente do patrimônio, mais cuidadosa e ainda com propostas inspiradas no que passou e até mesmo estudando esse legado. Toda essa festa que está tendo do centenário, neste contexto que estamos vivendo ainda de pandemia, das questões políticas, os conflitos, a gente se agarrando tão fortemente em uma celebração do centenário. É como se a gente estivesse dando continuidade ao que eles começaram em 1922. A gente ainda está deglutindo tudo o que eles deixaram. Imagino daqui a 100 anos festas, muitos estudos e nós como personagens também: ‘em 2022 estávamos em contexto difícil, mas o pessoal estava celebrando’. É uma luz da cultura, do estudo, da igualdade e da educação. E das várias narrativas históricas que a gente pode tirar da cidade. 

Você tem feito esse passeio todo sábado em fevereiro. Em março tem continuidade?

Tenho meu Instagram, que chama São Paulo com Afeto, já que a maior parte do meu trabalho atendo individualmente. Para fazer o Em Busca dos Modernistas, é só me mandar uma mensagem, a gente combina valor, uma data e a gente consegue fazer esse passeio. Acho muito importante fazê-lo, porque é estudar a história fora do ambiente acadêmico. É ver o moderno nas ruas de São Paulo, a literatura andando e observando tudo o que a cidade tem. É uma forma de valorização desse centro que a gente vê tantas vezes tão abandonado. E a partir do momento que a gente cria uma narrativa para aquilo que está ali, já que as pessoas passam batido devido aos compromissos, isso estabelece uma relação de afeto, uma memória muito boa. Toda vez que a pessoa passar por aquele lugar ela vai lembrar de alguma coisa, alguém que esteve ali ou aquele dia que viveu. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 23 de fevereiro de 2022

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