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São Paulo Companhia de Dança prepara espetáculos para comemorar o centenário da Semana de Arte Moderna

Movimentos corporais, jogo de luz, cenografia, música e figurino, tudo inspirado na arte modernista. Estes são os ‘ingredientes’ usados pela São Paulo Companhia de Dança para compor a programação que comemora o centenário da Semana de Arte Moderna de 1922. Em entrevista exclusiva à Agenda Tarsila, a diretora da Companhia, Inês Bogéa, detalha o que o público pode esperar nos palcos, principalmente do Theatro São Pedro, em São Paulo, e diz como o modernismo contribuiu, de diversas formas, para a dança contemporânea. 

“Hoje você tem uma pluralidade de coreografias, de criações, de companhias, de grupos, que estão também, de alguma forma, influenciados por este movimento moderno. As danças moderna e contemporânea estão sempre juntas no sentido de nutrir uma a outra, olhando para o tempo presente a partir das nossas emoções e sensações que o passado nos traz. A dança está presente na Semana de 1922, mas não só aí, com os movimentos todos que acontecem no mundo e o Brasil está conectado”, diz. 

As apresentações no Theatro São Pedro devem começar a partir do dia 26 maio e um dos homenageados é o pintor Di Cavalcanti, que dá nome a coreografia inédita de Miriam Druwe. Neste espetáculo, em especial, os bailarinos dançarão ao som do Choro nº 6, de Heitor Villa-Lobos,  e terão cenografia e figurinos de Fábio Namatame inspirados em obras do modernista. Confira, a seguir, a entrevista completa:

Vocês têm uma gama de espetáculos a serem apresentados este ano em razão da comemoração do centenário da Semana de Arte Moderna, a maioria no Theatro São Pedro. Fale um pouco desta programação e se existe a possibilidade de irem para outros pontos do Estado de São Paulo. 

Nós começamos agora em janeiro (dias 21 e 22) com uma pré-estreia em Santa Bárbara (d´Oeste) com uma obra chamada Desassossegos, do Henrique Rodovalho, que é uma obra que vai se inspirar livremente em um ballet do quarto centenário de São Paulo, que é A Cangaceira, e com os figurinos inspirados no modernista Flávio de Carvalho (1899-1973). Eles vão ser revisitados de maneira livre, só inspiracionais, pelo Fábio Namatame. Nessa obra o Henrique trouxe quatro mulheres e tem um título provocativo. Como a gente fica diante de um momento histórico que marca um tempo muito importante, como revemos e repensamos a arte brasileira? Como hoje, no século que estamos vivendo, olhamos para trás e trazemos para cá os impulsos modernistas? Neste sentido também ele trouxe a música que é do (David) Lang, que dá essa sensação de um movimento contínuo mas, ao mesmo tempo, trabalha com a individualidade dessas quatro mulheres. E como você disse, teremos a apresentação dessas obras no Theatro São Pedro, que já é uma programação toda voltada mais para a Semana de Arte Moderna, e que a obra do Henrique faz parte dessa programação, mas também teremos uma outra estreia, que é da Miriam Druwe que se inspira nas obras do Di Cavalcanti, que foram cedidas gentilmente pela Elisabeth Di Cavalcanti, filha do pintor, e nós vamos ter também figurinos e cenários com essa inspiração. Tem uma frase linda dele que a gente escolheu que diz: ‘criar é acima de tudo dar substância ideal ao que existe’. E as obras dele falam tanto do Brasil… Nós teremos a estreia da Miriam e a música é de Villa-Lobos, o Choro nº6, que é uma obra linda também, muito brasileira, e o compositor estava muito presente na Semana. A Miriam vai se inspirar nos temas que estão na obra, mas tudo é um olhar contemporâneo para os impulsos, influências desse movimento que aconteceu de uma maneira muito forte, que já decantava algo que vinha sendo gestado em tempos anteriores. A programação completa inclui alguns bate-papos comigo, com bailarinos, com artistas, com os músicos. Porque na temporada do Theatro São Pedro nós estaremos ao lado da orquestra deles com música ao vivo. Isso traz uma sensação mais forte da relação da dança com a música. A noite se completa com Infinitos Trançados, que é uma obra que tem direção cênica do William Pereiro, a direção musical do Ricardo Ballestero, minha direção na dança, e a música traz Villa-Lobos, Camargo Guarnieri, Alberto Ginastera, Miguel del Águila. Esta obra estreou ano passado, os coreógrafos estavam fora do Brasil, então nos encontramos via Zoom: Monica Proença, Jonathan dos Santos e Esdras Hernández Villar. A iluminação é de Caetano Vilela e é muito linda, a luz dança junto com os bailarinos. Uma noite que traz as sensações, as percepções deste corpo em movimento dialogando com nosso tempo, mas inspirado em outros tempos. No da Miriam, temos uma obra chamada Madrugada, do Antônio (Carlos) Gomes, e se inspira nas valsas de esquina do Francisco Mignone e vai ser tocada pela orquestra. Essas valsas têm uma dança à luz do luar, que traz essa ideia de homenagem, reverência, conexão de um com o outro. Tem um colorido pastel, nos leva para uma inspiração suave. Vai ser uma surpresa, estreia total, mas em breve a Miriam estará aqui conosco. Vamos ter uma parceria com a Sala São Paulo, a Orquestra deles, e lá nós teremos mais uma estreia que é do Juliano Nunes, um brasileiro que mora na Europa e está fazendo muito sucesso como jovem coreógrafo. Ele vai coreografar para Bachiana nº8, além da obra dele também apresentaremos da Miriam. É uma noite toda Villa-Lobos. 

Teve apresentação de dança na Semana de Arte Moderna, mas não foi uma coisa alongada, foi apenas uma apresentação. Como você vê a representatividade da dança na época, aqui em São Paulo, e como evoluiu ao longo destes anos. Como o modernismo impulsionou a dança?

Tem um pensamento moderno que já permeava esse momento em todas as artes e a dança não está fora disso. Mas temos a dança mais forte um pouco mais à frente, onde os grupos estão mais estruturados e a dança começa a ter maior movimento. E hoje você tem uma pluralidade de coreografias, de criações, de companhias, de grupos, que estão também, de alguma forma, influenciados por este movimento moderno. As danças moderna e contemporânea estão sempre juntas no sentido de nutrir uma a outra, olhando para o tempo presente a partir das nossas emoções e sensações que o passado nos traz. A dança está presente na Semana de 1922, mas não só aí, com os movimentos todos que acontecem no mundo e o Brasil está conectado. Essa Semana vem dizer de uma arte brasileira forte, potente, que olha para as nossas raízes, nossos movimentos, identidades, sempre no plural, porque o Brasil é composto por pessoas de muitas partes do mundo e os brasileiros têm essa diversidade, sensação, muito presente. A questão da antropofagia, de estarmos aqui percebendo nossas potências em diálogo com o mundo. 

E como você definiria a dança brasileira hoje?

Ela é múltipla, multifacetada, tem diversas influências e tem um acento próprio. Porque se você não reconhece imediatamente aqui dentro a nossa cultura, a gente vive imerso nela, mas quando a gente vai apresentar a nossa dança lá fora, ela é reconhecida pela energia, força, vibração, entrega, curiosidade, que é muito forte e nos conecta. Posso dizer, como diretora da São Paulo Companhia de Dança, que cada apresentação que a gente faz na Europa, Estados Unidos e Canadá, sempre temos críticas que comentam essa potência da dança brasileira que se conecta com o público de maneira muito direta por essa alegria de dançar, potência, vibração e energia que o brasileiro traz, mesmo quando falamos de temas difíceis, mas a gente entra profundamente neles, que nos conectam com o mundo. É uma dança que tem a sua identidade, mas é diversa e os caminhos e estéticas são escolhidas também pelos diversos artistas que compõem a nossa dança. 

Qual foi o principal legado que os modernistas deixaram para a arte brasileira?

Perceber a força da nossa cultura e como a gente fala dela através do dia a dia. E que a arte coloca em potência, como disse o nosso querido Di Cavalcanti, como a gente amplia as nossas sensações e dialoga com esse mundo presente. Esse ano, para a temporada da SPCD escolhi um tema inspirado em um poema do Drummond que se chama Cor do Arco-Íris. Vou ler para vocês, porque acho que diz muito: Para você ganhar belíssimo Ano Novo/cor do arco-íris, ou da cor da sua paz/Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido/Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome,/você, meu caro, tem de merecê-lo,/tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,mas tente, experimente, consciente./É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre. Acho que a Semana de Arte Moderna tem conexão com isso. Experimente, tente, invente esse Brasil que você acredita. Quem somos nós? São muitos olhares, influências, mas nós sabemos a nossa potência e é isso que a gente quer revelar. São de muitas cores as nossas potências. Acho que é uma inspiração linda para a gente dialogar com diversas questões tanto do momento que a gente vive, de uma pandemia, que a gente tem esperança e quer continuar se conectando com as pessoas, mas também perceber as nossas singularidades e diversidades. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Entrevista publicada dia 27/01/2022

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