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‘Se a Semana de Arte Moderna não servisse para mais nada, nem revisão dela iam querer fazer’, diz o escritor e professor Fred Coelho

A Semana de Arte Moderna ocorreu há cem anos. E demorou muito – ou pelo menos meio século – para que ela começasse a tomar forma nas discussões sobre a sua importância na cultura brasileira. De lá para cá, no entanto, ela ganhou diversas análises, teses, livros, revisões e críticas. Neste centenário, portanto, as ‘análises’ ganharam seu ápice. O professor da PUC Rio e escritor Fred Coelho, autor do livro A Semana sem Fim, lançado nos 90 anos do evento no Municipal, diz que toda repercussão é válida, mas deve ser feita de forma aprofundada. 

“Todas essas discussões, desconstruções são muito importantes com o tanto que você faz isso estudando e lendo as histórias, fontes, cartas, entendendo os textos da época. Porque falar dentro dos lugares-comuns, ausências, sem tentar entender os contextos da época, não faz sentido. Como diz hoje, não é ‘passar pano na Semana’, mas entender como se constituiu o evento e quais são as dinâmicas do período para poder olhar para trás e dizer se aquilo era ou não problemático.” Confira, a seguir, a entrevista completa:

Você tem algumas publicações que tratam sobre a Semana de Arte Moderna. Uma delas o título é ‘uma semana de 100 anos’. Por que, na sua visão, um evento que surgiu de forma despretensiosa já dura tanto tempo?

Esse título foi de uma fala minha em um seminário, que acabou virando uma publicação, mas na verdade é desdobramento de um livro que escrevi há 10 anos, quando o modernismo fez 90 anos, que se chamava A Semana Sem Fim, Celebrações e Memórias da Semana de Arte Moderna de 1922. A discussão é justamente mostrar como a permanência do evento, que a gente brinca que foi em três dias, pensar como está durando há tanto tempo, como se desdobra. E a pesquisa que fiz mostra que isso é uma longa construção envolvendo uma série de agentes distintos, tanto os envolvidos, com textos autobiográficos, conferências, com escritas dizendo sobre a importância da Semana. O principal conhecido é a conferência de Mário de Andrade em 1942, quando ele faz um balanço dos 20 anos de modernismo. Mas também tem os artigos de jornais ao longo do tempo, pesquisa que mostra como a Semana demorou algumas décadas para realmente se tornar uma efeméride de comemoração. Isso só se configura finalmente em 1972, no período da ditadura militar, mas ao mesmo tempo quando a memória do modernismo já vinha sendo construída não só mais pelos próprios participantes como também por professores universitários, acadêmicos, livros voltados para história da literatura brasileira, textos especificamente sobre a literatura modernista. Isso, aos poucos, vai se construindo. Nos anos 1960 a gente tem a participação de uma entrada de alguns nomes ligados ao modernismo na cultura de massa, na música tropicalista, de peças de teatro como O Rei da Vela, encenado pelo Oficina, filmagens em cima de obras como Macunaíma, o filme de Joaquim Pedro de Andrade. Minha pesquisa sobre modernismo passa um pouco sobre isso, de entender como a permanência da arte moderna é uma construção historiográfica, de narrativa sobre esse duplo sentido. Porque a Semana de Arte Moderna não é necessariamente modernismo, mas nós colamos ela no termo hoje em dia, então estamos comemorando 100 anos do evento e junto dela uma espécie de 100 anos do movimento. É mais ou menos isso que trabalho nos meus textos e livros. 

E para você, naquela ocasião, os artistas já eram modernistas?

Essa é uma discussão interessante: eles podiam até se achar modernistas, mas eles mesmos, alguns deles, se intitulavam futuristas. A forma como essa geração de São Paulo é recebida pela crítica da época, tanto a favor como contra, tanto que Oswald de Andrade escreve um artigo no jornal em homenagem a Mário de Andrade chamado Meu Poeta Futurista. É o Mário que recusa esse termo de ‘futurismo paulista’ para poder afirmar a ideia de modernista. Do ponto de vista do pensamento, do espírito, organização, eles já podiam se achar modernistas, mas isso também é uma outra construção que vai sendo feita nos primeiros anos para desvincular da ideia de futuristas. A Semana é de arte moderna, não é a primeira semana de modernismo brasileiro. É legal esse jogo, porque é um radical de muitos desdobramentos, modernidade, moderno, modernismo, que são três coisas diferentes, mas que na Semana tudo isso se confunde no Brasil. 

Você falou dessa questão da Semana ter demorado para ser reconhecida como um movimento importante na cultura brasileira. Foi um espaço de meio século. Por que ocorreu isso?

É sempre legal a gente lembrar que a Semana foi o evento. O que ocorre depois a gente pode chamar de movimento, que já estava ocorrendo antes dela. O movimento modernista enquanto a inserção de novos autores, novas formas de encarar a literatura, a escrita, a língua, com pensamentos sobre arte no Brasil, ela cria qualquer campo de ação cultural adesões e recusas. A situação pós-22, os críticos em geral chamam a década de 1920 como heróica. As revistas são publicadas, o modernismo acaba se espalhando pelo Brasil em diferentes movimentações em cada capital, então temos revistas em Belo Horizonte, em Cataguazes, no Rio de Janeiro, na Bahia, e isso vai gerando uma massa crítica que, ao mesmo tempo que alguns vão se identificando com os paulistas, ou os que estavam em São Paulo promoviam no campo de ação cultural, outros já estavam vindo como uma segunda geração, principalmente escritores ligados ao que pejorativamente, na minha opinião, foi chamado de literatura regionalista, que estão vindo das cidades do nordeste. Esses escritores começam a querer demarcar uma diferença, uma distância em relação ao que estava sendo feito pela geração ligada ao modernismo e a Semana. Essa resistência vai empurrando o evento e o modernismo para um lugar menor do que essas novas gerações achavam que deveriam ser as suas obras em relação a eles. Estou falando aqui de Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego, escritores que ao mesmo tempo que alguns deles tinham identificação com algumas coisas feitas a partir da Semana, muitos não queriam nenhuma relação com isso. O festival, nos seus primeiros anos posteriores, não é valorizado como um evento de transformação. Essa construção demora, se dá muito pelas resistências em relação ao que eles faziam. Só que as obras dos modernistas, principalmente do Mário e Oswald, vão se fazendo de extrema qualidade independente do evento no Municipal. O próprio Mário fala isso: ‘se a Semana não tivesse acontecido minha obra teria sido igual’. A obra da Tarsila, de outros nomes ligados a essa geração, vão ganhando uma força tamanha que é inegável a importância desses nomes. E aí a necessidade da manutenção das obras deles vai fazendo com que o evento seja visto de uma forma positiva para alguns olhares no Brasil, mas para outros ela nunca vai importar. Tem até uma anedota que é verdade: em 1952, nos 30 anos da Semana, um jornal do Rio vai entrevistar o Manuel Bandeira perguntando o que ele achava da data e ele responde que estava de saco cheio desse papo de Semana de Arte Moderna, que só era para procurá-lo quando a Semana fizesse 100 anos. Mas, infelizmente, ele não está aqui entre nós para dar a opinião dele. Era uma espécie de certo tipo de recusa de assumir que aquele evento seria importante. Isso tem a ver a questão de como se conta uma história: a partir do momento que o movimento, que as obras deles vão ganhando importância, dentro de um movimento sobre literatura no país, a Semana, o evento, ganha importância também como uma espécie de marco, ou até mesmo de gênese, de início, do que seria o movimento. Porque é sempre bom você contar uma história com começo e a Semana casa com essa perspectiva. Ali é o princípio do corte com o passado. Então ela, na minha visão, vai ganhando importância conforme as obras dos modernistas também vão se mostrando de permanência, de maturidade. 

E o evento no Municipal teve diversas vertentes artísticas. Na sua opinião, qual foi o carro chefe ali?

O nome da Semana, na época, era Semana de Literatura e Arte. Hoje em dia, nessas críticas que tentam desconstruir o evento, comentam muito que não tinham algumas artes já importantes naquele momento. Mas elas têm de ser levadas em um lugar de pensar melhor. Dizer: ‘como não tinha cinema?’. Até falei em um seminário, recentemente, como vai botar um projetor no Theatro Municipal? Fico brincando que ninguém pensa nos produtores da Semana, em quem estava montando o evento. Não era simples. Óbvio que é estranho não ter algum tipo de música popular, urbana, feita por outros personagens, mas o carro chefe, sem dúvida, foi a literatura. As leituras, principalmente de poemas, era o que eles esperavam na época que causasse um certo impacto. A gente tem de lembrar que esse grupo que fez o evento era muito articulado na imprensa da época em São Paulo e sabia se promover de uma forma bem sagaz. Óbvio que a Guiomar Novaes, a pianista, era um grande nome na época. Mas alguém relaciona o legado da Semana à presença de Guiomar? Não. O Graça Aranha era um grande nome, mas os próprios modernistas não queriam que a Semana ficasse vinculada a ele no comecinho. Tiveram de brigar para tirar da crítica a vinculação direta a ele. O maior momento, que causou até hoje o que vemos em livros, são as leituras de poema, como Os Sapos, de Manoel Bandeira, lido por Ronald de Carvalho, e a leitura de trechos de Pauliceia Desvairada de Mário de Andrade, que são momentos de ‘escândalo’ que o público reage com vaias. Isso que ficou na memória das pessoas e mais é ressaltado quando se fala do evento. 

E a gente chegou aos 100 anos. Como vê a repercussão dessa efeméride, que rendeu tantas discussões, em diversas vertentes?

Para quem trabalha com esse tema, já em 2018 estava vendo as movimentações acadêmicas de publicações, seminários, preparando para esse momento. Lá atrás já pensei que ia ser intenso. Está sendo impressionante a quantidade de eventos, de publicações, sobre o centenário. Acho que a data está sendo comemorada e pensada em uma perspectiva muito específica do país, seja ela no campo político macro, seja ela nas novas formas de pensar política  a partir do corte de gênero, etnia, cortes ligados a assuntos não mais de uma ideia de Brasil completamente unívoca nacional, mas em outras ideias de Brasil. Isso faz com que o arquivo da Semana de Arte Moderna e do modernismo esteja em cheque, lido de outras formas. Por exemplo, quando se questiona a ausência de pessoas negras na Semana, de discussões sobre as mulheres, apesar de termos mulheres participando do evento e Mário de Andrade ser um homem de pele escura. O que estou lendo da comemoração, por um lado a afirmação desse cânone enquanto realmente um momento de formação e invenção de uma ideia de Brasil, até hoje em discussão e não necessariamente estava na Semana, mas ela fica vinculada a isso, e por outro uma tentativa de pensar o país atual a partir desse momento histórico. Pensar pela ausência, por aquilo que ele não fez, o que é produtivo por um lado, mas às vezes fica em um lugar complicado porque a gente não pode esperar que a história, há cem anos, resolva os problemas do contemporâneo. Já existiam os problemas daquele tempo. Por exemplo, uma coisa que vem à tona é a forte presença do capital da elite paulistana na Semana. Brinco também: ‘gente, não tinha edital naquela época, né? Para os caras correrem e montarem a exposição’ (risos)  Era como se fazia a sociabilidade do dinheiro, das relações pessoais, de uma elite que muitos dos modernistas eram parte dela, mas muitos não eram. Mário de Andrade não tinha dinheiro, era um professor de piano. Já Oswald era rico, o pai dele era dono de quase toda Cerqueira César. Você tem essa disparidade que na leitura contemporânea é óbvio que muitas dessas situações, do corte político que se vê hoje, ficam em debate, em revisão, mas isso só mostra a força da Semana. Se ela não servisse para mais nada, nem fazer a revisão dela iam querer. Se as pessoas ainda querem debatê-la, mesmo que seja para criticar… Outra discussão muito importante hoje em dia: a Semana é paulista cêntrica. É óbvio, a Semana ocorreu no Theatro Municipal de São Paulo. Foi produzida por pessoas da cidade. Tem o debate que ‘já existia o modernismo em outras cidades’. Sim, mas a gente só identifica aquilo que acontece, só pode pensar no Rio do início do século 20 e dizer que tinha isso ou aquilo, porque a gente tinha esse espelho para olhar. Porque se não tivesse ninguém ia fazer questão de dizer que aqui era mais moderno que São Paulo ou não. Acho que essa discussão está neste lugar e isso mostra a força do centenário, a força da Semana ainda no imaginário público tanto de estudiosos quanto do senso comum. A Semana de Arte Moderna marcou para uma geração esse tipo de olhar, um método de trabalho que é o coletivo de intelectuais atuarem juntos para promoção de seus trabalhos a partir de um evento. Isso tudo marcou a produção de manifestos, de revistas, o modus operandi que se nacionaliza ou cria um diálogo nacional. Todas essas discussões, desconstruções são muito importantes com o tanto que você faz isso estudando e lendo as histórias, fontes, cartas, entendendo os textos da época. Porque falar dentro dos lugares-comuns, ausências, sem tentar entender os contextos da época, não faz sentido. Como diz hoje, não é ‘passar pano na Semana’, mas entender como se constituiu o evento e quais são as dinâmicas do período para poder olhar para trás e dizer se aquilo era ou não problemático. Teve uma polêmica recente, que acho totalmente vazia, do Ruy Castro ter tentado via programas, coluna na Folha, dizer que o Rio de Janeiro já era a capital do modernismo. Isso não leva a nada. É óbvio que vários centros urbanos brasileiros já tinham produções, pensamentos, personagens que já eram modernos, até mais revolucionários do que aconteceu em São Paulo. Porém, a configuração de um evento, de um coletivo de artistas atuando em conjunto, isso só ocorreu em São Paulo. 

E você acha que ela tem fôlego para mais 100 anos?

Será que a gente tem fôlego para mais 100 anos? Essa é a pergunta (risos). A gente que digo a humanidade em geral. Acho complicado pensar isso porque daqui a 10 anos não vamos estar falando da Semana. O centenário numa economia cultural tão intensa como a nossa mobiliza mercado editorial, editais, exposições, uma série de situações de uma efeméride que a gente não poderia perder. Daqui a 10, 20 anos, imaginando um cenário social, político e econômico brasileiro, é difícil dizer que lugar vai estar a Semana. Daqui a 100 anos seriam 200 anos… A gente está no bicentenário da Independência, você está vendo alguma coisa comparada ao que está sendo feito da Semana? E olha que é a independência do país…

Vai ser lançado em breve…

Sei que o governo de São Paulo está fazendo uma série de ações, porque vocês têm o Museu do Ipiranga. Mas é muito baixa a adesão das pessoas, como foi a Semana de Arte Moderna. É uma pergunta difícil de responder. Vou fazer igual ao Manuel Bandeira: quando chegar lá você me pergunta (risos). 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 11 de abril de 2022

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