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‘Se a Semana não fosse importante, 100 anos depois não estaríamos falando dela’, analisa a poetisa e editora Dalila Teles Veras

Não houve sequer uma mulher escritora na Semana de Arte Moderna. Poucas representantes nas artes plásticas e outras na música e dança. Dá para contar nos dedos. Durante muito tempo elas tiveram de lutar pelo seu espaço no gênero artístico, como conta a poetisa e editora Dalila Teles Veras, que acaba de integrar a lista da Revista Germina como uma das 122 artistas que estão em diálogo com 1922. Com o poema Marioswald (leia aqui), ela faz uma homenagem àqueles que integraram o movimento que para ela funcionou como forma de um ‘grito’. ‘Se a Semana não fosse importante, 100 anos depois não estaríamos falando dela.’

Dalila, que há 30 anos está à frente da Alpharrabio Livraria, Editora e Espaço Cultural, em Santo André – e já publicou 23 títulos – exalta a conquista do espaço feminino nas artes, inclusive na literatura, realizado a duras penas, e exalta o papel que Patrícia Galvão, a Pagu, teve neste movimento.  “A Pagu, para mim, foi a que mais deu a cara a tapa, mais recebeu ofensas, foi presa dezenas de vezes, porque se engajou no programa do Partido Comunista que havia sido fundado exatamente na época da Semana de 1922. Ou seja, muitas coisas aconteceram ali que vieram para transformar a sociedade brasileira da época.” Há pouco ela participou de uma roda de conversa com este tema na Universidade Municipal de São Caetano do Sul. Confira, a seguir, a entrevista completa. 

Um poema seu acaba de ser publicado pela Revista Germina, de Literatura, como uma dos 122 artistas que estão em diálogo com 1922. Queria que me falasse sobre o poema que compôs intitulado Marioswald.

Este ano que é o centenário da famosa Semana de Arte Moderna esse assunto foi incontornável. Inclusive já participei de duas ou três mesas sobre esse assunto, principalmente no campo da mulher escritora. Fiquei bastante feliz em participar desse panorama da atual literatura brasileira nesse grupo de 122 poetas que tiveram curadoria de um homem e uma mulher. Acredito que de forma bastante abrangente misturando correntes de linguagem – nós não temos mais escolas literárias, temos vozes diferentes – e acho que é um panorama bastante amplo para se ter uma ideia da poesia que se faz hoje. E muitos desses poemas evocam 22, mas com uma linguagem de hoje. Por exemplo, nesse que você citou, o Marioswald, é um poema que homenageia de alguma maneira os dois Andrades. Já na época alguém alcunhou, acredito que o próprio Oswald, ‘Marioswald’, porque em um primeiro momento eles foram quase um. Depois vieram as desavenças, se separaram, mas foram dois grandes nomes da Semana, importantes como referência. 

Que influência estes escritores que participaram da Semana e vieram depois dela tiveram na sua formação literária?

Confesso que tive contato com o modernismo fora da escola, ou seja, tinha vinte e poucos anos quando alguém, em uma entrevista, me disse: ‘Dalila, você fala alguma coisa sobre modernismo’. E eu: ‘puxa, não sei praticamente nada, a não ser alguma coisa de autores’. Desde então passei a me interessar demais pelo modernismo brasileiro como curiosa e estudiosa independente, porque não sou acadêmica. Apesar de ter recebido recentemente o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal do ABC, não me considero acadêmica. Recebi isso em reconhecimento a um trabalho de 40 anos ligado à cultura e a literatura. E realmente fiquei muito curiosa em saber qual foi o papel daquela Semana que acabou não sendo exatamente 7 dias, mas 3, com conferências, apresentações, tudo muito polêmico. Na verdade, hoje penso um pouquinho diferente do que há alguns anos atrás: eu reputava a Semana como algo grandioso, divisor de águas. Não acredito que seja bem assim. Mas ela teve um papel que chamaria de despertar quem estava um pouco sossegado em seu cantinho fazendo poemas parnasianos, copiando o que os outros 100 anos antes já fizeram. Mário nunca saiu do Brasil, mas estava antenado com as coisas que aconteciam lá fora, e Oswald já tinha saído, encontrado os futuristas como o Marinetti na Itália, e veio com ideias renovadoras, mas com as propostas de olharmos para nós mesmos, para o Brasil. E as premissas básicas da Semana foram de uma parte um nacionalismo exacerbado que acabou ficando com os dissidentes verde-e-amarelos – já naquela época tomaram conta da bandeira – e os que continuavam fiéis às premissas de uma verdadeira renovação na literatura e nas artes. Na verdade, durante a Semana, muitas dessas pessoas se tornaram notáveis posteriormente – e não foram tantos assim-, eles não haviam publicado nada propriamente modernista. Por exemplo, Pauliceia Desvairada foi publicada depois da Semana. A revista Klaxon também. Eles, animados nos salões que se realizavam em São Paulo, principalmente, na Villa Kyrial, os ricaços convidaram os que não eram tão ricos, para jantares, conversas, e tiveram o apoio de alguns fazendeiros de café que na época eram os donos do dinheiro em São Paulo. Depois perderam tudo em 1929. E ela precisava de patrocínio, porque o Municipal foi alugado, não cederiam o espaço para um bando de ‘malucos desconhecidos’, alguns de 20 anos. Precisava de dinheiro para bancar isso e o Paulo Prado, mais alguns fazendeiros da época, resolveram bancar. Felizmente era uma época – acredito que não exista mais isso – eles tinham bom gosto, gostavam de arte, convidavam artistas para os salões e ali acabava nascendo coisas entre eles, projetos. A ideia é controversa de quem saiu, uns dizem que foi do Menotti, outros do Paulo Prado. Você está conversando, as ideias surgem, e ninguém se preocupa de quem foi. Grandes expoentes do modernismo como Manuel Bandeira sequer vieram para São Paulo. Sequer tinha patrocínio, a locomoção era difícil, mas ele teve o poema Os Sapos declamado por Ronald de Carvalho que foi um escândalo, ninguém conseguiu ouvir, e muito menos os do Mário e do Oswald que foram declamados no saguão do theatro. Acredito que se a Semana não fosse importante, 100 anos depois não estaríamos falando dela. Me lembro muito bem do cinquentenário, participei de algumas coisas, eu tinha 20 e poucos anos, e todas as décadas após foram lembradas pelos intelectuais e instituições culturais. As polêmicas continuam, não existe unanimidade em relação à Semana. O que existe são documentos hoje que fazem com que a gente olhe melhor o acontecimento, mas estou convencida de que foi um arauto, um grito, como disse Oswald, ‘estamos 50 anos atrasados na cultura’. Era uma província, tinha 50 mil habitantes, era uma cidade do interior, menor do que aqui em Santo André, minha cidade. Não havia as comunicações rápidas de hoje. Depois chegou a Minas, Rio de Janeiro, mas a maioria não veio, e isso foi se espalhando. Hoje sabemos que várias capitais do Brasil,  cidades como Cataguazes, em Minas, teve o Grupo Verde, que fez um trabalho magnífico. Eram iniciantes, foram interlocutores do Mário, e hoje há estudos acadêmicos, muita gente que projetou aquela cidade graças ao moderno. Ainda assim, alguns continuam acusando que foi um evento meramente paulistano, mas não é verdade. O evento teve repercussão sim porque essas pessoas continuaram atuando, em um primeiro momento após a Semana e depois pelo Antropofágico redigido por Oswald em 1928. Paralelo a isso, porque ele foi publicado na Revista de Antropofagia, de alguma maneira uma publicação com alguns resquícios conservadores, erros apontados hoje por estudiosos, mas foi um lança chamas futurista, sem dúvida nenhuma. E é quando entra em cena a Tarsila do Amaral, que ela começa a publicar seus desenhos como Abaporu. Entra também a Pagu, já como ilustradora, quadrinista e como uma presença forte fora e dentro da revista. Acredito que até hoje somos marcados por isso, não diretamente, mas todos nós trazemos alguma coisa que nos interessou de cada uma dessas premissas. Deve-se a Semana o verso livro que praticamente todos os poetas adotaram dentro de sua própria linguagem. Hoje nós temos vozes, não temos mais um cânone que diga: ‘isso é o que se faz de melhor no país’. Não. Temos grandes poetas que escrevem de forma completamente diferente do outro, buscando uma voz que seja diferenciada dentro desse coro dissonante de tantas vozes no Brasil e principalmente as mulheres. Gostaria de ressaltar aqui que eram invisíveis naquela Semana.

Você participou de uma palestra que tratou sobre a participação das mulheres na Semana de 1922. Não houve sequer uma escritora. Queria que analisasse isso. Qual era o momento da mulher na literatura ali?

Não era só naquele momento como isso perdurou até agora, nos nossos dias. Reputo que até uns 20 anos essa situação da invisibilidade da mulher perdurou. Em 1922 as mulheres sequer votavam. Quando adquiriram o direito nos anos 1940 tinham de ter autorização do marido para votar. Os direitos feministas estavam distantes de serem realizados, mas havia pessoas como a Pagu que era uma feminista institiva. Logo depois vieram outras como a Adalgisa Nery (poetisa e jornalista), que os pesquisadores estão trazendo à tona. E não só na Semana. Antes tivemos a Gilka Machado, que foi uma poeta que optou por versos, poemas, de cunho exaltado no quesito do corpo da mulher, do erotismo principalmente, e que foi desconhecida. Na época tinha livros publicados, já tinha certa idade, mas viveu bastante tempo. Hoje tem sua obra toda resgatada. Essas mulheres não faziam parte desse pequeno grupo prioritariamente masculino. Muitas figuras importantes apareceram do movimento, mas não foram aqueles que propuseram as premissas do modernismo, que ficou acabando restrito a dois ou três nomes, o que não é verdade. Teve muita gente, houve muitas vaidades, muitas dissidências. A meu ver a grande lança futurista modernista foi a Anita Malfatti, que desde 1914 pintava, fez curso nos Estados Unidos, participou de uma exposição em 1917 e recebeu uma crítica devastadora de Monteiro Lobato. Isso marcou ela para o resto da vida. Alguns desses quadros que ela levou para a Semana, poucos dessa exposição de 1917 estavam. Ela já começava a retornar a uma pintura mais comportada, perto da academia, porque era uma mulher, acredito, de personalidade frágil, talvez pelo fato – isso é terrível dizer – mas tinha um defeito físico de nascença e procurava esconder nas fotos. Já tinha essa insegurança e com essa crítica de um nome que à época era quem dava as cartas aqui em São Paulo ela simplesmente recuou. Faz novas viagens, alguns quadros na linha do Homem Amarelo, e espantosamente, quem já viu uma retrospectiva dela, volta ao começo. É uma pena, porque era uma mulher de um talento muito grande. Além dela, uma outra pintora de quem jamais vi depois disso alguma referência foi Zina Aita. Guiomar Novaes na música, que não inovou nada, apesar de tocar Villa-Lobos, que foi muito criticado na época. E uma flautista e uma pianista que acompanhou trios e quartetos que apresentaram músicas africanas. Nada de protagonismo dessas mulheres. Quem ficou para história foi Anita mesmo regredindo na sua proposta. Elas vieram no protagonismo muito lentamente. A Pagu, para mim, foi a que mais deu a cara a tapa, mas recebeu ofensas, foi presa dezenas de vezes, porque se engajou no programa do Partido Comunista que havia sido fundado exatamente na época da Semana de 1922. Ou seja, muitas coisas aconteceram ali que vieram para transformar a sociedade brasileira da época. Ela se filia ao partido, convence Oswald de Andrade, que se casou com ela dois anos depois de  conhecê-la a se filiar também, funda o jornal O Homem do Povo, e inaugura uma coluna chamada Mulher do Povo, devastadora. Além de provocadora, era uma mulher que não aceitava o papel que davam às suas contemporâneas. Inclusive em relação à maternidade, ela deixou um filho com três meses aos cuidados do pai, Oswald, que amparou a criança, e fez uma viagem de dois anos pela Europa onde foi correspondente de jornais no Rio-São Paulo. Sempre a serviço do partido, só que foi uma decepção para ela. Pagu vai a Moscou e percebe que a propaganda do partido era um pouco talvez enganosa, ela não usa essa palavra nos seus escritos, mas quer dizer isso. Ela fez um diário sobre esse período que a gente compreende sobre uma mulher que tem anseios, talentos, e a maternidade é um dilema. Pai deixa filho com a mãe até hoje sem problema algum. Mas o contrário não é verdadeiro, é um dilema para toda mulher. O machismo continua de uma maneira violenta ainda hoje, o feminicídio é uma coisa assustadora no Brasil. O quanto de mulheres são violentadas, assediadas e quantas mortas pelo simples fato de serem mulheres. A Patrícia sofreu muito. Quem deu esse apelido a Pagu foi Raul Bopp, que fez um poema com esse nome. Ela usou por dez anos, enquanto era militante. Quando se casou com Geraldo Galvão passou a usar o Galvão. Nesse meio-tempo todo usou dezenas de pseudônimos, engraçadíssimos. É autora de poemas que considero bem interessantes para época e autora de um livro que é considerado o primeiro romance operário do Brasil que é Parque Industrial, em que usa a experiência dela junto a operárias de uma fábrica na Mooca obrigada pelo partido. Eles ainda tinham desconfiança dela, era o tempo da coisa justa, tinha de ser autêntico, e ela era uma burguesa, foi castigada por isso e obrigada a se proletarizar. E lá foi ela trabalhar numa fábrica e das anotações faz esse romance quando ela já estava em guerra com o partido, que obriga ela a se separar de Oswald, que também era suspeito por ser burguês. E o comunismo passou por ele como tantas outras coisas, que era um homem irrequieto. 

Passados 100 anos, você acha que a mulher ocupa o lugar que merece na cultura brasileira?

Continua não usando (seu devido espaço). Estou muito triste, ando adoecida de Brasil. Estou me referindo ao meu papel de cidadã neste momento em um país em direção nenhuma. Estamos 50 anos atrasados, no mínimo, que era aquilo que o atual presidente disse em campanha, ‘que queria que o Brasil voltasse a ser o que era há cinquenta anos’. E de fato, acho que em três anos e meio conseguimos voltar ao que éramos meio século, para um pensamento romântico estapafúrdio de alguns. Quando vejo uma mulher minha contemporânea apoiando propostas e programas atuais do governo federal, fico horrorizada, tenho vontade de gritar, de sumir, de chorar e fico triste, doente de verdade. Realmente estou à custa de ajuda médica, terapia, porque sou um ser político. Me informo, gosto de participar da vida pública, na minha cidade, há anos exerço o papel de ativista cultural e quando percebo que há mulheres que aprovam propostas de uma ministra que tivemos para mulher (Damaris Regina Alves, que saiu em março deste ano do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, hoje ocupado por Cristiane Britto), que é uma verdadeira aberração, uma mulher que é contra direitos fundamentais das mulheres conquistados a duras penas. Essa coisa cruel que você acaba de assumir e veio para afirmar que menino veste azul e menina rosa… Ou seja, um país que em pleno século  21 preconiza esse tipo de coisa, ignorante, passadista, inaceitável. Como há mulheres que ainda apoiam alguém que fez um programa desse? Como há gente neste país que vai apoiar certamente essa PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que quer que as universidades públicas cobrem mensalidade. As universidades públicas foram a grande conquista do Brasil. Se hoje vemos negros, principalmente mulheres de todas as cores, de raças e etnias, nas faculdades, inclusive como professoras, é justametne a esses programas sociais que instituiram cotas. Lutamos por mais de 40 anos aqui no Grande ABC para a instalação de uma Universidade Federal, uma região com 2,5 milhões de habitantes, só agora, há 15 anos, que foi instalada e veio com essa característica, de ser aberta para o público. Tenho muito orgulho de ter recebido essa honraria (Honoris Causa) dessa universidade que faz troca de saberes entre o academicismo e o que vem de fora. Ela não perde esse contato dentro de uma redoma ou torre qualquer. Ela abriu através dos programas de extensão, universitário e cultura, abriu-se para comunidade. E querer acabar com isso é transformar a educação em uma mera mercadoria como já são algumas instituições particulares de ensino. Essas pessoas são lobistas na Câmara, em todos os lugares onde há poder de mando e decisão e querem só para eles o ensino do país.

Acredita que hoje fazemos uma arte essencialmente brasileira, como eles pregaram?
Não acredito numa coisa só brasileira. Temos uma tradição, inclusive de formação de nação, que é multi, plural e recebe influências do mundo inteiro. Como não vamos ter influência da colônia italiana que é uma das maiores no país? Dos portugueses que deixaram no norte e nordeste a sua marca que até hoje é bem visível? São Paulo, principalmente, que acolheu diversas etnias, países, imigrantes, que trouxeram também suas culturas para cá, se miscigenaram à nossa cultura indígena. O que é verdadeiramente brasileiro? Não gosto dessas ideias nacionalistas exacerbadas porque sempre foram pontuadas por governos de exceção. Quando começa a se falar excessivamente em nacionalismo algo está em perigo. Porque se você tem uma nação realmente soberana não precisa reafirmar o que é brasileiro ou não e é muito bem-vindo essa mistura e nós somos resultado disso. Estou falando como uma brasileira que adquiriu seus direitos políticos, mas que nasceu em Portugal. Estou aqui desde os 11 anos de idade e me considero brasileira, tristemente brasileira neste momento. Não há como não ser. Somos universais. Temos hoje um conjunto de artistas e escritores que estão par a par com a arte que se faz no mundo. É só ir em certos centros culturais, como Inhotim (Minas Gerais) por exemplo, que traz essas experiências novas e ousadas de países do norte da Europa e estão aqui no Brasil completamente compreendidos, dialogando com outros artistas brasileiros, Cildo Meireles e outros contemporâneos. Na literatura a mesma coisa, temos fenômenos recentes de homens e mulheres traduzidos no exterior, como o Itamar Vieira Júnior, um fenômeno da literatura brasileira. Há três anos, olha que curioso, estava no Funchal (Portugal) na feira de livro, lançando um título meu e ele o dele, premiado pela Leya, e ainda não era lançado no Brasil. Ou seja, há três anos ele era um ilustre desconhecido. Mas era conhecido entre seus pares, já me correspondia com ele, uma pessoa que não mudou nada pelo sucesso e está sendo traduzido em línguas inimagináveis. Assim como inúmeras escritoras brasileiras, a Micheliny Verunschk, que acabou de publicar O Som do Rugido da Onça, pela Companhia das Letras, também cogitado para ser traduzido para o exterior, virar peça. O do Itamar (Torto Arado) vai virar filme. Parece que ignoramos isso. A Maria Valéria Rezende, que foi descoberta tardiamente, ela é de Santos, assim como a Pagu, extraordinária, que publicou Carta à Rainha Louca, um romance experimental, com uma linguagem do século 19. Temos hoje uma literatura de mulheres, por exemplo, que começaram a ter seu lugar nas mesas de debate das grandes feiras de literatura, das mesas acadêmicas, isso era muito raro até 20 anos atrás. Agora estão ganhando pela primeira vez o Jabuti. Este ano teve cinco mulheres na categoria de poesia como finalistas de obras publicadas ano passado. Isso era impensável há alguns anos. Todas elas já com muitos livros publicados, mas o grande público parece desconhecer. Principalmente se tratando de um gênero que é considerado ‘a prima pobre’ da literatura que é a poesia. Nós não temos tradição de lermos poemas, só musicados porque a música ainda é uma tradição muito forte no país. Consomem poesia de Caetano Veloso, de Chico Buarque e tantos outros. Sem imaginar que estão consumindo poesias. Há grandes poetas hoje no Brasil sendo convidadas por leituras lá fora, mulheres participando de feiras internacionais, em universidade, na Espanha, em Portugal. Essa troca está se dando tanto no meio oficial que são as universidades tanto no meio entre os próprios artistas. A gente forma uma corrente que parece que é invisível, sempre formam como se fosse uma antena que as pessoas se ligam no que está acontecendo no Afeganistão, China, Estados Unidos, por afinidades eletivas. Essa pandemia, por exemplo, o que está saindo da literatura sobre o período é uma avalanche. Eu mesma organizei uma coletânea ano passado pela minha editora, Alpharrabio, que reúne várias linguagens. Todos trabalhos feitos durante o isolamento. O meu último livro (Fuga e Urgências) tem um capítulo inteiro com 25 poemas todos elaborados durante a pandemia. Amanhã veremos se isso é literatura de circunstância ou se ela ficou. Muito dessa arte produzida nesse período ficará. Se for de um bom escritor ficará, ou outros vão se perder como mero panfleto ou desejo de dizer o que está sentindo. Estou curiosa para saber o que a geração de meus netos vai descobrir sobre o que aconteceu neste momento onde alguns não perceberam nada e outros estavam tão atentos que sufocaram e precisaram transformar isso em alguma expressão artística de alguma maneira.

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 30 de maio de 2022

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