Claudio Nadalin/Divulgação

‘Se você me perguntar quem são meus mestres, eu diria que são os modernistas’, diz o escritor e crítico literário Silviano Santiago

No rol de grandes nomes da literatura brasileira, os modernistas, principalmente os da primeira geração, protagonizam um momento de ruptura da estética vigente até então. Inovaram na construção de versos, em textos ousados, em manifestos que se fizeram valer nas gerações seguintes. Na análise do escritor e crítico literário Silviano Santiago, que concedeu entrevista exclusiva à Agenda Tarsila, a permanência no tempo da Semana de Arte Moderna se deu por terem os modernistas se entregado ao trabalho de ‘coveiros’ dos mestres do passado e de ‘enfermeiros’ na condução sadia dos princípios estéticos, com destaque para a figura de Mário de Andrade. 

A cova, diz o escritor, foi dada aos passadistas. Já a enfermagem veio para difundir e expandir um evento, geograficamente municipal, para o resto do mundo. Na década de 1920, houve, em suas palavras, duas Semanas de Arte Moderna. A primeira, realizada no Theatro Municipal, e a segunda, em 1924, quando os modernistas foram além do território do estado. Visitaram as cidades históricas de Minas Gerais, acompanhados do artista franco-suíço Blaise Cendrars. “Uma foi no carnaval e a outra na Semana Santa”, brinca Santiago, que elege os modernistas como seus grandes mestres. Confira, a seguir, a entrevista completa: 

Os modernistas ficaram conhecidos como inovadores, por terem quebrado toda a estética, principalmente do ponto de vista literário, do que vinha até então. Como estudioso do assunto, houve mesmo esse rompimento e eles conseguiram dar continuidade a isso, ou essa idealização que tiveram na Semana de 22 se arrefeceu com o tempo, até por conta das brigas que tiveram entre eles?

Se você me permite, gostaria de apresentar a questão sob outra luz, outra perspectiva. Em lugar de focar naquele detalhe de 1922, que é a Semana de Arte Moderna, enxergar primeiro todo o ano de 1922 e o que está ao lado da Semana. Se você aproxima outros eventos que são, na época, até mais importantes que o evento no Municipal, a gente poderá ir detectando uma qualidade extraordinária da Semana, que eu tenho definido como sendo um movimento municipal. Muitas pessoas acham que a caracterização é pejorativa. Não é. Porque tudo em 1922 é muito grandioso, como vou tentar expor rapidamente. E no entanto, o que destaca é uma certa modéstia da Semana de Arte Moderna. Mas uma modéstia que acaba dando certo. Porque em 1922 ocorre a fundação, na Capital do estado do Rio de Janeiro, do Partido Comunista. É a seção internacional do partido. Dentro, portanto, de um esquema nitidamente ideológico, nitidamente planetário, uma proposta cosmopolita para o Brasil. Outra forma de participação cosmopolita do cidadão brasileiro, se se diminuir um pouco a amplidão, acontece, as comemorações do centenário da Independência. Nas festividades, o presidente (Epitácio Pessoa) queria harmonizar os estados brasileiros. Quer dizer, queria [a nação] de novo forte, depois das grandes polarizações que foram a abolição da escravidão e a Proclamação da República – depois de ‘Isaú e Jacó’ -, destes gêmeos que brigam, republicanos e monarquistas, havia uma necessidade de harmonizar a nação. Queria impor um sentido novo de nacionalismo, o triunfante.  E qual é a outro evento com perspectiva nitidamente nacional? O município de São Paulo durante o carnaval, na escadaria do Municipal. Qual é a perspectiva? Municipal, porque São Paulo, naquela época, não era ainda um grande centro urbano. Mas essa perspectiva municipal – e aí a gente pode ir se libertando da caracterização dada como negativa – surge também na fundação em 1922 do Centro Dom Vital, que reúne a nata católica no Rio de Janeiro. Também é um movimento de caráter universal. Naquela época nem havia faculdade de Letras, quer dizer, a formação da maioria dos modernistas era na faculdade de Direito. O constitucionalismo está nascendo ali, a ideia de um Brasil democrático está nascendo ali, que vai explodir em 1932 (Revolução Constitucionalista). O que existe ali então é uma proposta extraordinária para o Brasil.  Aquilo que o presidente da república acreditava que seria a modernização do Brasil, era o atraso do país, era a República Velha, a economia extrativista. E no caso de São Paulo, (a construção da cidade) estava à frente. Então a ideia era de promover uma cidade que se urbanizava com o sentido de se tornar um polo industrial no futuro. Você vê que se conjuga a Semana de Arte Moderna com a Pauliceia Desvairada, que é o grande livro do ano de 1922. E o que é o livro? É essa São Paulo emergente, mas que só emerge em 1932, quando passa a contestar o futuro ditador Getúlio Vargas. Então, existe uma previsão, talvez uma fatalidade do evento, que dá certo. É um vetor que dá certo. Voltemos aos outros dois vetores: o Partido Comunista, ele vai já no próprio ano ser considerado ilegal. Tem um percurso menos feliz. E o que acontece com a proposta do presidente da república? A rebelião de 1922 dos tenentistas (conhecida como Revolta do Forte de Copacabana) acaba com a brincadeira que começou no 7 de setembro com a Exposição Internacional (do centenário da Independência). O sucesso dessa exposição é até uma certa ironia em comparação com a Semana de Arte Moderna. Ela fecha o Rio de Janeiro, é um negócio magnífico, os grandes países têm o seu próprio prédio, e sabe o que resta no Rio de hoje desta exposição internacional? O Petit Trianon. Era o prédio da embaixada da França, que era uma cópia do Trianon francês e que em 1923 o governo francês doa ao governo brasileiro e passa a ser a sede da Academia Brasileira de Letras. Há até uma certa ironia conservadora no projeto nacionalista. E o projeto municipal paulista, é conservador, evidentemente, em comparação com a fundação do Partido Comunista. Não há uma proposta revolucionária no sentido ideológico da palavra. O que existe de muito bonito é que vai acontecendo em São Paulo uma aclimatação muito feliz do imigrante pobre que chegava do mediterrâneo. Tema que está evidente na Pauliceia Desvairada. Então existe uma espécie de democratização da sociedade pela acolhida dos imigrantes que terão grande sucesso no Brasil. É uma combinação, a meu ver, muito feliz do ponto de vista econômico e que Mário de Andrade, inclusive, vai deixar claro no poema Paisagem Nº 1: ‘Minha Londres de neblinas finas…’ São Paulo quer ser a Londres industrial. ‘Minha terra tem palmeiras, não! Minha terra tem indústria’. Isso é detalhe interessante. Obviamente a proposta de trabalho é com capital institucionalizado (nacional e estrangeiro), pensado como uma nova revolução social. Há um lado do barão do café que continua caipira e há outro grupo que quer ser cosmopolita. Estas duas vertentes da economia do café, é claro, estouram em 1929, no momento da falência (queda da bolsa de valores de Nova York). Vamos vendo como os modernistas têm uma noção muito precisa de adoção de uma ideia tão ampla e generosa quanto a da conquista. Primeira fase, livrar-se do passado. Então, os modernistas vão ser os próprios ‘coveiros’ do que lhes antecede. Há um determinado momento que o artista não pode se deixar impregnar pelos valores que eles chamam de ‘passadistas’, e Mário de Andrade tem um texto de 1920 extraordinário, que é Os Mestres do Passado. São os parnasianos e os simbolistas que ele diz: ‘olha, mestres do passado, não do presente’. Como coveiros, os modernistas serão indiretamente responsáveis pelos movimentos que exigem a ‘inclusão’ do que foi arbitrariamente excluído. E o que foi excluído? Os coveiros foram também muito felizes no trabalho. E há um tanto de ironia no que estou dizendo. Havia uns autores anteriores ao modernismo que eram muito interessantes. Cito dois: João do Rio e Lima Barreto. São pré-modernistas. São ‘pré’, não têm identidade própria. A identidade própria é ser ‘pré’, e não modernista. Mas há um reconhecimento futuro do valor deles. 

Mas os próprios modernistas reconheceram isso?

É claro. Vai chegar um determinado momento que há necessidade de enxergar isso. Você sabe, será um professor da USP (Universidade de São Paulo) que fará um primeiro livro com o título de pré-modernismo, é o professor Alfredo Bosi. É publicado pela Cultrix (em 1966). É natural que você tenha ‘excluídos’ neste tipo de movimento. Porque você não só tem coveiros como tem enfermeiros. Tem de cuidar da saúde da Semana de Arte Moderna e dos modernistas. E, imediatamente, no ano de 1923, Mário de Andrade disse: ‘O movimento está muito municipal!’. E ele vai passar o carnaval no Rio de Janeiro. Entende? Então aquilo que é arlequinal em 1922 passa a ser carnavalesco em 1923. Você vai limpando e expandindo, tornando esse movimento que é municipal, nacional. A proposta é evidente, é tornar o Brasil moderno, não apenas São Paulo. É tornar São Paulo moderno e propô-lo como modelo urbano para uma nova formatação do futuro do Brasil. O que é fascinante é isso, que o Brasil estaria sendo formatado por este modelo. Que não é o modelo do século 19 do Rio de Janeiro, capital federal. Esse modelo é passadista. Entra a viagem de 1924 com (o franco-suíço, artista) Blaise Cendrars… Como os modernistas recusaram o passado representado pela capital federal e recusaram própria comemoração nacional da Independência no Rio, eles vão buscar outra origem da independência no Brasil, que é representada por Ouro Preto e Tiradentes e, em termos de arte, por Aleijadinho. Refiro-me à arte chamada barroca mineira. A Semana de Arte Moderna já está se dedicando ao trabalho de enfermagem do movimento. Cuidar de sua saúde, porque o movimento vinha solto no ar. Busca a constituição do que hoje chamamos de ‘ancestralidade’. Não vai ser a ancestralidade portuguesa, europeia, nossa ancestralidade é indígena. 

Essa ideia de que se tem hoje de que o evento foi só de São Paulo era uma preocupação, principalmente do Mário, que tentou, desta maneira, levar estes ecos do que aconteceu na Semana para o resto do Brasil?

No início, vai haver uma nítida ‘exclusão’ do Rio de Janeiro, da capital federal. Você vai ver que as leituras críticas que se fazem do modernismo a partir do novo milênio, todas vão insistir no papel do Rio de Janeiro na constituição não do modernismo, porque eles (modernistas) tomaram todo cuidado de bons coveiros e de bons enfermeiros, é bem singular, e vão excluindo e expandindo. Mais tarde, vão surgir ‘exclusões internas’. E aí você vai notar que são excluídos uma série de movimentos do tipo nacionalista conservador, e até mesmo de direita (integralistas), que serão excluídos também. Quando pega, por exemplo, o texto de Oswald de Andrade sobre o Movimento Anta (ou Movimento Verde-Amarelo, nacionalista), é uma maravilha. Há exclusões externas e internas. E quando Plínio Salgado sai expulso é uma exclusão. Há um cemitério antes da Semana e uma enfermagem depois da Semana. Para pôr o movimento em movimento, atualizando e, ao mesmo tempo, abrindo novas perspectivas. E aí, na passagem de 1922 para 1924, Mário de Andrade vai saindo do foco e entra Oswald de Andrade. Ele ganha poder. Pouca gente o estudava, Oswald era uma figura menos queria que Mario. Isso não há dúvida. Ainda hoje, ele é adorado, ou é menos querido. Porque você conhece, por exemplo, a conferência que Mário fez em 1942 no Itamaraty, no Rio de Janeiro. Você sabe que Oswald fez a mesma conferência em 1944 e se chama “O Caminho Percorrido”, em que ele comemora a viagem a Ouro Preto. Está no livro Ponta de Lança e foi escrito em 1944. É um texto extraordinário. Tão bom quanto o do Mário. Temos de dizer que a Semana de Arte Moderna, no fundo, são duas: uma se passa no carnaval em São Paulo, a segunda se passa durante a semana santa em Ouro Preto e nas cidades históricas de Minas Gerais. Você vê, então, como a viagem é importante no sentido que se vai tendo, não só uma abrangência propriamente espacial Mário já tinha ido lá antes, em 1920, mas como simbolista. Isso ele esconde. Tinha escrito inclusive um livro de poemas simbolista que não consta da Poesias Completas. Quer dizer, fez o trabalho de coveiro dele (risos). Manuel Bandeira não faz isso. Ele tem seus poemas simbolistas que constam da Poesia Completa. Se você vem lendo cronologicamente Bandeira, chega em Libertinagem e você dá um pulo. ‘O que é isso? Não é o mesmo poeta’. O corte de Mário de Andrade de 1922 com Pauliceia Desvairada é o de Bandeira com Libertinagem, só que esse livro não apaga os livros passados. Enquanto Pauliceia apaga. E se torna, obviamente, muito mais focado no futuro. Mas no futuro cuja saúde está sempre periclitante. Politicamente está assim. E tem 1932, o movimento constitucionalista. Repare, o projeto municipal se torna estadual em 1932 e é, dessa forma, que passa a questionar a nação. Quer ocupar o distrito federal. Por quê? Porque se trata de uma disputa pelo poder nacional com a derrota do até então não ditador Getúlio Vargas. O movimento modernista durante a década de 1930 vai se constituir num modelo político-social muito próprio. Vai continuar sendo, por um lado, regional, mas vai ser mais ambicioso na busca pelo poder, vai haver uma guerra, a de 1932. Não vai ser separatista, não uso essa palavra. Vai ser dissidente e paralela. Vai querer constituir uma dissidência tão rica quanto o movimento geral. (Ai tem a) Criação da USP. Isso nem é uma tese minha, é de Antonio Candido, que a criação da USP é a institucionalização do modernismo, em 1934. É esse tipo de trabalho que chamo de ‘enfermeiro’. Preserva a saúde. Vai ganhando cada vez mais terreno, se atualizando e retirando o projeto urbano de uma cidade provinciana. Quer se transformar num projeto urbano que é cada vez mais interessante para o restante do Brasil. Vem em seguida a geração de 1945, que é imediatamente desclassifica. Salva um artista: João Cabral de Melo Neto. Por quê? Esteticamente falando ele dá continuidade a vanguarda modernista. Porque a vanguarda paulista é, antes de mais, construtivista. Então João Cabral se enquadra e vira ponte para a poesia concreta. Na minha opinião ela é o fim, de certa maneira, do modernismo paulista. Não no sentido de que acaba, mas que a corda foi esticada até onde podia. Porque o modernismo na sua radicalidade seria o fim do verso, mas depois eles voltam um pouco atrás porque essa radicalidade é o silêncio. Então, neste sentido, você vai vendo que a enfermagem continua a trabalhar e ficará assim até na primeira grande história da literatura brasileira, que é de Antonio Candido. Aquilo que os modernistas foram buscar em Minas Gerais abre o livro. Ele começa em 1857, com a publicação dos poemas de Cláudio Manoel da Costa. A viagem a Minas é muito mais rentável para o modernismo do que propriamente para Minas Gerais. A ‘primeira Semana’ passa a éter um valor mais nacional que provinciano. Já ambiciona um valor exportação, se você avança no tempo e pega a poesia concreta, passa a ter a exportação da vanguarda que não pode mais ser trabalhada a partir do modelo que vem sendo discretamente excluído, que é Mário de Andrade. Em 1924 vai surgindo um novo modelo dentro do modernismo, Oswald e a Antropofagia. Ele vai permear uma futura espécie de pós-modernismo (década de 1960). Esse ‘pós’ retira o modernismo das artes da palavra e vai movimentar diretamente as artes coletivas. Salta de Oswald e vai para as mãos de José Celso, O Rei da Vela, Caetano Veloso. MPB, e vai direto, também, para as artes plásticas. O construtivismo das artes plásticas, como grande exemplo da grande arte nacional, Lygia Clark e Hélio Oiticica. Aí o interesse já é muito mais por uma arte nacional de exportação que não se confunde com 1922. A ideia de exportação é tardia, é de 1924. De 1922 ainda é desenhar a São Paulo industrial, desvinculando-a da tradição rural e extrativista. Mostrar uma cidade londrina. São Paulo urbano. Isso é o que acho interessante numa retomada em 2022 de 1922. 

Você está me falando destas duas semanas, a de Mário e Oswald. Isso seria, metaforicamente, os caminhos que fizeram eles se distanciar ao longo do tempo, tanto que permaneceram brigados?

Tem a ver de uma certa maneira, porque no fundo é Oswald de Andrade que tem a grande jogada da ancestralidade no modernismo. Mário não tem essa jogada. E Mário, ao escrever Macunaíma, vai ficar dependente da ancestralidade indígena proposta por Oswald, ‘tupi or not tupi’. Esse, a meu ver, é o momento em que os dois de, certa maneira, disputam o centro do poder, e o Oswald, naquele momento, tem uma maior habilidade. Não é uma questão de inteligência, nem imaginação, porque ambos são extraordinários. É uma questão de maior habilidade, sensibilidade, o que é mais interessante a ser desenvolvido. Buscar o passado que não temos em 1922. Como vamos representar esse passado nacional? Terá de ser através de uma forma. Qual é a forma? A paródia. ‘Minha terra tem palmeiras’ / ‘Minha terra tem palmares’. Tem movimentos insurrecionais dos escravizados. Isso é uma proposta estética. Você enxergar o passado, mas piscando o olho. Não levar tão a sério o passado. Macunaíma também é exemplo. Oswald de Andrade teve essa habilidade de sacar que nós temos de encaixar um passado nisso que a gente está fazendo, porque estamos muito soltos, nem futurista, porque os futuristas tinham passado garantido, estão na Europa, Itália… A gente não tinha, fomos um país colonial, que saiu recentemente da monarquia. Ele teve essa ideia que é importante. Na Paulicéia Desvairada, o bonito é o sentido da inclusão social. Que você vê no vocabulário dos imigrantes, na presença participante de todas as raças. Mas em Oswald de Andrade, o que me fascina, é exatamente ter trazido o riso. ‘Não vamos ser tão sérios’. E eu acho que é por aí que começamos a discutir por que os dois brigam. Porque Oswald é a favor da boutade (do riso), e Mário não pode aguentar as boutades ofensivas. 

Era a personalidade deles, totalmente diferente neste sentido…

É a personalidade e o ato de cutucar o boi com a vara curta. Tem algo em Oswald de mefistofélico, porque, afinal, as pessoas não são anjos. Se você cutucar com vara curta é claro que a pessoa reage, e Oswald de Andrade tinha essa mania de debochar, que é uma das graças dele. Em 1964, ele se torna herói no movimento político de reação à ditadura militar. Há que se aprender a cutucar com a vara curta. Esse reaparecimento dele, no que chamei de pós-modernismo, não é tão gratuito. Ele é condizente com o tipo de teatro que o Zé Celso quer fazer e condizente com o tipo de música popular que o Caetano quer cantar, que não é exatamente a bossa nova, é a tropicália. Se você pega o Caetano no palco e pega João Gilberto, são duas coisas totalmente diferentes. O João Gilberto no palco, a figura dele, é andradina. O Caetano no palco é oswaldiano. Não estou julgando as canções, só a atuação, a performance. O que para Mário é muito importante. Ele sempre foi um poeta performático, isso não há dúvida nenhuma. João Gilberto, à maneira dele, é performático. Vinícius de Moraes é performático. Mas são quietos, interiorizados. Sempre sentados. Agora Caetano também é performático, mas de outra maneira. Nunca está sentado, só atualmente é que se senta. Estava sempre de pé e até mesmo imitando Carmen Miranda, rebolando. Então são personalidades muito diferentes, o que não quer dizer que façam uma arte tão diferente. Mas são performances muito diferentes. Quando você tem a adaptação para o cinema de Macunaíma, se analisar bem o filme de Joaquim Pedro (de Andrade), é mais oswaldiano do que andradino. Não estou dizendo que ele trai a letra de Mário. De novo: é uma questão de performance. A performance do Grande Otelo, a sequência no Parque Lage, é muito mais oswaldiano do que andradino. Se ler Macunaíma com determinado cuidado vai ver que há um efeito de adaptação, que o Joaquim Pedro torceu um pouco, o que não atrapalha, mas enriquece. Foi a capacidade dele, à distância, de ler o modernismo com menos rigor. O rigor, os modernistas querem ter, mas ele divide para excluir, não para incluir. Então vai ter muitas choramingas, de todos os grupos que foram excluídos, porque o modernismo é o vetor vitorioso de 1922. Não quer dizer que seja o melhor, mas é inegável que é o vitorioso. Ele vai ganhando poder na medida em que ele é capaz de se fixar numa ideia original inicial que tende ser com o correr dos anos retrabalhada, redefinida, redirecionada. Mas sempre guardando um determinado respeito às ideias originais. E tiveram exclusões que foram escandalosas…

São os apagamentos da história…

Não sei se apagamento. É exatamente por ter sido um movimento que, insisto, foi municipal. Não era um movimento que queria ser inicialmente nacional. Pelas viagens ou pela viagem metafórica, a carta – as cartas de Mário de Andrade – é que o Brasil vai se tornando modernista. Uma forma de ‘enfermagem’ é a correspondência de Mário, você vai conservando a saúde do modernismo paulista no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, com Carlos Drummond de Andrade, lá do nordeste, com Câmara Cascudo, e você vai até que surge um movimento que não dá para São Paulo aceitar, que é o regionalista liderado por Gilberto Freyre. Como nós sabemos todos, ele não é um sociólogo bem aceito pela USP. O que me fascina quando se toma a perspectiva que proponho é que você pode enxergar determinados movimentos que são silenciados, enxergar também pessoas que são humildes, modestas e que não têm o cabotinismo de Mário de Andrade. São coisas que você enxerga melhor e pode entender a razão pela qual essa exclusão, muitas vezes, não é tão antipática. Mário não perde absolutamente nada quando ele se desentende com Oswald, que também não perde nada. Porque está em jogo muito mais a questão das personalidades do que propriamente a da produção artística deles, a própria ideia de vanguarda deles. Outro dado importante da enfermagem é que eles escrevem novos manifestos a partir de 1924, os de Oswald, por exemplo, o Pau-Brasil e o Antropófago. Os manifestos que têm sucesso nisso que estou chamando de pós-modernismo.  . A tal ponto que a Bienal, só nos anos 90 é que vai ser dedicada à antropofagia. Tem de ver que houve, para usar a palavra de Oswald, ‘um caminho percorrido’. Em 1942, Mário faz uma coisa muito católica de autopunição, ‘não fomos isso… gostaria de esbofetear-me a cara’, um texto muito dramático. Em 1944, O Caminho Percorrido é Oswald em seu melhor. É evidente que ele está brincando com o Mário de 1942. Tem várias coisas ali, que é uma piada, mas é verdadeiro, porque o modernismo tem duas semanas, não tem uma só não. Uma que é carnaval e outra que é semana santa. Se você pegar a poesia Pau-Brasil, começa exatamente com uma paródia da carta de Pero Vaz de Caminha. ‘É importante, mas não levemos a sério’. Se a gente levar a sério, nosso projeto vira nacionalismo romântico. 

Você citou diversas obras importantes do modernismo. Dá para dizer que elas de fato inovaram em termos de literatura?

Evidente. Há uma má vontade com Pauliceia Desvairada – que teve muito sucesso no início -, acho que veio a partir dos concretos. Porque há uma verbosidade andradina que não é só em Pauliceia, que vai continuar, e foi muito questionada quando João Cabral de Melo Neto torna-se modelo e a poesia concreta se anuncia. Mas se ver a própria carreira dos concretos, eles têm seus pecados antes de se tornarem concretos. Eles publicaram livros, todos os três (Haroldo de Campos, Décio Pignatari e Augusto de Campos), em um grupo de poesia do Péricles Eugênio da Silva Ramos… Nem todo mundo começa genial. É outra coisa discretamente apagada. São livros de valor, mas são palavrosos e isso passará a ser um defeito. O que eu julgo é que eles não leram corretamente Mário de Andrade. O próprio Pauliceia é um livro muito menos palavroso do que as pessoas acreditam. Porque o que ele traz como novidade em termos estéticos é o prazer pelo fim que não é conclusão. Toda poesia dele é escrita por um tipo de verso que tem um fim não conclusivo. O que é dado como ‘fim’ na verdade abre o espaço para se dizer o contrário do que foi dito. ‘Hoje eu estou muito triste… Daí a pouco, ‘Hoje estou muito alegre’. ‘Esse friozinho arrebitado me faz sorrir’, mas logo após, ‘o cinzento da rua me deixa triste’. E estes versos se sucedem. Há um processo de composição muito moderno até, muito atual, que é o jogo entre polarizações. E não há possibilidade de você brincar muito com elas, porque você brinca e acaba ficando em cima do muro, hein! Você acaba tendo um tipo de construção (que é típica da estética) ‘dada’. Ele é mais ‘dada’ do que as pessoas acreditam. Não é construtivista, ele é a favor da contradição. Mário é verborrágico, é um poeta de tendências concretas. Se você é tolerante, vai ler a poesia com certa tolerância, você percebe que ela tem esse tipo de construção típica de grandes autores brasileiros como Machado de Assis, Guimarães Rosa… Tudo é e não é. Usa a proposição ‘e’ no lugar da preposição ‘ou’. É o jogo inteligente de Mário, só que ele não usa a preposição, como Rosa, o que torna a poesia dele passível de crítica. Ele usa muito o que chamamos vulgarmente de três pontos, a reticência. Ele não devia exagerar na pontuação, mas isso é loucura minha. Esse negócio do uso excessivo de ponto de exclamação fez com que ele perdesse certa graça na época de João Cabral e da poesia concreta. Mas logo uma certa poesia que aqui no Rio chamamos de marginal, a poesia de Chacal, por exemplo, logo incorpora esse traço de oralidade. São construtivistas, mas meio verborrágicos. Eles gostam um pouco de narrar coisas. E essa narrativa voltou bastante hoje, em particular entre as damas. Na poesia feminina jovem. Uma coisa que não foi muito bem compreendida… De repente, você tem hoje um retorno de Mário, e não de Oswald. Porque queiramos ou não, é delicado afirmado isto, a estética construtivista é muito masculina. Se você pega Maria Martins (artista e escritora), você verá que sua estética é outra. E Mário está mais do lado da Maria Martins. Mário tem o seu lugar hoje. Ele não tinha como entrar no cânone brasileiro construtivista com tendência à geometrização. Esse cânone é muito brutalista para o período em que estamos vivendo, em que a sensibilidade está à flor da pele. Acho muito brutalista essa estética, embora seja a grande estética moderna. O menos é o mais. Se você ler a prosa brasileira masculina é muito machista. Impressionante. De frases perfeitas, curtas. Na questão estética são perfeitas, mas se você vê a maneira como o social é tratado tem uma certa brutalidade que eu acho que provoca negativamente a gente hoje. Mas não é porque estamos em cima do muro, mas porque estamos com a sensibilidade em aberto.

Para você quem foi o grande nome do modernismo brasileiro?

Sou a pessoa mais infiel do mundo (risos). Sou fiel por alguns anos a x, depois sou fiel a outro, a outra. Ainda mais, eu tenho 85 anos, fidelidade não é o meu forte. É claro que tenho fidelidade a obras que trabalhei e admirei naquele momento, e obviamente devo alguma coisa a elas, toda leitura traz um enriquecimento. Mas nunca conseguiria ficar vinte anos fazendo uma tese sobre Carlos Drummond de Andrade, escrevi um ensaio sobre ele. Depois fiz as anotações das cartas, então, de novo, voltamos à intermitência. A minha fidelidade tem espaços outros que gosto de frequentar. Tenho enorme admiração por Mário de Andrade e já fui muito oswaldiano. Dentro dos modernistas são os dois, se a gente for pegar o movimento no sentido estreito. Mas, obviamente, fui, com a idade que tenho, fui muito conformado pelo modernismo. Se você me perguntar quem são meus mestres, eu diria que são os modernistas, isso sem dar nome, porque é um conjunto que tentei explorar hoje com você. Esse conjunto que me formou e, se escrevo da maneira como escrevo, bem ou mal, esse é outro problema, é porque eu os li e os admirei. E queria ver se eu poderia fazer qualquer coisa à altura. O que nem sempre é fácil, mas a gente tenta.

O que esperar para o centenário da Semana de 22?

Pelo que falei, gostaria muito que houvesse um conhecimento mais amplo do que significa 1922. Porque a oportunidade também, de quando você tem um centenário, é a de examinar não um dos centenários que se comemora, mas o que se comemora naquele ano. Gosto muito de um livro de um grande crítico alemão que trabalha em Stanford no momento, que é (Hans) Gumbrecht. O livro se intitula 1926. Entende, analisar o ano de 1922. Com todas as complexidades paralelas que mencionei no início: fundação do Partido Comunista, Semana de Arte Moderna, centenário da Independência comemorado no Rio de Janeiro, fundação do Centro Dom Vital, os Dezoito do Forte, etc. Não é ver como contexto da Semana, é para ver o emaranhado que é, no fundo, o cotidiano cultural brasileiro. A vantagem é essa, com certa distância você poder fazer uma análise, que é a do cotidiano cultural de 1922, com as suas saliências e discrepâncias. Se você comemora é porque é uma saliência. É ver esse jogo delicado entre saliência e rotina, e depois os paralelos que se pode estabelecer. Obviamente gostaria que todas essas descobertas de ‘exclusão’ fossem trazidas à tona, porque, não sou uma pessoa maniqueísta, acho que trazer a exclusão à tona é uma maneira de enriquecer um lado e o outro. Não é uma maneira de você ficar ressentido. Só aqui no Brasil o sentimento prevalente é o ressentimento. É trazer a riqueza da variedade, que serve de contribuição até para você conhecer melhor o modernismo. E a riqueza do modernismo é melhor conhecida naquilo que ele excluiu, porque essa exclusão não é tão gratuita, ela tem um sentido. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

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