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‘Segall teve uma identificação interessante com o povo brasileiro, principalmente com os negros’, diz curador de exposição no Museu Lasar Segall, Daniel Rincon

Não era porque os modernistas queriam uma arte essencialmente brasileira que refutavam estrangeiros em seu consagrado grupo. Fosse isso, o artista lituano Lasar Segall não teria sido um dos grandes nomes do movimento modernista no Brasil, país que escolheu para viver até a morte, em São Paulo, em 1957. “Tinha somente a convicção de estar enamorado desse país e que a dedicação que eu lhe devotava, era demais profunda e violenta para ser superficial”, disse o pintor. 

Parte de seu trabalho, principalmente o que tem ‘as cores da brasilidade’ pela qual se apaixonou, pode ser visto na exposição Moderno Eu, que acaba de entrar em cartaz no Museu Lasar Segall, espaço cultural que fica onde foi sua casa e ateliê, na Vila Mariana. Um dos curadores da mostra, Daniel Rincon, conta sobre esse casamento entre o pintor lituâno e o movimento modernista, a sua familiaridade com o povo daqui e a maneira que sua obra ressoa nos dias de hoje. Confira entrevista completa a seguir:

Vocês acabam de abrir a exposição Moderno Eu, com recorte das obras de Lasar Segall sobre o tema. O que o público encontra na mostra?

Decidimos fazer um recorte do acervo para discutir a participação do Lasar Segall no movimento modernista brasileiro, aproveitando que estamos vivendo um ano de celebração dos 100 anos da Semana de Arte Moderna de 1922. Procuramos entre os acervos fotográficos, documental, de obras, elementos que pudessem mostrar quem vai para a exposição a relação que ele teve com os intelectuais modernistas. 

Lasar fez uma exposição em 1913, que muitos dizem ser a primeira modernista no país, antes da realizada pela Anita Malfatti. Quem era o artista naquele período e como ele se aproximou da brasilidade?

A respeito dessa exposição existe uma grande discussão em torno dela, se seria ou não a primeira exposição modernista no Brasil. Aqui no museu a gente discute bastante isso e entendemos que ela não foi uma exposição modernista e não destoou muito do que vinha acontecendo em São Paulo naquele momento. Apesar de existir uma linha de interpretação que diz que era uma cidade culturalmente apagada, na verdade não era bem assim. A gente sabe através de pesquisas que existia uma quantidade enorme de exposições nas primeiras décadas do século 20 e o Segall, em 1913, se integrou a este cenário, de artistas, muitos estrangeiros, espanhóis, portugueses, italianos, que de passagem na cidade alugavam salão no centro de São Paulo e expunham os quadros. As obras do Segall deste período não eram as que ficariam conhecidas como de vanguarda, plasticamente eram comprometidas com uma visão anterior ao modernismo. Apesar de causar um pouco de estranhamento quando a gente lê os textos publicados nos jornais da época, algumas pessoas estranharam as obras dele, a proposta estética, mas não foi uma mostra que tenha causado polêmica ou escandalizado como seria a de Anita Malfatti alguns anos depois. Ali sim (1917) talvez a gente tenha um marco inicial, a chegada das propostas estéticas de vanguarda mesmo. Mas o Segall entre 1913 e 1924 mudou bastante. Depois que ele voltou para Alemanha veio para o Brasil, passou alguns meses, fez duas exposições bem-sucedidas, recebeu elogios, vendeu obras e voltou para lá. Na Europa testemunhou a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), um evento bem traumático que vai marcar a produção dele, mas experimenta também aquilo que a gente chama de expressionismo, que começa a encontrar um pouco de aceitação entre os colecionadores. Ele passa por um momento de incerteza, a gente até fala isso na exposição, percebemos nos documentos que deixou, principalmente cartas, que passou por um momento meio angustiante de decidir se embarcava naquilo, começava a pintar de maneira ousada, abandonando as tradições, ou não. E ele decidiu ir em frente e passou a fazer obras de temática diferente e também esteticamente bastante ousadas. Chegou num ponto mais experimental da carreira e foi bem recebido lá. Aí começa a ser reconhecido como artista, passa a integrar alguns grupos e expor, tem suas gravuras disseminadas na Alemanha por revistas e começa a ver seus quadros serem adquiridos pelas coleções públicas e privadas. Entra no radar da arte na Alemanha. Se analisar as obras que expôs em 1913 no Brasil e as de 1924, logo depois que chega, existe uma diferença grande e ali já está completamente comprometido com o que a gente chama de modernismo. Por isso que ele encontra ressonância com os intelectuais da Semana de 1922, que imediatamente o acolhe como um dos seus. Isso também está na exposição. Procuramos reproduzir textos, trechos de documentos, em que isso fica claro. Por exemplo, a crítica que Mário de Andrade escreve em 1924, já diante das obras dele, para mostrar a harmonia que ele encontrou com essas pessoas. 

Na apresentação da mostra, o texto diz que Segall era um militante da causa moderna. Queria que me explicasse isso. 

Isso tem a ver com o fato que, diferente da Alemanha, no Brasil ele encontra um público e ambiente artístico que ainda não estava preparado, interessado naquele tipo de proposta estética que ele trazia. Temos até uma carta muito interessante no nosso arquivo, da primeira esposa dele, que era uma atriz alemã que veio com ele para cá e escreve: ‘aqui em São Paulo a gente não sabe como vai viver, porque exceto duas ou três famílias que compram as obras do Segall, o resto só compra kit’. Na visão dela, as artes tradicionais eram kit. Diante dessa resistência, dificuldade que a proposta estética modernista de vanguarda tinha no Brasil, o Segall assume então essa função militante, pedagógica, e passa a tentar convencer as pessoas, uma espécie de formação de público, de que aquele tipo de arte era necessária, era legítima, não era loucura ou falta de técnica, muitos pensavam assim. Ele assumiu essa função no Brasil, que lá na Alemanha não precisava porque existiam outros elementos, outras pessoas, que faziam esse papel, os críticos de arte principalmente justificavam a revolução estética que estava em andamento. No Brasil ele faz conferências na Villa Kyrial (residência de Freitas Vale, reduto cultural de intelectuais da cidade), escreve textos nos jornais, todas as ocasiões faz essa apologia e defesa da arte moderna tentando mostrar a necessidade e validade dessa arte. 

E a brasilidade tocou fundo nele. Como teve essa empatia com o Brasil e assumiu essa visão de arte que era o que a Semana de Arte Moderna pedia?

Um dos segmentos da nossa exposição discute um pouco esse primeiro impacto que o Brasil teve na obra dele e realmente foi bem nítido. A tonalidade das pinturas mudou, novas cores entraram nas obras dele, que antes você não via. Antes era tudo mais sóbrio. As primeiras obras brasileiras trabalham com a luminosidade, bem típico da luz daqui. Inclusive Mário de Andrade, alguns anos mais tarde, escreve a introdução de um catálogo de uma exposição de 1943 em que faz uma crítica, diz que o Segall quase se perdeu, mas depois voltou a trabalhar do seu jeito. Realmente, depois ele volta a pintar com os tons mais sóbrios. O Segall teve uma identificação interessante também com o povo brasileiro, principalmente com os negros. O interesse aparece pelas obras desse período em que retrata os negros. Uma pesquisadora norte-americana fez um trabalho bem interessante sobre a relação dele com o Brasil e ela diz que o pintor se identificou com pessoas que também tinham sofrido a diáspora, porque ele faz parte de um grupo que experimentou isso. Todos os familiares do Segall migraram da Rússia, Lituânia, e não só eles, mais de dois milhões de judeus que viviam lá no final do século 19 e início do século 20 migraram por conta das condições difíceis. Essa característica foi uma coisa que fez com que se identificasse com os negros que vieram para o Brasil. Isso penetra em sua obra. 

O que foi a Sociedade Pró-Arte Moderna, que ele liderou?

Essa foi uma das coisas que ele fez como militante. São pessoas que se reúnem para fazer uma associação voltada a promover o modernismo no Brasil. Fizeram eventos para arrecadar fundos, principalmente bailes de carnaval, e com o dinheiro abriram uma sede na Praça da República e lá patrocinavam exposições de arte, conferências, saraus, existia uma biblioteca onde colocavam as publicações sobre artes mais recentes que saiam pelo mundo. Era um polo propagandeador da arte moderna em São Paulo. 

Qual a importância da mensagem da obra de Segall hoje, cem anos depois?

A obra de Segall tem uma importância viva nos dias de hoje, especialmente porque ele teve essa identificação com as pessoas que experimentaram a diáspora, mas também todos os marginalizados. Ele sempre teve esse elemento nessa obra, desde o começo na carreira. A primeira vez que passou no Brasil, em 1913, o principal quadro dele chamava-se Sem Pai, uma figura de uma viúva com seu filho e ele tratava dessa questão de uma família despedaçada por conta de uma tragédia. As viúvas sempre aparecem e os marginalizados em geral, prostitutas, ele tem essa preocupação social. Uma das obras que tem realmente um fato interessante é o Navio de Imigrantes, que ele pintou entre 1939 e 1940, e fala justamente dessa condição de pessoa sem pátria, à deriva pelo mundo em busca de um lugar onde possam viver. Essa é uma situação que a gente vê até hoje. Quando ele pintou e apresentou esse quadro pela primeira vez, foi entrevistado e disse: ‘não estou apresentando nenhum acontecimento específico, mas quero mostrar a condição justamente das pessoas apátridas’. Ele procurava fazer uma obra atemporal e atinge isso quando a gente olha a obra hoje e vê que ela tem uma ressonância. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 9 de maio de 2022

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