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‘Sem arte a vida é insuportável’, diz diretor do documentário 22 em XXI, Helio Goldsztejn

Democratizar a história da Semana de Arte Moderna e explicá-la sob diversos ângulos é a proposta do documentário 22 em XXI, que estreia no SescTV (dia 22/3, às 22h) e sesc.digital (dia 29/3). Dirigido por Helio Goldsztejn, a produção, feita em tempo recorde, mistura depoimentos de pessoas que refletem o movimento que teve seu marco há 100 anos, e respondem à questão central: o que ficou da Semana de 1922?

Goldsztejn, em entrevista à Agenda Tarsila, responde. “Tudo que você imagina na área da arquitetura, das artes, da música, que vê de qualidade hoje, incluindo a cultura das margens, da periferia, tem uma origem e vem dos modernistas. Quer gostem ou não.” Misturando dramatização – atores interpretam Oswald, Tarsila, Anita e Mário de Andrade – e entrevistas,  coloca ingredientes a mais nas reflexões sobre o assunto. Confira, a seguir, a entrevista completa. 

Você dirigiu o documentário que conta sobre a Semana de 1922, com diversas vozes. Gostaria que falasse sobre o projeto. 

A ideia é antiga, tem três anos. Mas a execução começou em outubro. Porque originalmente a proposta era uma ficção sobre a Semana de 1922 e este é um projeto paralelo, que também vai ter sequência. Mas durante esse período conversando com Danilo Miranda ele sugeriu um documentário e em outubro começamos a produção. Agora, em um tempo recorde, ficou pronto, apesar de um numeroso acervo que a gente conseguiu. E a ideia e propósito não é somente falar sobre a Semana, ou do modernismo, mas esse olhar hoje, contemporâneo. Por isso é 22 em XXI, século 21. As influências que o modernismo transmitiu a todos os setores culturais, econômicos, políticos… Resolvemos conversar com um painel grande de pessoas com ideias, nem todas convergentes, e você vai ver debates ali ao longo do documentário. A gente tem Aracy Amaral, uma especialista no modernismo, o Caetano Veloso, a família do Monteiro Lobato, representado pela Cleo, que interpreta de outra forma o famoso artigo do avô. Tem o Emicida, com um olhar super agregador, inclusive das contradições, em que ele vê além delas, uma proposta que possibilitou a criação de diversas áreas e formas. Lembrando que estamos falando de 100 anos atrás. Aí tem o Fred Coelho, a líder indígena Jerá Guarani, que levanta a questão das grandes esculturas em homenagem aos bandeirantes, que eram vistos como homens dourados e desbravadores pelos modernistas, não só por eles. Até hoje no ensino essa questão é complexa. Zé Miguel Wisnik, que dá um parecer muito próprio e interessante, Helio Menezes, que agora será um dos curadores da próxima Bienal e o olhar dele sobre aquela época, os reflexos hoje. Zé Celso, que vê no modernismo possibilidades de criação que vão além do próprio movimento, como uma eclosão de um processo que não começa na Semana de 1922. 

São muitas vozes ouvidas. Teve algo que te chamou atenção que te surpreendeu até em relação aos ecos que o modernismo teve nos últimos 100 anos?

Gosto muito dos pitacos que o Caetano Veloso dá sobre a Semana e o modernismo, porque ele faz essa conexão com o trabalho dele, com a Tropicália, os concretistas, todo esse processo. E ele olha o Oswald de uma maneira muito além das pequenas intrigas da época, isso achei muito interessante. Wisnik também tem esse olhar denso sobre todo esse processo. Mas acho importante a posição do Hélio Menezes, quando ele questiona questões importantes que ocorreram na época com relação aos corpos negros, que eram vistos como objetos. E ele explica isso muito melhor do que eu. O que mais me surpreendeu mesmo é a voz original da Tarsila contando como ela criou algumas obras, de que forma foi, como encarava essas deformidades. Ela tinha um olhar diferente e é muito bom como isso compõe dentro do documentário.

Também tem cenas interpretativas, com atores que contam sobre os protagonistas. Como isso é trabalhado no documentário?

Todos esses depoimentos dariam muita informação, mas para poucas pessoas. E a ideia é trazer essas informações, discussões, para um público que teve só acesso ao assunto através do ano letivo. E não um encontro com a criação deles,  como diz a filha do Oswald (Marília de Andrade): ‘Oswald é para os grafiteiros’. Ela fala várias coisas que vale ver no documentário. Assim como ela, dramatizamos várias situações que são textos dos personagens, que fizeram parte do grupo como Tarsila, Anita, Oswald, Mário. Compilamos esses textos e fizemos uma dramatização que reforça ou contradiz alguns depoimentos do documentário. Quem assiste é transportado para aquela época com as conversas que aconteceram.

E como fica o projeto da ficção?

Esse projeto durante todo processo da pandemia foi o que mais sofreu. Mas nós conseguimos. Já estamos em pré-produção, uma boa parte dos recursos foram captados e temos uma perspectiva de ter de pé essa ficção até outubro. Teremos esses capítulos em condição de serem transmitidos pelo streaming. A história é o fundo, com toda licença poética. Novos personagens, situações insólitas. Claro, com um contexto histórico muito forte e humor.  Preciso falar aqui com relação a minha equipe. O Fabio Brandi Torres, meu roteirista, participa também do projeto de ficção. Ele foi fundamental como o Marcos Augusto Gonçalves, o Mag, que edita a Ilustríssima (Folha) e tem um livro sobre 1922 (1922 – O Ano Que Não Terminou), que eu realmente recomendo as pessoas se quiserem entender melhor todo o processo e os reflexos, ali encontra um texto muito gostoso de ler que te traz para este universo. Eles foram fundamentais neste sentido, assim como Thais Taverna na edição de fotografia e o Pichi Martirani na montagem. Acho importante passar o nome deles, porque conseguimos uma qualidade que transcende o objetivo primeiro que era fazer esse trabalho. Ele tem músculos para tela grande. Quis agradecer ao time, porque sem time não se faz nada, em qualquer área, é importante lembrar. Dia 21 ele estreia no CineSesc e depois vai para plataforma para o SescTV e Sesc Digital, qualquer pessoa tem acesso, é gratuito. A ideia é difundir ao máximo todas as questões que estão no documentário, mas com muita coisa inédita, como a voz da Tarsila, por exemplo.

Voltando ao documentário, a pergunta central é o que ficou da Semana de 22 hoje. E você, depois de toda pesquisa, que resposta tem para isso?

Tudo que você imagina na área da arquitetura, das artes, da música, que vê de qualidade hoje, incluindo a cultura das margens, da periferia, tem uma origem e vem dos modernistas. Quer gostem ou não. Esse é o país que foi sonhado. O país de Brasília, do Ibirapuera e é o país das criações atuais. Esses são os sinais que o modernismo deixou para gente, as propostas. Então vejo em todas as áreas onde há criação vejo modernismo, onde há obscuridade não vejo o modernismo. É isso que deixou para mim.

O modernismo e a Semana vêm sendo revisitados ao longo de 100 anos. Acredita que nos próximos 100 continuará ecoando?

É uma história que se conta, se conta, se conta, e acaba se acreditando nela também. É uma questão levada em conta no documentário. Daqui a 100 anos, se o modernismo ainda for um eixo, uma base, é porque continuamos muito atrasados. Espero que o modernismo seja apenas uma leve referência para a explosão de criação que pode surgir daqui em diante. Acredito na criação, na possibilidade do homem viver com arte, porque essa é a mensagem do modernismo. Sem arte a vida é insuportável, alguém já disse isso. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 21 de março de 2022

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