‘Sempre houve e há muitos modernismos no Brasil’, diz o antropólogo, jornalista e escritor Bruno Albertim, autor de ‘Pernambuco Modernista’

A história tem de ser revista sob diversos pontos de vista. Se existe, no caso da Semana de Arte Moderna, um protagonismo de São Paulo – justificável, até porque o evento foi no Theatro Municipal da cidade -, a ocasião do centenário do evento é o momento de repensar quais foram as contribuições para o movimento tão discutido no país. Esta é a proposta do antropólogo, jornalista e escritor Bruno Albertim, que fez o pré-lançamento do livro Pernambuco Modernista (Cepe) em São Paulo há pouco e, no final de junho, pretende de fato lançá-lo, junto a uma grande exposição, no seu estado natal. 

“O meu livro, de alguma forma, tem a pretensão de bagunçar um pouco a festa paulistana”. ressalta o escritor. A ideia, explica, surgiu após uma série de reportagens que fez para o Jornal do Commercio e tira o véu de outros protagonistas do modernismo, como é o caso de Vicente do Rego Monteiro e Cícero Dias, nomes que estiveram presentes na mostra realizada há 100 anos e cujo trabalho, assim como de outros artistas pernambucanos, difere dos realizados em São Paulo. “Este modernismo praticado em Pernambuco incorporaria essa luminosidade tropical, os temas regionais, que à grosso modo se preocupa com a valorização da identidade regional.” Confira, a seguir, a entrevista completa:

Há pouco você lançou um livro aqui em São Paulo chamado Pernambuco Modernista. Há uma ideia de que o ponto alto do movimento foi aqui, mas na verdade ele teve diversas vertentes no Brasil. Como ele se deu em Pernambuco?

Nós fizemos um pré-lançamento do livro em São Paulo. Teve uma primeira parte da tiragem e como São Paulo estava realizando por meio da Secretaria Municipal de Cultura um evento para evidenciar ecos do modernismo brasileiro na cidade, aceitamos o convite e aproveitamos a oportunidade para trazer em primeira mão uma quantidade reduzida do livro para o leitor paulistano. Mas o lançamento oficial acontece no final de junho em Recife, no Museu do Estado de Pernambuco, com uma grande exposição que discute o que seria esse modernismo pernambucano. Voltando à pergunta, há a construção de uma narrativa oficial que dê conta de um modernismo no Brasil que teve vários polos irradiadores. São Paulo, evidentemente, foi um dos mais fortes e ao longo da história acabou se mostrando vencedor dessa disputa pela oficialidade da narrativa. Mas Pernambuco e Recife, como capital, era um grande centro irradiador de cultura. Naquele momento o nordeste vai deixando de ter a centralidade econômica do país, com o declínio do ciclo da cana-de-açúcar e algodão e São Paulo, com o café e a industrialização incipiente, começa a tomar a dianteira deste novo ciclo econômico do país, se consolidando, nas décadas depois, como a megalópole do Brasil e grande centro moderno. E uma série de intelectuais e artistas estão preocupados nesta São Paulo em forjar o discurso da modernidade e refletir também este novo mundo, se modernizando, que está deixando de ser apenas latifúndio, agrário, que abre mão, a duras penas, da mão de obra escrava, que está se urbanizando e representado por uma elite que tinha acesso aos códigos estéticos que estavam sendo discutidos e implementados na Europa. Então, a história do modernismo no Brasil na verdade é muito a história da erudição e do desejo manifesto das elites brasileiras. São Paulo e Pernambuco, como dois pólos importantes e tradicionais, um em formação, outro já consolidado em decadência, tiveram atores, membros dessas elites, preocupados em forjar um discurso estético em consonância com essa modernidade. O interessante é perceber que ela surge no Brasil tanto como um projeto de futuro, de cristalização de uma sensibilidade, de uma prática, de uma arte, estética efetivamente moderna, mas também vai se preocupar com a construção de uma tradição. Mário de Andrade, por exemplo, vai fazer aquelas viagens famosas, como folclorista, para tentar entender a ‘essência da cultura brasileira’. Lá no nordeste Gilberto Freyre cria todo um pensamento, uma ideologia regionalista, preocupado em estabelecer Pernambuco como o celeiro das grandes tradições do Brasil. Essa sociedade açucareira, patriarcal, com sensibilidades construídas historicamente a partir do encontro do colonizador português com as populações indígenas, as populações africanas escravizadas, esse caldeirão enorme patriarcal teria dado a origem com uma cultura extremamente original do ponto de vista civilizatório. Gilberto e alguns artistas do nordeste se preocupam em reconhecer elementos que possam ser organizados com uma visibilidade identitária. No sudeste Mário de Andrade e Oswald de Andrade também vão se preocupar com isso. Têm vários textos militantes sobre isso. Durante muito tempo você vai ter Mário em um pólo e Gilberto Freyre como ideólogos e depois, com um imenso poderio econômico que São Paulo adquiriu, e com sua capacidade de produzir hegemonia e ideologia, com produções acadêmicas, de narrativas culturais, a cidade acaba sendo oficializada, muitas décadas depois, como tendo tido a famosa Semana de 1922, capaz de explicar e sintetizar toda uma arte moderna e modernismo no Brasil. O fato é que houve e há muitos modernismos no Brasil, não só em Pernambuco, no Pará, em Minas, na Bahia. Mas a história é contada pelos vencedores. Por outro lado, temos um momento hoje muito feliz de uma tentativa muito feroz de reescritura dessas narrativas oficiais. A gente já tem um entendimento que essa história que estudamos na escola, escuta e repassa foi contada pelos vencedores. Por atores sociais capazes de produzir aquela visão hegemônica, até para organizar a composição dessa história em conformidade com esses interesses sociais. Então a história está sendo reescrita. O meu livro, de alguma forma, tem a pretensão de bagunçar um pouco a festa paulistana. Ele refaz em tom de crônica, é um livro que quero que seja lido por todo e qualquer leitor e conta um pouco esse percurso, como esse modernismo foi se construindo em Pernambuco, como quase se tornou algo minimamente hegemônico no Brasil e como ele foi apagado por essas disputas que narrei aqui. E tem um outro momento em que falo que Pernambuco acabou sendo privilegiado no sentido de manter uma integridade artística interessante. Conversava outro dia com meu amigo Marcus Lontra, que assinou o prefácio, um curador cujo nome está escrito na arte moderna e contemporânea brasileira, e ele diz que o estado teve a sorte de ficar na periferia, porque nos anos 1960 e 1970 a pintura e o figurativismo praticamente foram banidos destes círculos de prestígio no Rio e em São Paulo. É interessante observar que em Recife, a chamada arte contemporânea não exclui a chamada arte moderna, o figurativismo, o suporte tradicional. Claro, há momentos de maior tensão, mas não há uma maneira de exclusão. Vicente do Rego Monteiro para alguns críticos é o primeiro pintor moderno no Brasil, pernambucano que inclusive participou da Semana de Arte Moderna. Só que ele pegou o dinheiro e foi para Paris porque estava mais interessado em cuidar dos interesses pessoais. E por falar nele, Vicente, filho da elite pernambucana, foi muito cedo para Paris e estudou na Academia Julien, onde os principais nomes do cubismo se formaram. Mário de Andrade até ironizou em uma carta o fato de que Recife foi sede, palco, da primeira exposição de arte moderna da América Latina. 

Ia até te falar sobre ela, que foi em 1930. Como foi essa exposição?

Vicente estava indo para Recife batizar uma sobrinha, filha de Fedora do Rego Monteiro, também artista, e ele volta e fala com parceiros. Recolhe cerca de 30 quadros de Picasso, Léger, entre outros, e com muito esforço consegue realizar uma exposição no hall do Teatro de Santa Isabel, que é histórico, equivalente ao Municipal de São Paulo, onde Castro Alves fez seus discursos pelo fim da escravatura, e essa exposição é muito mal compreendida pela cidade. Pesquisei para fazer o livro, os críticos atacaram muito em um momento em que a imprensa escrita era a principal mídia. Eram vários jornais na cidade e eles dialogavam entre si, uns pedindo condescendência com a arte moderna, para não vandalizarem. E isso aconteceu. Em 1930 Cícero Dias expôs no Rio de Janeiro em um evento na Escola Nacional de Belas Artes, que foi a validação mercadológica dos propósitos da Semana de Arte Moderna, quase uma década depois. Quando ele apresentou o painel Eu Vi o Mundo, aquilo chocou a audiência, tanto os conservadores quanto os modernos, porque era de um erotismo pueril. Em pretexto de homenagear Joaquim Nabuco, retrata um engenho lúdico, meio surrealista e tinha um erotismo muito sem culpa. O painel foi vandalizado e perdeu dois ou três metros de seu tamanho original. A do Recife era comercial e não vendeu nada, foi um tremendo fracasso. 

No que difere o modernismo de Pernambuco do de São Paulo? 

Vou citar duas pintoras como exemplo. Eu e Marcus Lontra fomos curadores de uma grande exposição no Museu de Arte de Pernambuco, que acabou agora, de uma artista chamada Tereza Costa Rêgo, extremamente conhecida em Pernambuco, mas muito desconhecida fora das fronteiras por questões biográficas. Ela foi exilada, depois voltou para Recife e se viu muito feliz sendo pintora de Olinda, onde se estabeleceu. E Lontra diz que ela foi a grande pintora épica do Brasil dos anos 1960 para cá. Ela pinta a nudez das mulheres, o desnudamento diante da opressão do patriarcado, viveu questões políticas e pessoais muito perto, estava no Chile quando teve o golpe de Allende, visitou e conheceu os bastidores da China maoísta, viu a história de perto e incorporou isso na sua pintura. A mulher de Tereza é de uma sexualidade afirmativa, deixa de ser a musa do pintor homem e passa a ser aquela que assume a regência de seu próprio corpo. Ela tem na nudez não apenas física, hormonal, sexual, mas também sociológica, convocatória para desafiar o patriarcado. Você vê nela cores muito saturadas, um vermelho muito forte. Francisco Brennand me disse isso antes de morrer, que conversando com Cícero Dias ele dizia: ‘querem entender a minha pintura, observe o céu do Recife. Essa luz do céu que é de um azul à beira da perfeição’. Este modernismo praticado em Pernambuco incorporaria essa luminosidade tropical, os temas regionais, que à grosso modo se preocupa com a valorização da identidade regional. Brennand chegou a conhecer Picasso, morou na Europa, tinha uma família muito abastada. Poderia ter se tornado um artista de qualquer lugar do mundo se quisesse, mas resolveu se tornar um artista para o mundo a partir do Recife. A partir de um tempo abre mão de uns temas modernos e começa a fazer uma cerâmica com temas arcaicos e primitivistas, preocupado em incorporar as cores do nordeste, os tipos sociais, a vegetação, com a valorização do regional. E Pernambuco não abandona o figurativismo mesmo quando o resto do Brasil diz que pintar figuras era fora de propósito. Como exemplo tem as caipiras, figuras de Tarsila do Amaral, são geniais, mas à maneira dela, você vai encontrar ali uma paleta e volumetria mais próxima da modernidade europeia. Quando Mário diz para Tarsila voltar da Europa e pintar em brasileiro é com o sotaque do caipira paulistano, que é uma cor mais tênue, mais temperada, não tem o vermelho explosivo. E no nordeste tem essa saturação das cores em contraponto à paleta mais europeia que a arte sudestina apresenta. 

O livro surgiu de uma série de reportagens que você fez no estado. Durante a apuração, o que mais te surpreendeu?

Trabalhava como repórter do Jornal do Commércio e fiz uma série de reportagens, um germe do que viria a ser o livro. O que me chamava a atenção desde o começo é o fato de em Pernambuco ter esse modernismo de longa duração. Tive a oportunidade de conviver com artistas que começaram a praticar no início do século 1920, quando a modernidade era absolutamente incipiente e inicial, e fizeram dessa modernidade à pernambucana, às suas agendas. E atravessaram o século 20, entraram no 21, fazendo esse modernismo. Estou falando de Francisco Brennand que morreu há dois anos, que conversei muito, Tereza Costa Rêgo que morreu há pouco, Zé Claudio que está vivíssimo, um grande colorista, quase um etnógrafo, de pintar as frutas do nordeste, os carnavais de olinda, e com uma assinatura muito particular. Convivi com essas pessoas que chegaram ao século 21 fiéis a este propósito e vi que não podíamos perder isso. Precisava registrar a história dessas pessoas. 

Você acha que Pernambuco era modernista antes de São Paulo?

Pernambucano tem uma fama, que não é injustificada, de ser muito bairrista, de ter uma autoestima elevada. Bairrismos à parte, vou usar uma declaração de Paulo Herkenhoff, um curador paulistano inclusive, que foi até motivador do meu livro que disse ‘vocês tem uma história riquíssima para ser contada e que não foi ainda’. Levei para a editora e fiz a provocação. E ele dizia que antes dos Andrade, de Tarsila, de se unirem em São Paulo antes desse ideário, Pernambuco já era moderno com o frevo, uma dança moderníssima, era moderno com a sociologia de Gilberto Freyre, que quebrava paradigmas muito antigos das ciências humanas. Li muito a obra de Freyre ao longo da vida e ele tira a lupa do grande fato e traz que a comida é importante, o gesto, o jeito de olhar, para entender a formação da identidade social. E já tinha uma arquitetura, o porto da cidade, que permitiram contatos muito precoces desses jovens abastados com esses discursos da modernidade. Iam para Europa estudar, Coimbra, e voltavam com esses códigos. A gente não está em um Fla Flu para dizer quem foi o mais moderno, mas o fato é que quando acontece a Semana de Arte Moderna em 1922, em Pernambuco, de modo embrionário, já existia a construção de uma cidade moderna. 

A efeméride do centenário é uma forma de fazer justiça a história modernista de pernambuco e trazer à tona toda essa trajetória?

Sim, é o grande gancho. Como se está discutindo esse modernismo paulistano e como São Paulo tem tomado a iniciativa de rever sua história oficial, fazendo um mea-culpa, vamos alargar a lupa da história, é um momento adequado.

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 2 de maio de 2022

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