‘Talvez o movimento modernista não teria existido se não fosse a arte e a pintura de Anita Malfatti’, afirma a sobrinha-neta da pintora, Sylvia Malfatti

Foi das pinceladas fortes e diferentes de Anita Malfatti que a ideia de modernismo começou a ser discutida pelos jovens intelectuais que viviam em São Paulo no início do século passado. Uma mulher, que já havia estado na Europa e Estados Unidos para aprender arte, traduziu com as tintas o que todos queriam: uma mudança artística. Romper com o academicismo e inovar. A artista foi o chacoalhão que precisavam para enxergar qual o rumo tomar.

Esta é a opinião da sobrinha-neta da artista e herdeira responsável pela sua obra, Sylvia Malfatti. “Sabe aquela coisa do chacoalhão? Ela foi isso. Foi quando as pessoas começaram a pensar numa possibilidade diferente de arte. A importância é até hoje. Não é presunção minha, se você vai lá para trás e olha como era a arte, eram excelentes, obviamente, mas o chacoalhão mesmo foi ela.” A figura frágil, que tentam atribuir à Anita, ressalta, nunca existiu. “Ela não tinha um pedaço do braço direito. Mas frágil? Como que uma pessoa que em 1900 e pouco vai sozinha estudar arte, falando fluentemente alemão, inglês, francês, italiano e português, era frágil? Que viveu da arte, da pintura, que fez sempre o que quiz, não quis casar, como uma pessoa dessa é frágil?”, questiona. 

Babynha, como era carinhosamente chamada pela família, era uma mulher à frente de seu tempo e que se dedicou a vida inteira ao único casamento que optou por ter: o com a arte. Confira, a seguir, a entrevista completa:

São 100 anos de um movimento que teve como ponto de partida o pioneirismo de Anita Malfatti. Queria que me falasse sobre a obra dela, da qual é curadora hoje, e qual o papel que ela ocupa hoje na cultura brasileira?

Na verdade, são 100 anos onde ela foi a pioneira. Não existiria esse movimento se ela não tivesse iniciado com as exposições individuais e depois participando da Semana de Arte Moderna. Talvez esse movimento não teria existido se não fosse a arte e a pintura de Anita Malfatti. Eu sou a herdeira responsável (pela obra dela). E como tal, falo em nome da família, que acha que é de suma importância o papel dela nisso tudo. Se não tivesse tido 1914 e depois 1917 muito possivelmente não teria tido 1922. Sabe aquela coisa do chacoalhão? Ela foi isso. Foi quando as pessoas começaram a pensar numa possibilidade diferente de arte. A importância é até hoje. Não é presunção minha, se você vai lá para trás e olha como era a arte, eram excelentes, obviamente, mas o chacoalhão mesmo foi ela. 

Muito se fala sobre o artigo de Monteiro Lobato na ocasião da exposição de Anita de 1917. Acha que o escritor foi algoz na história dela?

Vejo da seguinte forma: talvez eu não consiga achar as palavras certas, mas acho que se fez, como se fosse uma névoa, em cima deste artigo, quando na verdade ele não criticou Anita Malfatti, ele criticou os ‘ismos’. Então criticou o modernismo, mas não ela. As pessoas confundem e acabam criando uma névoa em cima desta crítica como se tivesse, por exemplo, acabado com a vida dela, e não! Não aconteceu dessa forma. Se você pegar a crítica vai ver que ele não só fala dos ‘ismos’, mas como se refere a ela como uma artista talentosa e com uma arte toda ainda por aflorar. Fala muito bem dela. E as pessoas de uma maneira geral acabam confundindo uma coisa com a outra e colocando névoa num lugar que não aconteceu. Lobato inclusive pediu para Anita ilustrar alguns livros. Entende? Se fosse essa coisa nesse lugar onde colocam não teria tido continuidade, muito pelo contrário.  

A arte não era um espaço feminino. Ao ver a lista de mulheres participantes da Semana, poucas são aquelas que aparecem – e Anita foi uma delas. Como vê a representatividade de Anita naquela ocasião, o seu pioneirismo?

Vamos para o idos de 1900? A educação, a cultura, era muito patriarcal. Era uma sociedade masculina. As pessoas eram educadas para tocar piano, costurar, cozinhar, receber bem. De uma maneira geral aprender prendas domésticas. Acho que o fato da Anita ser tão sempre à frente ao tempo fez com que ela fosse quebrando esses tabus, ou melhor, a cultura vigente na época. Nesse sentido ela fez a vida dela sempre o que quis fazer. Sempre esteve à frente do tempo. Quis estudar fora, teve todo apoio da família para isso. Imagina uma moça no começo de 1900 estudar sozinha fora sem os pais? Acho que ela quebrou uma série de regras de comportamentos mesmo. Quebrou uma série daquilo que era esperado para a época. Foi pioneira sim, em tudo na vida dela. 

Por conta das críticas que Anita recebeu, e até mesmo pela sua questão física, por ser portadora de deficiência, pintam uma artista frágil, que driblava as tempestades para mostrar seu trabalho. Queria que você, como descendente dela, me dissesse quem ela foi de fato.

Anita faleceu quando eu tinha 4 anos. Não tenho uma lembrança tão vívida. Mas cresci ouvindo da minha mãe, da minha madrinha, das minhas tias, que são filhas dos dois irmãos da Anita, Alexandre e Guilherme, assim como da minha tia Georgina, outra irmã, que ela era sempre muito alegre, para frente, bem-humorada. Tem até a história do primeiro quadro, que é um burrinho correndo, que foi uma aposta dela com meu avô. Ele disse: ‘então tá, se você desenha tão bem quanto fala, vai lá e faz isso para mim’. E mostrou a capa de uma revista. Ela voltou com o burrinho correndo, que foi o primeiro quadro dela. Eles eram muito brincalhões um com o outro. Imagina uma pessoa com uma deficiência, que pintava do jeito dela, alegre da forma como era. É isso que escutei a vida inteira. Ela tinha um humor muito perspicaz, muito fino e muitas vezes até as pessoas demoravam um pouco para entender o que ela estava dizendo, porque Anita já tinha ido e voltado pelo menos duas vezes (risos).  Falava cinco idiomas fluentes. Em tudo ela era à frente do tempo. Ela era chamada de Babynha, inclusive o burrinho está assinado dessa maneira, de baby – o quadro é meu, porque foi feito para o meu avô. Era de uma vivacidade, ela estava sempre ligada, prestando atenção, tinha uma sede de cultura, de conhecimento, muito diferente da criação da época. Os pais eram estrangeiros, a criação era outra. 

Muitos falam sobre a paixão platônica que ela teria tido por Mário de Andrade. Ela gostou dele mesmo? Por que nunca se casou?

Anita nunca casou porque ela sempre disse que era casada com a arte dela. E que era através da arte dela que era feliz. E vamos com mais uma quebra de padrões: em 1900 se casava, tinham filhos, e não era essa a vontade dela. Ela nunca se casou porque não quis, porque dizia que assim era feliz, não precisava de um companheiro e de filhos porque ela tinha a arte e por isso bastava. Ela se bastava. Quanto ao Mário cresci ouvindo que existia uma paixão, era platônico, quando na verdade eles eram muito amigos. Sabe conexão de alma? Era isso que eles tinham. Também não compreendido na época. Olha quantas coisas hoje vêm à tona nesse centenário que já aconteciam naquela época, mas não era normal, usual. Imagina uma filha não casar, ter um amigo e não ter nada com ele a não ser uma amizade. Mas dentro da minha família sempre foi muito claro que os dois tinham uma amizade sem igual. E que começou de uma maneira que todos devem saber: ele foi à exposição e não parava de rir olhando as obras e ela ficou muito brava. Ele saiu sem dar explicações. Mais tarde voltou e disse que a reação dele era o riso no seu modo mais bonito, simples, feliz mesmo de estar vendo aquelas pinturas. E se tornaram grandes amigos. Quando que uma mulher tinha uma amizade com um homem que não fosse interesse de matrimônio? Eles tiveram isso, uma grande e bonita amizade. 

Existe uma ideia de que ‘a pintora modernista’ foi Tarsila do Amaral. Ela de fato foi, mas veio depois da Semana, evento que, inclusive, foi avisada por carta pela própria Anita. Acredita que sua tia seja injustiçada nessa história, até pelo fato do movimento ter crescido em São Paulo por causa de sua obra?

Não acho que houve injustiça. Apenas alguns equívocos. Como, por exemplo, a crítica que não foi a ela, mas ao modernismo, e que se tornou como se fosse para ela. Equívoco de uma mocinha frágil, por uma deficiência física, coisa que Anita nunca foi. Ela não tinha um pedaço do braço direito. Mas frágil? Como que uma pessoa que em 1900 e pouco vai sozinha estudar arte, falando fluentemente alemão, inglês, francês, italiano e português, era frágil? Que viveu da arte, da pintura, que fez sempre o que quiz, não quis casar, como uma pessoa dessa é frágil? Acho que tem muitos equívocos nessa história, mas não injustiça. Porque ela é sim reconhecida como a pioneira da arte moderna no Brasil. Ela é reconhecida como a força de uma mulher no começo do século e que viveu a vida inteira da arte e pela arte. Reconhecida pelo talento e pela personalidade que de frágil não tinha nada. É uma coisa que nós da família e eu enquanto representante nesse momento fazemos muita questão de enfatizar que essa figurinha frágil, pequenininha, nunca existiu, nem fora, nem dentro de casa. 

O Mário, em algumas cartas que trocava com ela, dizia que havia deixado de ser a Anita do início. E ela teria voltado a fazer uma arte normal para os padrões da época. De alguma maneira ela se influenciou por críticas para se adequar ao gosto da sociedade?

De verdade não. É isso que precisa ficar muito claro, a força que vinha de dentro. Ela sempre fez o que quis. Pintou da forma como queria. E teve, como todo artista, não é todos que permanecem com a mesma obra, pintando sempre do mesmo jeito. Inclusive porque vamos envelhecendo, mudando de opinião sobre as coisas, vendo o mundo de outro jeito. Acho que é isso, foi vendo o mundo da forma como achava correto. Ela diz: pinto ao meu modo, faço aquilo que eu quero. Num dado momento acabou se voltando para o mais simples e ela diz isso. Mas não acho que tenha sido por crítica, por não aceitação, muito pelo contrário. Foi premiadíssima dentro e fora do país. E foi para simplicidade. Agora, se você olhar um quadro mais para o final, uma Festa de São João, repara a força daquelas cores e pinceladas vai ver que Anita Malfatti está presente ali tanto quanto no Homem de Sete Cores. Não consigo perceber a mudança na pintura como algo em função do externo, nunca foi isso. 

Com o centenário da Semana, acha que é uma oportunidade para que as pessoas atentem sobre a importância de Anita na história da arte?

Tudo o que é da cultura e para cultura do país é sempre muito importante. O centenário traz a possibilidade das pessoas perceberem como era, o quanto aquilo foi inovador, teve força e o quanto ainda é, porque continua presente na arte de rua, na arte do que a gente vai chamar dos novos, porque estamos em 2022. Continua presente a força, a vivacidade, a vitalidade da arte brasileira. Acho que olhar para esse centenário é compreender a história da nossa arte, o movimento que a arte veio fazendo desde 1922, antes também, mas como inovação já em 1922 e percebendo que isso continua a evoluir e a estar presente nos dias de hoje. É primordial que se olhe para cultura dessa forma tão intensa, presente, tão bonita de expressão. Olhar para o centenário é poder ver tudo que tem ao redor e que começou ali na pintura, na música, na poesia, nas artes, que é isso que é importante. E acho que está presente até hoje, e espero que continue, porque a nossa cultura brasileira não tem para ninguém. Somos muito prósperos e felizes na nossa arte em toda espécie. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 27 de junho de 2022

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