João Miguel Jr./Rede Globo

‘Tarsila criou a obra mais representativa do modernismo brasileiro nas artes plásticas’, diz a dramaturga Maria Adelaide Amaral

Os almoços entre intelectuais de São Paulo eram recorrentes na casa do mecenas e empresário paulistano, Paulo Prado. E foi em um deles que surgiu a ideia de fazer algo que ‘chocasse o público’ e unisse diversas artes. Nas palavras de Mário de Andrade, uma ‘Semana de Arte Moderna’. “Bom, eu posso conseguir o Theatro Municipal”, sugeriu Prado, ao ouvir o ensejo do escritor. “Se não cederem graciosamente, junto um grupo de amigos abonados para pagarem o teatro”, completou. Corta. Aparece a fachada do dito teatro, alugado por 847 mil réis, seguido por imagens de quadros um tanto diferenciados. 

A cena descrita acima é a tradução de um dos momentos mais importantes da história brasileira e esteve presente na minissérie Um Só Coração, escrita por Maria Adelaide Amaral e transmitida pela Rede Globo, em 2004. Na trama, que teve como proposta comemorar os 450 anos da cidade de São Paulo, segundo a autora, primou pelo ponto de vista cultural da cidade. Por fazerem parte de toda essa história, os modernistas integraram o grupo de protagonistas da produção global. E, com destaque, para Tarsila do Amaral, personagem que mais marcou a dramaturga.  “Além de ser uma linda mulher e um belo caráter, viveu um ardente romance com Oswald de Andrade e criou a obra mais representativa do modernismo brasileiro nas artes plásticas”. Confira, a seguir, entrevista exclusiva de Maria Adelaide à Agenda Tarsila:

Para compor a minissérie Um Só Coração, de 2004, de que maneira fez a pesquisa para inserir os modernistas e o evento da Semana na história?

A proposta da minissérie era contar a história de São Paulo do ponto de vista da cultura, começando com a Semana de 22 e terminando com a segunda Bienal, em 1953. Os modernistas eram parte dessa história e constituíram o fio condutor da trama, juntamente com Yolanda Penteado e Ciccilo Matarazzo, aos quais se deve o MAM (Museu de Arte Moderna) e a própria Bienal e, posteriormente, o MAC (Museu de Arte Contemporânea), além do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia) e a Companhia Cinematográfica Vera Cruz (em São Bernardo do Campo).

O que mais te surpreendeu durante esta pesquisa e que foi inserido na minissérie, principalmente sobre a elaboração da ideia da Semana de Arte Moderna?

Sem dúvida, foram as histórias de bastidores, que sempre renderam boas cenas, tais como: Villa-lobos entrou de chinelos no Theatro Municipal, o que foi considerado uma irreverência modernista. Na verdade, ele estava com o pé doendo devido a um calo inflamado. Graça Aranha proferiu o discurso inaugural da semana não por amor ao modernismo, mas a Nazaré, a irmã de Paulo Prado, um dos idealizadores e patrocinadores da Semana. Oswald de Andrade incentivou os estudantes a vaiarem e lançarem tomates e outros ‘petardos’ ao palco para insuflar ânimos e causar escândalo. O que levaria alguns artistas como Guiomar Novaes, muito jovem e de família conservadora, a se arrepender de terem participado. 

Qual foi o personagem que mais te encantou na história?

Tarsila, que chegou de Paris quatro meses depois da semana. Além de ser uma linda mulher e um belo caráter, viveu um ardente romance com Oswald de Andrade e criou a obra mais representativa do modernismo brasileiro nas artes plásticas.

Existe uma ideia já difundida de que o modernismo não foi originário em São Paulo,  mas sim no Rio de Janeiro, Capital do País, anos antes. Como você vê esta polêmica?

A Semana de Arte Moderna acabou passando para a história como o evento oficial, mas os ventos modernistas já tinham invadido o país. Basta ver a obra de (Vicente do) Rego Monteiro, em Pernambuco e (Alberto da Veiga) Guignard, em Minas Gerais, a poesia de Ronald Carvalho, o teatro Álvaro e Eugenia Moreyra, no Rio de Janeiro, mas certamente os especialistas como Carlos Augusto Calil têm mais conhecimento do que eu para discorrer sobre o assunto.

Acredita que os egos dos envolvidos na Semana de Arte Moderna fez com que o grupo modernista – principalmente os principais – se dissolvesse?

A Semana foi um evento. A vida continuou, os protagonistas reforçaram ou modificaram suas convicções a respeito do modernismo. As divergências entre Mário e Oswald de Andrade teriam ocorrido com ou sem a Semana de Arte Moderna. O primeiro fruto do modernismo foi o Movimento Pau-Brasil, em 1924, no qual a participação de Tarsila foi fundamental. 

Como você vê os ecos que este evento provocou na cultura, 100 anos depois?

Se ainda estamos discutindo o tema é porque continua despertando interesse, como evento simbólico ou fundamental.

Acredita que o legado deixado por eles no início do século passado passou por uma reformulação e hoje é mais democrático e plural?

Na década de 20, o acesso à cultura era restrito às classes mais favorecidas. A partir da segunda metade do século 20 a sociedade se torna progressivamente mais democrática e plural e, em consequência, um número maior de pessoas passa a se interessar e ter acesso aos bens culturais de modo geral.

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

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