Heloisa Bortz/Divulgação

Theatro São Pedro terá óperas, espetáculos de dança e encontros para celebrar a Semana de Arte Moderna

O Theatro São Pedro se tornou centenário há pouco. Portanto, já está experiente quando o tema é celebrar décadas de existência. Tanto que tem uma programação especial, diluída durante todo ano, para celebrar não só a efeméride da Semana de Arte Moderna de 1922 como também o bicentenário da Independência do Brasil.

Quem dá os detalhes é o gestor artístico da Santa Marcelina Cultura, Ricardo Appezzato, que gerencia não só o espaço cultural como também a EMESP (Escola de Música do Estado de São Paulo) Tom Jobim e o Projeto Guri. Segundo ele, são onze óperas durante a temporada, além de apresentações da São Paulo Companhia de Dança, encontros e bate papos, além das apresentações dos jovens que fazem parte tanto da escola de música quanto do projeto infanto-juvenil, tem 280 pólos espalhados pelo estado. 

Para ele, estes são os maiores beneficiados do ideário modernista. “O grande legado é realmente serem inconformados com o que a gente tem, sem desrespeitar a nossa história. Mas este inconformismo de querer perguntar, fazer, questionar, misturar”, acredita. Confira, a seguir,  entrevista completa à Agenda Tarsila: 

Você coordena uma programação extensa da Santa Marcelina Cultura, que gerencia o Theatro São Pedro. Queria que você falasse o que está previsto para ser feito neste espaço cultural que tem a ver com o centenário da Semana de Arte Moderna?

Aqui na Santa Marcelina cuidamos de três grandes programas em parceria com a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, que é o Theatro São Pedro, com toda sua temporada de ópera, ballet, concertos, a EMESP Tom Jobim e o Projeto Guri, da Capital, Grande São Paulo, interior e litoral. Para consolidar toda programação que a gente imaginou neste ano temos três importantes pontos, efemérides, que são o bicentenário da Independência, de 1822, a Semana de Arte Moderna, de 1922 e, querendo ou não, é também 2022, que é quando as artes começam a retomar presencialmente de forma um pouco mais consistente. O que debatemos muito para consolidar a temporada? Esses três ‘22’, três faces, que têm em comum uma expectativa de futuro. O que a gente espera? Possivelmente na Independência, o que é essa coisa da República, o que é esse novo e como as artes dialogaram com isso? Depois a Semana de 1922, a discussão do fazer artístico brasileiro, com todas as aspirações multiculturais e eu sinto que em 2022 a gente também busca: que futuro é esse que as artes vão ter? Que música é essa que a gente espera? E foi com base nisso que pensamos nas atrações diversas dos três programas. No Theatro São Pedro a gente tem algumas frentes. Um espetáculo com a São Paulo Companhia de Dança, que é uma grande parceira. Este ano a gente faz o décimo espetáculo juntos em quatro anos. Vamos ter dois espetáculos em três semanas. Um que trabalha o repertório de Villa-Lobos, com coreografia sendo feita em cima do Choro 6, importante obra do compositor, e também uma interpretação em cima da obra de Francisco Mignone, que também foi uma coreografia feita para nós, estreamos no ano passado e é um projeto chamado Madrugada. Como segundo espetáculo temos um programa mais camerístico, com piano, artistas da orquestra, formações menores, que é o Infinitos Traçados. Que traz também compositores contemporâneos, Villa-Lobos, Camargo Guarnieri, brasileiros e também sul-americanos. Eles fazem um contraponto com o modernismo, não só trazendo esse nacionalismo, mas também com outras perspectivas do modernismo da América do Sul. Além disso, vamos ter duas programações de música de câmara que são bem interessantes: uma vai ser um mergulho efetivo, em outubro, de 24 a 26, com curadoria da Camila Fresca, que a gente também vai fazer esse contraponto de obras que foram importantes de compositores envolvidos de uma certa forma com a Semana, mas também esse desdobramento. Na verdade, o grande barato, a Semana foi muito importante, mas que desdobramento foi esse que se deu na arte. Trazer até hoje a compositores que inovaram e questionaram. Teve um movimento importantíssimo nacionalista, mas hoje existe um questionamento de globalização da arte. A Semana vai ser um estímulo que vai se desdobrando. Ao todo, no projeto, são oito concertos e, permeando eles, debates, conversas, encontros. O mesmo vai acontecer também no encontro com o balé, junto com espetáculos, debates com música e dança, relação do corpo com o som. Possivelmente serão presenciais com transmissão. E o outro projeto no Theatro, com curadoria do Ricardo Ballestero, um grande pianista, que vai trazer dois concertos contextualizando um pouco o universo musical das duas efemérides. O primeiro concerto vai trazer compositores importantes de 1822, algumas obras inéditas, e depois um ciclo de 1922 até hoje. Este ano, 2022, tem uma importância histórica muito grande nesse recomeço, nesse fazer artístico após quase dois anos de isolamento. A proposta foi diluir os espetáculos durante o ano todo, para que o público também possa, o ano todo, curtir  as atividades. Temos então o espetáculo de dança maio e junho, a semana em outubro, novembro.

Vocês gerenciam também a EMESP Tom Jobim e o Projeto Guri. O que preparam e qual a importância de levar esse legado modernista para os mais jovens?

Isso é uma coisa bem legal. Quando a gente trata dessa questão de perspectiva de futuro, os jovens são o futuro. É importante que eles questionem também tudo isso que a gente vem fazendo hoje. Então toda construção dos trabalhos artísticos do Guri, por exemplo, estão levando em conta esse legado da Semana de 1922. Não necessariamente a gente vai ter o stricto sensu de tocar as obras que foram representativas lá, mas a proposta é justamente como esse legado impactou as diferentes frentes de estudos artísticos. Então vamos ter desde repertórios que vão resgatar matrizes do choro, que de uma certa forma impactou na Semana, vamos ter uma coisa bastante atual, do tipo o que seria moderno hoje? Passamos um pouco de ser só uma questão estética musical, mas que cara tem o criador hoje, quem faz a música? Hoje ela tem de ser diversa, tem de ter equidade de gênero, os compositores têm um universo que devem levar em consideração que vai muito além só da estética. Priorizamos muito, então, encomenda de obra para compositores LGBTQIA+, tem programas que vão tratar disso. Não está ligado esteticamente à musica nacionalista, mas é uma provocação moderna de hoje. A gente sempre se pergunta: cadê as compositoras do século 19? Elas foram apagadas da história. Hoje existe um trabalho de resgate, mas em tese não é que não existiam. A ideia é trazer durante toda programação o olhar para isso também: o ser moderno hoje não é só tocar música contemporânea, tem de dialogar com as questões da contemporaneidade. Esse é um ponto importante. Em 1922 as questões eram outras, a gente replicava uma cultura que não era nossa. Hoje é possível criar conexões da cultura de periferia, diversa e isso vai ser, de uma certa forma, toda linha condutora dos grupos infantis do Guri. 

Para quem não sabe, o que é o Projeto Guri?

É um programa musical de inclusão sócio-cultural, que hoje está na Capital e Grande São Paulo, com 44 polos espalhados, além do interior e litoral. Ao todo são 280 pólos, mais de 60 deles na Fundação Casa, e como resultante desses pólos existe um programa de grupos infantis e juvenis que une alunos de todos os polos que se juntam para fazer música. Dentro do Guri tem uma orquestra sinfônica, duas bandas sinfônicas, um coro juvenil, camerata, big band, coro de familiares e um infantil. Ao todo são 60 concertos feitos nos mais variados locais da cidade, vai ter no Theatro São Pedro, na Pinacoteca, Fábricas de Cultura. A proposta é que a gente espalhe esses concertos ao máximo para que também crie esse vínculo desses meninos, que a maioria mora nas áreas mais periféricas da cidade, e ao mesmo tempo, possam ir a importantes teatros e espaços culturais da cidade. Em julho teremos uma orquestra de rua, estamos usando como temática esse repertório do legado da Semana de 1922. É um grupo musical que ocupa um lugar que não é musical e isso também é moderno. Talvez a gente tenha que quebrar um pouco as paredes da sala.

Esse é o principal legado dos modernistas para estes jovens, de sair da caixa, espalhar a arte brasileira, fazendo uma antropofagia do que se aprende? Eles são os novos modernistas?

Sim, o grande legado é realmente serem inconformados com o que a gente tem, sem desrespeitar a nossa história. Mas este inconformismo de querer perguntar, fazer, questionar, misturar. Que música é essa? Hoje você tem tecnologia, tem celular, é outra coisa. É uma constante reinvenção e questionamento sem anular a tradição. A gente não precisa apagar a história. Tem de questionar, refletir e se inconformar com ela. Tentar fazer um desenho do futuro como vai ser, com acertos, erros e sabendo que o tempo vai passar. Tem um movimento destes jovens. Não sei se um novo modernismo, o movimento tem uma questão histórica, acho que é ser moderno, ser contemporâneo, lidar com as questões de hoje. Poder se conectar, globalizado. Como você explora isso? Esse é o grande legado, e sem travas, porque o processo criativo tem de ser livre.

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

Publicada em 2 de março de 2022

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