‘Uma revolução não pode ser desprezada e vejo a Semana de Arte Moderna de 1922 como uma das mais importantes que o Brasil já teve’, diz o jornalista Miranda Sá

O dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956), em um de seus mais célebres pensamentos, avisou que a política está em tudo: no preço do feijão, do remédio,  do sapato, enfim, em tudo que parece corriqueiro, mas envolve o cotidiano de qualquer cidadão. E a arte – de onde tirava seus rendimentos -, não só na Europa como em qualquer lugar do mundo, não ficou imune desta realidade. 

Se puxarmos a premissa para o território brasileiro e analisarmos o cenário do início do século passado, por exemplo, política e cultura andavam de mãos dadas. É o que defende o jornalista Miranda Sá, estudioso político e das artes, que teve passagem em grandes veículos de todo país como a Editora Abril, as Organizações Globo e o Jornal Correio da Manhã. Recebeu dezenas de prêmios em função da sua atividade na imprensa, como o Esso e o Profissionais do Ano, da Rede Globo.

Ele defende que a Semana de Arte Moderna de 1922 foi uma grande revolução, uma das maiores que o país já teve a oportunidade de testemunhar. E que o movimento modernista esteve diretamente ligado ao Tenentista, de 1922, contra a República Velha, e, posteriormente, à Coluna Prestes, movimento liderado por Luís Carlos Prestes que percorreu o Brasil e combateu os governos de Artur Bernardes e Washington Luís.

“Estes dois movimentos revolucionários, cultural e político, coincidiram, mas praticamente arrefeceram depois da tomada do poder por Getúlio (Vargas). Houve um esfriamento deste tipo de trabalho, porque a intelectualidade da segunda geração ou aderiu ou se omitiu em relação à oposição a Getúlio. Nós só tivemos oposição dos comunistas, das lideranças presas e do Cassiano Ricardo (jornalista, poeta e escritor), que fez aquele discurso do sistema paulista de democracia, que foi muito interessante, inclusive, por herança da Semana”, diz o jornalista. Confira, a seguir, a entrevista exclusiva que ele deu à Agenda Tarsila:

A revolução cultural da Semana de Arte Moderna de 1922 começou por meio das artes e atingiu também o meio político. Teve a questão do tenentismo e também a luta dos trabalhadores. Queria que você me falasse como se deu essa inserção das artes no mundo político brasileiro no início do século passado.

É uma alegria participar de um trabalho como esse, porque considero que uma revolução não pode ser desprezada e vejo a Semana de Arte Moderna de 22 como uma das mais importantes que o Brasil já teve. Gosto muito de olhá-la pelo aspecto político porque realmente, pela minha formação familiar e livresca, só consigo vê-la por este aspecto. Na época, não como um pensamento voltado para a libertação dos trabalhadores, que viviam na situação mais triste do mundo, mas isso veio depois com a Revolução de 30. Que foi feita com a segunda geração da Semana de 22.

Até Getúlio Vargas falou que essa Revolução de 30 teve o dedo do grupo da Semana de 22. Você concorda?

Totalmente. É quando entra justamente esse aspecto do trabalhador. Quando Getúlio deu o golpe de 1937 e implantou o Estado Novo, ele se voltou para os trabalhadores que eram uma focalização internacional na época. A Carta del Lavoro (guiava as relações de trabalho) da Itália, de (Benito) Mussolini, por exemplo, teve uma grande influência no Brasil. Então os sindicatos passaram a funcionar, muito embora sobre a ponte do governo, mas passaram a funcionar. O que acabou com o anarco sindicalismo sofrendo apenas a influência do Partido Comunista. Getúlio, então, fez grandes concessões à classe trabalhadora, o que matou um pouco o aspecto revolucionário político originário da Semana de Arte Moderna e dos movimentos tenentistas. Porque houve uma coincidência. Quando a Semana se reuniu, primeiro com os cinco pioneiros, coincidentemente a tenentada brasileira fez a revolução. Primeiro o Forte de Copacabana, a Revolta do 18 do Forte (primeira ação do movimento tenentista contra a República Velha), e depois a Coluna Prestes (movimento liderado por Luís Carlos Prestes que percorreu o Brasil e combateu os governos de Artur Bernardes e Washington Luís). Estes dois movimentos revolucionários, cultural e político, coincidiram, mas praticamente arrefeceram depois da tomada do poder por Getúlio. Houve um esfriamento deste tipo de trabalho, porque a intelectualidade da segunda geração ou aderiu ou se omitiu em relação à oposição a Getúlio. Nós só tivemos oposição dos comunistas, das lideranças presas e do Cassiano Ricardo (jornalista, poeta e escritor), que fez aquele discurso do sistema paulista de democracia, que foi muito interessante, inclusive, por herança da Semana. 

E ao longo dessa década, os modernistas que começaram unidos foram se dissipando em grupos. Inclusive do ponto de vista político. Queria que você me desse esse panorama, principalmente na questão do tenentismo. 

Essa divisão ideológica teve a participação de muitos protagonistas da Semana, tanto do aspecto da direita quanto da esquerda, mas ela foi tendo um caráter internacional. Foi depois da Revolução Bolchevista de 1917, e os comunistas tomando o poder formaram a Internacional Comunista dando uma assistência geral aos Partidos Comunistas nacionais e, ao mesmo tempo, o surgimento do fascismo na Itália, com uma força extraordinária pela sua atuação junto às massas. O seu herdeiro, consorte, é Hitler, na Alemanha, com o nazismo. Juntou ‘lé com cré’. No Brasil, havia a afirmação nacionalista. Então, quando a influência internacional chegou aqui, dividiu praticamente o país entre nacionalistas e internacionalistas. Sendo que estes últimos foram mascarados, porque a Internacional Comunista, na época, defendia a formação de frentes nacionais e populares. E não ações diretas e comunistas revolucionárias. Neste quadro nós tivemos a Ação Integralista Brasileira, liderada por Plínio Salgado, que foi um dos participantes – secundário – da Semana de Arte Moderna. Ele sofreu tanta influência do evento que seu primeiro livro publicado O Estrangeiro (1926) é praticamente o que a Semana de Arte Moderna queria. E, do outro lado, se é para personalizar, teve o capitão Luís Carlos Prestes que liderou a Aliança Nacional Libertadora. Esse embate durou até 1935, quando houve a tentativa de tomada do poder dos comunistas que fracassou totalmente. Tanto que é chamado pelas direitas brasileiras de Intentona Comunista, porque não passou de uma intentona (tentativa de motim). Por outro lado, Plínio Salgado viu o seu movimento crescer com o apoio dos grandes proprietários rurais e dos empresários industriais incipientes. E com esse apoio e uma certa penetração na igreja, onde se via a figura linda de Hélder Câmara e dos militares, Plínio Salgado foi para cima e assustou Getúlio. E o apressou, tanto que não permitiu a eleição programada para 1937 e deu um golpe de estado e criou o Estado Novo. Isso com o apoio de muitos intelectuais, herdeiros da Semana de Arte Moderna, como Villa-Lobos, por exemplo, uma das figuras que mais o apoiou, Gilberto Freyre, Câmara Cascudo, que eram integralistas ou comunistas e ficaram com ele. 

E nesta época também surgiu o Partido Comunista no Brasil, como você mencionou. Nomes como Pagu, Oswald de Andrade, foram filiados a ele. E ele, por exemplo, era muito rico. O que atraia ele a este ideário? 

É um fenômeno humano. Um dos grandes líderes comunistas chineses Zhou Enlai era mandarim. E viciado em ópio. Ele foi para Alemanha estudar e quando voltou para China se trancou em um quarto para se libertar do vício e se tornou um dos maiores líderes da revolução chinesa. O Oswald não ficou sozinho. Nós tivemos o Nelson Werneck Sodré (militar, escritor e historiador marxista), o Caio Prado Júnior (escritor, editor e político), que era rico também. Esse fenômeno aconteceu em vários lugares do mundo, e no Brasil não podia ser de outra forma.

Mas eles foram, de fato, comunistas?

O Caio Prado Júnior escreveu o primeiro livro de interpretação marxista no Brasil. E o Oswald, toda atuação de pesquisa que ele apresentou era voltada para influência revolucionária das classes subjugadas. 

A Tarsila se casou com um comunista, o psiquiatra Osório César, foi morar na União Soviética. E nas suas obras ela também levou essa questão social

Isso, na segunda fase (do modernismo), justamente quando houve uma ruptura do movimento de esquerda. Com o fracasso da revolução de 1935, a Internacional Comunista tenta influenciar a intelectualidade brasileira com direção do chamado romance da realidade socialista. Muitos deles romperam. Tarsila rompeu totalmente com o Partidão, tem até um momento que ela diz ‘apesar do policialismo stalinista eu continuo socialista’. Mas ela denunciou o stalinismo, porque o partido se dividiu entre trotskistas e stalinistas, sendo que os trotskistas protestaram contra a intervenção soviética na cultura brasileira. 

Nos 50 anos da Semana, no auge da ditadura militar, em 1972, os militares usaram do ideário do movimento para reafirmar esse nacionalismo. Como você vê este uso da questão da Semana para algo que foi tão fascista?

É um ponto de vista. O problema não está no fascismo. Está justamente na visão radical nacionalista. E passa a ser extremista. A gente teria de dar uma volta e ver a formação dos militares. Os generais de 1964, principalmente os intelectuais, eram herdeiros diretos do tenentismo. Então a influência dos militares durante o regime após a derrubada do Jango sofre uma grande influência da Semana de Arte Moderna e dá muita saudade disso. Muito embora não tenha concordado com eles, eu tinha uma profunda admiração pelos estudiosos que participaram dela. Que são intelectuais seríssimos que participaram da ditadura militar e deram até um certo cheiro socializante à revolução. Costumo dizer que o regime militar, do qual não concordo – estive inclusive preso durante aquele tempo, por discordar e combater (e ficou exilado nove meses em Caracas, na Venezuela) – ele foi mais socializante do que todos os governos da redemocratização. Você pode olhar o aspecto econômico. 

E como jornalista, de que maneira vê o tratamento que foi dado à Semana de Arte Moderna ao longo deste século. Tanto quando aconteceu quanto depois, que foi revisitada de outras formas?

É falta de estudo. Infelizmente a educação no Brasil, e estamos tendo o exemplo agora do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), que está sofrendo uma intervenção política e passando a ser a cara do governo e não a cara da história, é um problema muito sério. Foi um esquecimento quase que total, no início, até 1930. E durante a ditadura Vargas, com a intelectualidade praticamente sufocada e os movimentos políticos também enclausurados, se formou clandestinamente, subversivamente, a geração de 1945. Foi quem reviveu o ideário da Semana de Arte Moderna. Até então ficou praticamente apagado. A sua influência era vista, se fosse estudada profundamente, na explosão do romance regional. Da própria Rachel de Queiroz, do Gilberto Freyre, do Graciliano Ramos, Amando Fontes, José Lins do Rego, são intelectuais que sofreram profunda influência do nacionalismo que nasceu com a Semana de 22. E a geração de 1945 foi a terceira. A verdade é que os tempos eram outros. As mídias não tinham grande preocupação. A cultura ficava muito limitada ao suplemento literário dos jornais e às tentativas de fazerem jornais de cultura. É por isso que a Semana de Arte Moderna sofreu um esquecimento, entre aspas, mas um esquecimento por conta da educação.

Hoje a mídia é mais democrática neste sentido. Se a Semana ocorresse hoje ela seria mais difundida?

Ela (mídia) tem a necessidade de explicar certas coisas. Você pode notar que a mídia hoje tem duas editorias permanentes que é a da ciência, você está sempre recebendo notícias sobre avanços científicos, e a de cultura. Está sempre vendo não apenas a questão teatral e musical, como vê também os best-sellers internacionais, a literatura brasileira, inclusive com uma visão muito mais ampla e séria do que a Academia Brasileira de Letras, que está se transformando em um clube de ex-artistas da Globo, jornalistas do sistema, agora até um advogado entrou. Os jornais estão fazendo um trabalho muito maior do que a ABL.

No início do século passado vivíamos um momento peculiar da história. Era Primeira Guerra Mundial, pandemia da Gripe Espanhola, crise econômica. Dá para traçar um paralelo com o que estamos vivenciando hoje, um século depois?

Não vejo assim. Acho que para nós, sob as rédeas da Semana de Arte Moderna, a Segunda Guerra Mundial influenciou bastante o ressurgimento da Semana. Já falei da geração 45, ela atuava muito. A democracia passou a ser exaltada nas revistas internacionais, no próprio jornalismo, o Globo, Estadão, a Folha defendiam a luta da democracia contra o fascismo, o que influenciou o surgimento da liberdade de expressão. Hoje não se vê muito isso. Na minha opinião, tirando os caras que eram tenentes no tempo da Guerra Fria, que enlouqueceram com o anticomunismo, como o presidente da república de hoje (Bolsonaro). Eles veem o comunismo em todo lugar. Mas isso é fruto da Guerra Fria ou de qualquer problema cultural. Os generais hoje não estudam mais. Nunca mais ouvi falar na Escola Superior de Guerra, que foi um foco motor cultural, de discussão de vida, não somente de geopolítica.

Para você qual foi o maior legado deixado pela Semana de Arte Moderna, tanto do ponto de vista artístico quanto político?

Foi a visão nacionalista. Você vê que ela leva a coisas muito sérias. Primeiro porque os romances regionais que citei aqui antes se preocupavam muito com o social. De Raquel, de Graciliano, do Jorge Amado, que foi herdeiro da Semana com seu regionalismo. A saga do cacau na Bahia foi muito importante. Isso foi que ditou e fez uma tatuagem na cultura brasileira. Que veio renascer depois, misturada com o social bem aprofundado, no teatro com Gianfrancesco Guarnieri, Eles não Usam Black Tie (lançado no auge da ditadura), que é uma coisa que os Andrade gostariam muito de ter feito. 

E você vê este instinto nacionalista na arte feita hoje?

Menos. Mas não por culpa de uma visão patriótica e brasileira, mas por uma questão internacional mesmo. É impossível frear a globalização econômica e é impossível esconder a cultura mundial que está chegando. Hoje você tem notícia de romancista do Zimbabwe, de um poeta da África do Sul, de um poeta de Angola, de Cabo Verde, de Hong Kong. Essas coisas a gente não pode evitar entrar. Outro dia escrevi um artigo sobre a língua, dizendo que é impossível evitar o uso de termos tecnológicos graças ao que estamos fazendo na televisão. Hoje tem de usar o termo em inglês, não é como antigamente. Hoje não há condição de firmar uma produção nacionalista. Um dos grandes fenômenos municipais dos últimos tempos foi a bossa nova com a grande influência do jazz. 

(Miriam Gimenes/Agenda Tarsila)

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